Tráfico de drogas
No Engenho Velho da Federação, Carlos divide o espaço com facções rivais. “A gente tem muita pressa porque a cada semana morrem quatro ou cinco pessoas”, lamenta. Com mais 20 arquitetos de outros países, o argentino é responsável pela execução do Pasport, uma iniciativa que une cursos de formação, urbanização e economia solidária, junto com a população.
Há um ano em atividade, o Pasport já ofereceu aulas de hidroponia (técnica de cultivo agrícola sem solo), cursos básicos de idiomas e oficinas de grafite verde (espécie de jardim vertical). Também foi fundada uma creche comunitária, para atender 50 crianças. O objetivo é que em 15 anos o bairro se torne um modelo de sustentabilidade, com geração de renda.
Devido às tensões entre facções, Carlos conta que alguns moradores são proibidos de circular pelo bairro e impedidos de frequentar os cursos. Por outro lado, o argentino tem passe livre e até conversa com os líderes do tráfico. “Fui na boca de fumo e me perguntaram: ‘e aí, gringo? Quer alguma coisa?’ Eu disse que tinha ido falar sobre a felicidade humana. Eles me ouviram, mas não estão acostumados a dialogar. O traficante não é uma má pessoa. Ele cuida bem da família do seu jeito. Não são os piores do mundo”.
Benquisto e conhecido, Carlos, que arrasta o português com um forte sotaque, recebeu no dia 20 de novembro a medalha Mãe Runhó, uma homenagem para as pessoas que se dedicam à comunidade.
O mar como quintal
A austríaca Silvia Jura, 54, mora há 15 anos em Vila Brandão, na encosta entre o mar e a Ladeira da Barra, com acesso pelo Corredor da Vitória. Proprietária de uma casa ampla e confortável, com uma varanda cheia de plantas e vista para a Baía de Todos os Santos, ela diz ter escolhido o lugar por considerá-lo “o mais lindo de Salvador”.
Além da beleza natural, a propriedade está em uma região valorizada. Antes da entrada da vila, no topo da ladeira, está sendo erguido um prédio que terá a mesma paisagem, no terreno da antiga Mansão Wildberger, com apartamentos a partir de R$ 8 milhões (na comunidade, os preços variam de R$ 70 a R$ 350 mil).
Ela diz não abrir mão de tomar café da manhã a céu aberto, com frutas plantadas no quintal à mesa, mas não deixa de fazer críticas. O descaso da polícia com os moradores é uma das principais queixas da austríaca, que já teve o imóvel invadido três vezes. “Quando roubaram minha casa, fui na delegacia e os policiais perguntaram por que eu morava na favela. É uma forma de repressão”, protesta.
Para Silvia, o contato com os vizinhos é a principal vantagem da vila, que tem apenas 210 habitantes. “Eu me sinto totalmente segura. Conheço todo mundo. É como uma grande família”, comenta.
O sentimento também é compartilhado pela italiana Giancarla Amatulli, 39, que vive com o marido baiano e o filho de 1 ano, na comunidade Solar do Unhão, abaixo da Avenida Contorno. “Ao contrário de quem percebe o lugar como uma favela, me sinto superprotegida aqui. Estou sempre com a porta aberta”.
Desde 2007 com residência no Brasil, Giancarla comprou o imóvel quatro anos atrás das mãos de um espanhol. A casa fica na parte alta do morro, tem duas salas, uma cozinha americana e um quarto com suíte, e era alugada para turistas estrangeiros por diária.
“Quem é de Salvador muitas vezes tem receio quando eu comento onde moro”. Para a italiana, viver perto do centro, do Museu de Arte da Moderna da Bahia (MAM-BA) e ainda ter a praia como quintal é “muito chique”.
“É um bairro popular, construído sem planejamento. Mas acho chique porque é perto do centro e ao lado de prédios onde vivem pessoas ricas”.