Por Gilmaro Nogueira*

Já se passaram seis anos e é a primeira vez que tenho coragem de falar sobre a dor de perder alguém para a homofobia. Eu faço questão de esquecer a data, mas meu corpo sempre lembra. Geralmente eu fiquei doente todos os meses de julho, dos últimos seis anos. O que ocorre de mais estranho é sentir punhaladas no peito, achar que é algum problema no coração e no dia seguinte lembrar que foi a data que meu companheiro foi assassinado (Isaac Sousa Matos).

Este ano, além dos avisos que meu corpo recebe, os quais não tenho explicações, a morte de Leonardo Sousa ou Léo, como era chamado, faz questão de me trazer todos os sentimentos à   tona. Léo foi espancado após sair de uma boate no Rio Vermelho-SSA. Após atendimento médico, foi liberado, teve complicações e faleceu.

Retorno ao dia 10/07/2011, ao chegar em casa e encontrar meu companheiro esfaqueado. Eu sem saber o que fazer, pensar… sem estar pronto para vivenciar um ato de brutalidade. Não sei ainda como tive condições de viver aquele momento e, talvez só seja possível porque ele é um fato imprevisível, que você não está preparado. Passaram-se dois anos para que eu pudesse entender que a morte leva a pessoa, para não ficar esperando ela chegar em casa, telefonar e, enfim, eu acordar de um pesadelo. Dois anos para aceitar a morte e uma vida para não aceitar a perda.

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Depois de um tempo, descobrimos que os criminosos roubavam e matavam por dinheiro e já tinham feito outros crimes de latrocínio em outros estados. Mas a cena do crime evidencia que, ao se matar um homossexual, não se quer tirar a vida, mas castigá-lo, puni-lo por não ser heterossexual. Os crimes são atos de brutalidade. Geralmente, quando um heterossexual é assaltado, leva-se os pertences. Quando um homossexual é assaltado, leva-se a vida, com um requinte de crueldade, com atos brutais contra seu corpo. Isso marca a diferença de um assalto ou morte de um indivíduo heterossexual e outro homossexual. Os corpos dos segundos são golpeados não apenas para tirar-lhes a vida, mas para vingar-se de sua existência.

Dois anos para que eu pudesse esquecer as brutalidades feitas ao corpo, porque enfim, hoje, penso que o corpo de quem vai agora não sofre, nem sente dor. Brutalidade que machuca quem fica, pela perda, por não conseguir imaginar tamanha covardia e desumanidade.

E no mesmo dia que Léo foi espancado, outro rapaz também foi agredido no mesmo bairro. Não são acasos. Não são aleatórios. Jamais consegui ler os comentários das pessoas sobre a morte de Isaac. Pessoas que o culpavam; outros até se alegravam com sua morte. Uma sociedade que não sente a dor da perda, de mães, pais, irmãos e amigos, e que nega a determinadas pessoas sua humanidade, não pode considerar que o assassinato seja um acaso, mas um itinerário de violência que se inicia nas piadas, no bullying e passa ao ato – a morte.

Hoje, Leo nos deixou. Em alguns dias, outro o fará pelo mesmo motivo. Hoje, ele é notícia, amanhã ele será esquecimento. Sua família vai estar marcada para sempre, enquanto a mídia irá se concentrar em outro corpo, pois, infelizmente, a homofobia não para.

Dói a perda, a falta, a lembrança do crime, a lembrança da vida. Dói o silêncio da sociedade e dói cada vez que
alguém diz que homofobia e transfobia não existe. Dói ver nossas vidas usadas para política partidária e troca de votos.

Não tem um dia sem que eu entre em casa fechando a porta rapidamente, com medo, pois a experiência me ensinou que não posso confiar nas pessoas, nos humanos, que meu corpo pode ser silenciado e serei notícia por uma semana.

Sem esquecer dos assassinatos transfóbicos, que não causam comoção social, que não produzem perfis somos todos trans! e que não geram choro e clamor.

Em memória de Isaac, de Leo Sousa e Diego Vieira.

 

* É psicólogo, membro do grupo de pesquisa CUS da Ufba e do grupo Mães Pela Diversidade

 

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