Foto: Acervo Pessoal

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Quem é gay sabe a dificuldade de sê-lo, mas quem é um gay afeminado (ou molinho como dizem), assim como eu, enfrenta mais obstáculos que o esperado. Além das provocações na rua, temos de lidar com o preconceito dentro da comunidade LGBT+ e para muitos, dentro também do ambiente de trabalho.

Apesar do senso comum acreditar que a homofobia (leia-se aqui não apenas agressão física ou verbal), vem diminuído na sociedade, na prática não é bem assim. Primeiro que as profissões de “viado” ainda são as mesmas no imaginário popular: cabeleireiro, maquiador, esteticista ou qualquer outra atividade que, aos olhos dessa sociedade heteronormativa, pareça feminino demais pro homem macho, mas que nas mãos de um homem “feminino” seria melhor executada. Um mix de homofobia, machismo e sexismo.

Em minha timeline do Facebook, observo a transformação das manas molinhas, um fenômeno impulsionado pela pressão da comunidade gay – ser discreto / fora do meio – e outras vezes a partir de sua ascensão profissional. A gay formou em direito, odonto, engenharia civil e correlatas, tem de se masculinizar!

Diversas áreas não toleram a afetação nossa de cada dia, com exceção de algumas poucas. Jornalismo? Talvez… A ordem do dia é segurar o rebolado, engessar a munheca e engrossar a voz. Começam então a surgir daí os comportamentos autodepreciativos.

Distanciar-se dos amigos, redefinir a relação com o parceiro ou simplesmente negligenciar a vida amorosa e social dentro da comunidade. Reforçando a socialização em redes heteronormativas em busca de uma nova imagem. Sempre com o armário de bolso pronto para ser usado.

A solidão do gay afeminado
Negar sua ‘macheza’ lhe privaria da superioridade de ser homem. Isso coloca a nós, afeminados, no limbo entre ser o homem viril, a mulher frágil, recatada e do lar ou até a vadia. Juntando as provocações: “mulherzinha”, “bichinha”, “bicha louca”, “baixo-astral” e “pão com ovo”. As expressões que fortalecem os moldes do macho-alfa, sobram pras gays durinhas: “homão da porra” e “sapão”, por exemplo.

Vale lembrar que chamar a mulher lésbica de “sapa” pode ser ofensa – aliás, muito gay apedrejou Daniela Mercury por usar o termo durante o Carnaval deste ano. Contudo, um “sapão” está para o gay “fora do meio” assim como o “top” está para os héteros descolados na rede social. Aí tá valendo. Contanto que esteja tudo em seus devidos armários (no plural), porque mesmo assumidos limitam a expressão de suas sexualidades ao grupo heteronormativo que esteja inserido.

Tudo nessas condições, onde os afeminados estão num lugar inferior, soa antiquado e preconceituoso. Há quem declare que apenas não “curte” afeminados, mas não percebe que essa questão de “gosto” reproduz o discurso machista e homofóbico do chamado “opressor”.

Sobre o que eu chamo de “a solidão do homem gay afeminado”, muitos são expostos a relacionamentos com homens bissexuais, que cultivam uma relação sem o chamado amor romântico, motivada exclusivamente pelo sexo. Partindo da ideia de relação gay, entre homens: como lidar com gays machões que não se atraem por afeminados e vice-versa? Afinal, óbvio que existem os afeminados que simpatizam com a ideia de apartheid entre gay macho e o gay feminino. Mas não custa nada fazer uma análise a respeito da repercussão desse comportamento para uma comunidade já tão marginalizada e violentada.

E a família…
Como um mero jornalista opinando sobre o assunto, preciso trazer a questão familiar à tona, obviamente sob o meu ponto de vista e experiência. Ultrapassada a barreira de verbalizar para a família a própria sexualidade, vem o momento de não os “envergonhar” na vizinhança, com o comportamento exagerado, com a promiscuidade e tudo mais que habita o imaginário de pais, irmãos e demais familiares a respeito da homossexualidade.

Ao mesmo tempo que surgem todos os medos, em muitos casos, há uma superproteção, um tratamento especial a partir de sua aparente fragilidade de afeminado. “De boas você ser gay, mas não precisa exagerar”. Por outro lado, tem quem opte por expurgar esse parente, cortando pela raiz qualquer responsabilidade sobre sua “viadagem”, como solução.  Dar pinta virou um daqueles problemas sociais, tipo mendicância, que ninguém quer lidar ou falar a respeito. Uma lástima.
Conselho do tio Rafa? Reavalie o seu comportamento, seu papel social entre essa escala de ser o oprimido e ser o opressor. Afinal, suas ações podem estar refletindo uma educação falocêntrica, gerando mais preconceito, desamor e homofobia do que você pensa.

*Rafael dos Anjos é jornalista e escreveu esse texto especialmente para o Me Salte 😉

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