Por Marília Moreira, do jornal CORREIO

A concepção geral do espetáculo surgiu em uma noite regada a vinhos. “Eu, o diretor Gil Vicente Tavares e a produtora Fernanda Bezerra já tínhamos decidido cantar Ary Barroso. E eu queria muito discutir a questão de gênero, que é algo que me instiga muito e considero ser a grande revolução desse começo de século. Acho que muda profundamente paradigmas, filosofias e cria novos caminhos. Queria mexer com a plateia, com os meus preconceitos também e lidar com a possibilidade de vencer tudo que é atraso, para que isso fique no passado e as pessoas sejam felizes como elas queiram ser”. Para Gil Vicente, o espetáculo trata sobre questões que estão muito em voga, “merecidamente, diante do recrudescimento de posições e do conservadorismo”.

Os Pássaros de Copacabana começa quando a protagonista, uma travesti, recebe uma encomenda do amante militar: fazer um grande espetáculo musical com sucessos de Ary Barroso. Durante os ensaios, ela mostra sua intimidade e memórias, sempre misturadas ao clima tenso dos anos de ditadura.

Para Marcelo, além do desafio de não se envolver emocionalmente com a personagem, para não gaguejar e atrapalhar a performance, outra grande preocupação tem a ver com como se referir a pessoas como o personagem, que não se reconhecem em seus corpos de nascença. “Eu mesmo, confesso, ainda não entendo as terminologias que existem para relacionar à   pessoa que nasce homem e se sente uma mulher e que à  s vezes chega a mudar de sexo. É uma coisa muito nova para todos nós, apesar de estar aí há muito tempo. Nos desconcerta. Eu também sou gay e para mim isso é importante”, ressalta.

Absolutamente musical, a montagem entrecorta lembranças da narradora à  s canções de Ary Barroso, compositor que compôs várias músicas em cujas letras retrata traços da personalidade feminina. “O texto está muito fluido e mesmo as músicas mais conhecidas ganharam uma roupagem muito específica nos arranjos de Jarbas Bittencourt e de Elinaldo Nascimento”, comenta Marcelo Praddo. “A personagem aproveita a tragédia da própria vida para compor os espetáculos, e o espetáculo também se vale disso”, complementa Gil Vicente. Desse modo, a vida da aspirante à   cantora provoca reflexões sobre a história recente e também sobre o momento atual do país.

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“Queria mexer com plateia, com meu preconceito e com a possibilidade de vencer tudo isso”, diz Marcelo Praddo (Foto: Fábio Abu/ Divulgação)

A história se passa em Copacabana, no Rio de Janeiro, bairro que é point dos gays e travestis e que vai do glamour ao submundo.”A expressão Pássaros de Copacabana era muito utilizada na década de 60 e eu a encontrei em um livro. O único mérito meu é ter lido e percebido que daria um belo título”, conta o diretor. “E tem uma surpresa também, mas não posso estragar, tem que assistir”, admite.

O diretor celebra ainda o fato de a peça, que segue em cartaz até o início de abril, com apresentações sempre aos sábados e domingos, à  s 20h, estrear no Teatro Molière. “Escolhemos o local, primeiro, pela forma como fomos recebidos pela equipe. O segundo motivo, para mim mais importante, é que conseguimos essa temporada de um mês com possibilidade de extensão. Os outros teatros da cidade sempre têm uma pauta muito apertada. E eu não consigo conceber esse tempo de vida tão curto dos espetáculos. Quando eu crio uma peça, eu crio uma obra de arte e quero que ela seja vista, que ela tenha uma vida longa. Salvador tem 3 milhões de habitantes e nem 1% da cidade consegue ver. Já temos esse problema de não existir para cidade e se o espetáculo aparece como um sopro é aí que não vai acontecer mesmo”, comenta Gil Vicente.

No sábado passado, o público de 5 mil pessoas que lotou a Concha Acústica foi convidada pelo maestro Carlos Prazeres a assistir à   peça. “Foi uma gentiliza! Ele driblou o institucional e acabou soltando essa divulgação. Espero que seja ótimo!”, comemorou Gil Vicente, que também dirigiu o espetáculo em comemoração aos 50 anos do TCA.

No que depender das movimentações nas redes sociais, o sucesso de público está garantido. O deputado federal Jean Willys publicou, no início desta semana, um texto no Instagram em que indica a peça, depois de ter assistido a um ensaio aberto em dezembro. “Só assistindo ao musical Os Pássaros de Copacabana, de Gil Vicente Tavares, é que me dei conta de que é preciso deixar clara essa motivação dos discursos e atitudes perversas que tentam manter o status quo e impedir a transformação do mundo para melhor. Cada conquista dos grupos historicamente oprimidos implica no recrudescimento da LGBTfobia, da misoginia e do racismo”, escreveu.

Serviço: Teatro Molière (Aliança Francesa, Ladeira da Barra). Sábados e domingos, à  s 20h. Até 1º de abril. Ingressos: R$ 40 | R$ 20. À venda na bilheteria do local.

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