Reportagem

Ocupação no contrafluxo

Mariana Sales e Simone Melo


Custo de vida baixo e vista privilegiada atraem estrangeiros para comunidades de baixa renda

Do alto de uma íngreme escadaria, de onde se avistam centenas de casas desordenadas e sem reboco, Carlos Garcia, 54 anos, arremata com um fino riso de contentamento no rosto: “Ai está a resposta que vocês queriam”.
O argentino, de família espanhola, que domina cinco idiomas e morou em mais de 15 países, se refere às repetidas vezes que questionamos por que havia escolhido o Engenho Velho da Federação como morada e sede para desenvolver um projeto social. “Aqui não existem ruas. Somente pessoas amontoadas umas sobre as outras”. Para ele, os cerca de 24 mil moradores do bairro, o sétimo mais populoso de Salvador, são a chave do sucesso da missão que tem como objetivo nada menos do que a felicidade humana.
Carlos é um dos mais de 27 mil estrangeiros que vivem na capital baiana, segundo dados da Polícia Federal. Mas, ao contrário de muitos imigrantes, o argentino escolheu viver em uma moradia popular. Como ele, outros europeus, americanos e latinos também estão espalhados pelas ruelas da Vila Brandão, Solar do Unhão e Morro da Sereia.
Seja pelo envolvimento com questões sociais, pela oportunidade de pagar aluguéis mais baratos ou pela identificação com um modo de vida mais simples, estrangeiros são atraídos para comunidades de baixa renda. Eles dizem até se sentir mais protegidos do que em outras áreas da cidade, por conta da aproximação com a população.

Tráfico de drogas
No Engenho Velho da Federação, Carlos divide o espaço com facções rivais. “A gente tem muita pressa porque a cada semana morrem quatro ou cinco pessoas”, lamenta. Com mais 20 arquitetos de outros países, o argentino é responsável pela execução do Pasport, uma iniciativa que une cursos de formação, urbanização e economia solidária, junto com a população.
Há um ano em atividade, o Pasport já ofereceu aulas de hidroponia (técnica de cultivo agrícola sem solo), cursos básicos de idiomas e oficinas de grafite verde (espécie de jardim vertical). Também foi fundada uma creche comunitária, para atender 50 crianças. O objetivo é que em 15 anos o bairro se torne um modelo de sustentabilidade, com geração de renda.
Devido às tensões entre facções, Carlos conta que alguns moradores são proibidos de circular pelo bairro e impedidos de frequentar os cursos. Por outro lado, o argentino tem passe livre e até conversa com os líderes do tráfico. “Fui na boca de fumo e me perguntaram: ‘e aí, gringo? Quer alguma coisa?’ Eu disse que tinha ido falar sobre a felicidade humana. Eles me ouviram, mas não estão acostumados a dialogar. O traficante não é uma má pessoa. Ele cuida bem da família do seu jeito. Não são os piores do mundo”.
Benquisto e conhecido, Carlos, que arrasta o português com um forte sotaque, recebeu no dia 20 de novembro a medalha Mãe Runhó, uma homenagem para as pessoas que se dedicam à comunidade.
O mar como quintal
A austríaca Silvia Jura, 54, mora há 15 anos em Vila Brandão, na encosta entre o mar e a Ladeira da Barra, com acesso pelo Corredor da Vitória. Proprietária de uma casa ampla e confortável, com uma varanda cheia de plantas e vista para a Baía de Todos os Santos, ela diz ter escolhido o lugar por considerá-lo “o mais lindo de Salvador”.

Além da beleza natural, a propriedade está em uma região valorizada. Antes da entrada da vila, no topo da ladeira, está sendo erguido um prédio que terá a mesma paisagem, no terreno da antiga Mansão Wildberger, com apartamentos a partir de R$ 8 milhões (na comunidade, os preços variam de R$ 70 a R$ 350 mil).
Ela diz não abrir mão de tomar café da manhã a céu aberto, com frutas plantadas no quintal à mesa, mas não deixa de fazer críticas. O descaso da polícia com os moradores é uma das principais queixas da austríaca, que já teve o imóvel invadido três vezes. “Quando roubaram minha casa, fui na delegacia e os policiais perguntaram por que eu morava na favela. É uma forma de repressão”, protesta.
Para Silvia, o contato com os vizinhos é a principal vantagem da vila, que tem apenas 210 habitantes. “Eu me sinto totalmente segura. Conheço todo mundo. É como uma grande família”, comenta.
O sentimento também é compartilhado pela italiana Giancarla Amatulli, 39, que vive com o marido baiano e o filho de 1 ano, na comunidade Solar do Unhão, abaixo da Avenida Contorno. “Ao contrário de quem percebe o lugar como uma favela, me sinto superprotegida aqui. Estou sempre com a porta aberta”.
Desde 2007 com residência no Brasil, Giancarla comprou o imóvel quatro anos atrás das mãos de um espanhol. A casa fica na parte alta do morro, tem duas salas, uma cozinha americana e um quarto com suíte, e era alugada para turistas estrangeiros por diária.
“Quem é de Salvador muitas vezes tem receio quando eu comento onde moro”. Para a italiana, viver perto do centro, do Museu de Arte da Moderna da Bahia (MAM-BA) e ainda ter a praia como quintal é “muito chique”.
“É um bairro popular, construído sem planejamento. Mas acho chique porque é perto do centro e ao lado de prédios onde vivem pessoas ricas”.
É um bairro popular, construído sem planejamento. Mas acho chique porque é perto do centro e ao lado de prédios onde vivem pessoas muito ricas.

Giancarla Amatulli, italiana moradora da comunidade Solar do Unhão

Quando roubaram minha casa, fui na delegacia e os policiais perguntaram por que eu morava na favela. É uma forma de repressão

Silvia Jura, austríaca que vive na Vila Brandão

Morro é reduto histórico



Um barraco, com teto de eternit, foi a casa escolhida pelo italiano Marcelo Stride, 59 anos, quando chegou nos anos de 1980 ao Morro da Sereia, que separa Ondina do Rio Vermelho.
Segundo ele, muitos estrangeiros já residiam no local, que era conhecido por reunir artistas e intelectuais. Ele fixou residência e transformou a propriedade em um imóvel amplo de dois andares, com varanda de frente para o mar.
“Vários gringos já estavam aqui. O bairro é bonito e muito especial. É como estar na casa de Iemanjá”, diz.
Marcelo lamenta o fato de o Morro da Sereia ser rejeitado pelos brasileiros e conta que os amigos estrangeiros adoram visitá-lo. “Só a classe média não gosta de vir aqui. Eles acham perigoso”.
Dono do Albergue Pedra da Sereia, o americano Michael Lynch, 61, também chegou na comunidade nos anos 1980, quando uma visita turística de três dias a Salvador se transformou em uma estada de 30 anos.


Apesar de ter procurado apartamentos em outras áreas, se encantou pela região, após visitar um conhecido que morava lá. “Mesmo tendo gostado muito, meus amigos baianos diziam que era perigoso. No final das contas, segui os meus instintos e comprei a casa. Depois que me mudei, todos quiseram vir me visitar”.
Michael acredita estar mais seguro onde mora do que em bairros de classe média. “Já fui roubado no Rio Vermelho e na Avenida Tancredo Neves, mas aqui nunca aconteceu nada”, conta.
Ainda com um sotaque perceptível, ele diz estar integrado à comunidade, onde possui muitos amigos e participou da associação de moradores. “Todos me acolheram. Aqui é a minha casa”.

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