Acompanho Lulu Santos desde quando ele dava a voz para a trilha sonora de abertura da novela Malhação. Me encantava com a performance e com o seu colorido. Ali tinha algo de identificação, aproximação ou até mesmo de admiração. Sua orientação sexual sempre foi um ‘mistério’ para o grande público. E, por mais que todos ‘soubessem’ que ali batia um coração colorido, precisou que há duas semanas o próprio Lulu ‘saísse do armário’ e revelasse ao grande público que estava namorando com o baiano Clebson Teixeira. Ontem, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, pude ver de perto esse ‘novo Lulu’. Mas será que era novo mesmo?

A dança era a mesma que eu já havia visto em pelo menos outros dois shows dele. A energia era igual àquela de quando ele aparece na TV. A voz? Intacta com suas oscilações inconfundíveis. Mas ele parecia mais leve. Solto. A sensação de liberdade e tirar o peso das costas de viver ‘dentro do armário’ saltava aos olhos. Tocava os corações.

Quando vi Lulu declarar seu amor para Clebson ao som da canção Orgulho e Preconceito meus olhos encheram de lágrimas (sim, talvez eu seja o último romântico desse Oceano Atlântico). Mas não só eu chorei. Foram muitos fãs que enxugaram o canto dos olhos ao ver o ídolo compartilhando com seu público sua liberdade de amar. Irreverente, espalhou purpurinas pelo palco. Fez danchinhas, rebolou, lacrou! Foi o Lulu de sempre, mas com um brilho a mais.

 

A minha sensação de ver Lulu no palco ontem foi a mesma que senti quando, pela primeira vez, entrei na faculdade depois que todos souberam que eu era gay e que estava namorando um rapaz. Foi libertador. Os olhares que sempre me ‘investigavam com o ele é ou não é’ passaram a não fazer mais sentido. Agora, todos sabiam que eu era gay. No início, a curiosidade era inevitável. Muitas pessoas se aproximavam para perguntar, conjecturar ou somente pelo prazer de dizer ‘eu já sabia’.

Lulu demorou 65 anos. Eu demorei 18. Cada um tem seu tempo para ‘sair do armário’. E é fundamental que isso seja respeitado. Vivemos numa fase bastante conturbada dentro da nossa sociedade. De um lado, há uma força conservadora muito intensa que reverbera o preconceito cruel, escroto e vil. Do outro lado, há a chamada ‘geração empoderamento’, que destrói padrões e luta pelas liberdades.

O problema é que há muito desrespeito – dois dois lados – com as pessoas que ainda não se sentem confortáveis em assumir publicamente sua orientação sexual. Não, não é preciso levantar bandeiras para ser gay. Cada pessoa tem seus motivos, razões e questões. Tentar tirar alguém do armário não vai fazer bem para ninguém. Sufocar essa pessoa no armário também não.

Lulu e o namorado Foto: Reprodução

Lulu e o namorado
Foto: Reprodução

Em 2012, por exemplo, eu já fui o algoz de um colega de trabalho. Todos ‘sabiam’ que ele era gay. Todos os gays do trabalho faziam coro para tentar ‘ajudá-lo’ a sair do armário. Era o assunto das rodas de conversa. Até que um dia ele me disse a célebre frase ‘Jorge, obrigado por querer me ajudar, mas cada um tem seu tempo’. Daquele dia em diante minha ficha caiu.

Eu, por ter vivido tanto tempo sufocado dentro do armário, achava que todos os LGBTQI+ deveriam sair de lá para viver o mundo sem o peso do segredo nas costas. Acreditava que ninguém precisava mais passar por aquilo que passei. A vontade era oferecer o conforto e o acalando que eu não tive. Mas não é bem assim que a banda toca.

O armário é uma figura simbólica e para cada pessoa ele se manifesta de diferentes maneiras de aprisionamento. O medo de perder os amigos, o receio do preconceito, o pânico da violência urbana, a dificuldade de arrumar trabalho… Assumir para si e para os outros a orientação sexual – e, em alguns casos, uma nova identidade de gênero – não é tarefa fácil. Não é ‘apenas abrir uma porta de um armário’. É algo que vai além, que expõe dores, angústias e sofrimentos. E a única pessoa que pode decidir a hora de fazer isso é quem de fato está vivendo esse momento.

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Obviamente se você tem um amigx que você acredite ser um LGBTQI+ você deve se solidarizar com essa pessoa e mostrar posições de empatia caso você queira fazê-lo. Contudo, NÃO QUEIRA TIRAR ESSA PESSOA A FORÇA DO ARMÁRIO. DEIXE A PESSOA DECIDIR QUANDO E SE DEVE SAIR DE LÁ. Conheço casos de pessoas que são LGBTs e que não têm nenhuma vontade de assumir publicamente isso. A vida é feita de escolhas e cada um deve fazer as suas e arcar com suas consequências.

Quando você sai do armário, de fato, a vida melhora. A depender da pessoa – e da composição familiar – há um período sempre turbulento. Nem tudo são flores e purpurinas no primeiro momento na maioria das vezes.  Muitas pessoas que se diziam amigas se afastam. Mas se alguém deixar de se relacionar com você porque é gay essa pessoa não era sua amiga. A vida fica mais leve e sem prisões. É como disse Lulu na sua nova canção: “Esta canção é pra você nunca mais ter que sussurrar quando diz que me ama. Pra te libertar de todo julgamento alheio. Pra você poder dizer sem receio: Te Amo!”.

Lulu é uma pessoa pública o que torna essa porta do armário ainda mais sensível de se abrir. Talvez por isso, ontem, ele tenha agradecido ao seu público, ao final da canção que declarava seu amor pelo namorado:  “Obrigado por todo amor, acolhimento e compreensão”. Não sei quais foram as barreiras – internas e externas – que o taurino Luiz Maurício Pragana dos Santos, 65, enfrentou ao longo da sua vida com relação à sua sexualidade.

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Foto: Evandro Veiga/CORREIO

Na platéia de 5 mil pessoas que lotaram e se conectaram com o artista houve uma presença intensa de LGBTs (bem mais do que nos últimos shows dele que assisti). Mas não era só isso. Lulu é mais do que ‘um cantor que se assumiu gay’. Lulu – pela sua trajetória e construção musical – não precisa criar fatos de sua vida sentimental para ganhar visibilidade como dizem as más línguas.

Uma senhorinha de cabelos brancos – dona Angélica Maria, 69 – era uma das mais animadas durante o show. Fui puxar prosa com ela sobre o fato de Lulu ser gay e ela largou a seguinte frase: “Ah, é?! Bom pra ele”. E seguiu falando sobre a qualidade musical do seu ídolo, sua desenvoltura no palco, etc…. Ou seja, para quem é fã de Lulu pouco importa o que ele está fazendo na sua vida íntima. E deve ser isso mesmo. Contudo, foi lindo ver casais – a maioria de gays e lésbicas – abraçadinhos e compartilhando a mesma sintonia afetiva da maioria heterossexual que estava na plateia.

“Sempre senti que ele era do Vale [dos homossexuais], mas agora que ele declarou e ainda namora um baiano a conexão fica maior. É o mesmo Lulu mas agora olhamos ele com outros olhos. Eu já vi vários shows dele, mas eu sempre ficava com vergonha dos heteros se beijando. Hoje, até umas bitocas no meu novo chush eu dei aqui”, comemora o médico Valter Novaes, 36.

Sem conta que Lulu sempre cantou a diversidade. Talvez, na sua mente de gênio artista, já tivesse ‘preparando’ seu público para o dia em que ele sairia do armário.

E a gente vive junto
E a gente se dá bem
Não desejamos mal a quase ninguém
E a gente vai à luta
E conhece a dor
Consideramos justa toda forma de amor

Não há versos mais acolhedores do que os que ele cantou em Toda Forma de Amor. Lulu sabe o que faz. Assumir ser gay no país onde mais se mata LGBTs do mundo não é tarefa fácil. É preciso ter coragem para virar vidraça. É preciso ter força para incluir na sua pauta artística essa bandeira. Foi isso que Lulu fez. Ele levou para seu público a discussão sobre sua orientação sexual. Isso tem função social. Isso ajuda muitas pessoas que, assim como ele, viveram ou estão vivendo no armário e que buscam uma vida melhor.

Ainda no início da apresentação, a cantora Daniela Mercury, junto à esposa e jornalista Malu Verçosa falou para a jornalista do CORREIO, Fernanda Lima, sobre a libertação temática de Lulu (assim como ela fez quando casou-se com Malu): “Eu acho maravilhoso que ele fale! Cada um tem que ter liberdade para falar o que quiser da sua vida pessoal. Mas cada artista que fala sobre o assunto, faz o mundo mais feliz e mais livre”.

Lulu teve seu tempo e agora está respirando de forma mais livre. Que seja plena sua viva, Lulu! Que você seja feliz.  A vontade que tive ontem foi de pular no palco, te abraçar (com todo respeito, viu Clebson) e dizer ‘seja muito bem-vindo e acolhido entre nós’. Você trouxe ainda mais cores, tons e dancinhas do avião para o nosso Vale 🙂

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