Com tiros na cabeça e espancamentos, o homem trans Thadeu Nascimento foi morto em Salvador. Com facadas, a travesti Bruna foi executada no bairro de Stella Maris, na capital baiana. Queimada, a estudante carioca Matheusa Passareli foi morta no Rio de Janeiro. A lista é longa e só cresce com passar dos dias, meses e anos. Somente nos primeiros quatro meses deste ano 142 pessoas LGBTQIA+ foram mortas no Brasil, segundo dados do Grupo Gay da Bahia.

Mas, antes do fim da vida terrena, Thadeu, Bruna, Matheusa e tantos outrxs foram mortos – e ainda são a cada momento. Bicha, traveco, sapatão…. São palavras que matam os LGBTQIA+ todos os dias. Infelizmente, a lista de ofensas verbais é tão extensa que não caberia nem colocar nesse texto.

Certamente você que está me lendo já deve ter chamado ou uma travesti de ‘o traveco’ ou algum gay de ‘bichinha’. Alguma vez você pensou no efeito que isso tem no ouvido de quem é nomeado de forma pejorativa e agressiva?

Você não imagina o que pode está causando na vida dessa pessoa. O respeito à identidade do outro não deve ser encarado como ‘mimimi’ de militante. Respeitar a forma como a pessoa se entende no mundo deve ser superior ao preconceito disfarçado de ‘brincadeira’.

Muitas vezes presenciei na vida e fui alvo de comentários preconceituosos. Na minha infância eu era a típica criança viada. Imagine o tipo de palavras que eu não ouvi na minha infância. Bicha, viadinho, mulherzinha, índia, queima rosca….. Os nomes eram muitos e por muitas vezes tiram o sorriso do rosto que eu tinha quando pequeno (esse que você vê na foto abaixo).

Eu quando era uma criança viada Foto: Acervo Pessoal

Eu quando era uma criança viada
Foto: Acervo Pessoal

Esse sorriso, por muito tempo, e por muitas vezes foi encerrado diante de comentários desse gênero. Em muitos momentos da minha vida buscava entender porque os coleguinhas de colégio me chamavam de algo que eu sequer sabia o que significava pelo simples prazer de ferir. Será que essas pessoas nunca pensaram no mal que estavam me fazendo? Será que essas pessoas – que lá na infância nutriam esse ódio – não se tornaram assassinos de outros LGBTQIA?

Quando na infância eu jogava futebol – sim, já tive esse passado! – eu precisava ser melhor do que os outros meninos. Eles não entendiam e ficavam furiosos quando eu  – o viadinho do grupo – era o melhor na quadra. Quando ganhei o campeonato e fiz o gol do título foi um choque para os mini-machões em formação. Recebi até ‘cartinhas carinhosas’ dizendo que lugar de bicha era longe do campo. Acabei abandonando a prática esportiva por esses e outros motivos. Naqueles momentos sempre morria mais um pouco. Mas eu não sou o único.

O Brasil é o país onde mais se mata pessoas LGBTQIA+ no mundo. Infelizmente a maioria dessas mortes têm algo em comum: a cultura do ódio. Esse terror heteronormativo que acha que somente a formação da família tradicional brasileira é o pano de fundo para tantas mortes.

Quando vamos para ambientes mais ‘tradicionais’ a coisa piora. A famosa bancada da ‘bala’ e da ‘bíblia’ no Congresso Federal, por exemplo, reverbera esses discursos anacrônico de forma amplificada. Infelizmente nos cérebros danificados acabam encontrando reverberações dessa visão de mundo que parou no tempo das cavernas. É inconcebível que num país onde se prega a democracia tenhamos políticos defendendo publicamente a morte de homossexuais.  Seus eleitores – tão ignorantes quanto seus representantes – ecoam essas expressões como se fossem as palavras do apocalipse.

A prova que estão parados no tempo pode ser percebida por exemplo quando usam o termo homossexualismo ou invés de homossexualidade. Deste 1973 que os Estados Unidos retirou  o termo “homossexualismo” da lista dos distúrbios mentais da American Psychology Association, passando a ser usado o termo homossexualidade.

Desde fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina aprovou a retirada, no Brasil, da homossexualidade do código 302.0, referente aos desvios e transtornos sexuais. Em 17 de maio de 1990, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou a retirada do código 302.0 da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. A nova classificação entrou em vigor entre os países-membro das Nações Unidas a partir de 1º de janeiro de 1993.

Dados da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) indicam que em 1999, o Conselho Federal de Psicologia formulou a Resolução 001/99, considerando que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, que “há, na sociedade, uma inquietação em torno das práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente” (qual seja, a heterossexualidade), e, especialmente, que “a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações”. Assim, tanto no Brasil como em outros países, cientificamente, homossexualidade não é considerada doença. Por isso, o sufixo “ismo” (terminologia referente à “doença”) foi substituído por “dade” (que remete a “modo de ser”).

Mas, porque será que ainda insistem em dizem a palavra ‘homossexualismo’? Será que, realmente, é porque essas pessoas não conhecem o significado do termo ou realmente é só por maldade e vontade de nos rotular como doentes mesmo quando a Medicina já não usa mais esse entendimento. Acredito que – tirando raras exceções – isso é pura maldade. São os heteros preceituosos da escola que cresceram e agora estão por aí reberverando o ódio de forma gratuita.

Chamar uma travesti pelo nome masculino que consta no registro civil é ferir sua identidade. É matá-la na sua essência. Usar o termo ‘traveco’ não é engraçado. Não é correto. É um uso pejorativo que marginaliza a existência dessas pessoas.

Questionar isso não é bobagem. Sim, as palavras matam. E elas não matam apenas as pessoas que ouvem. Elas matam todxs nós a cada dia. Repense seus atos, seus gestos e sua voz . Saiba que você está, ao proferir essas palavras, colaborando para aumentar a dor e o sofrimento de outras pessoas.

Ilustração: arte de Gabriela Cruz sobre imagem do Shutterstock

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