Entrevista

A discriminação contra estrangeiros no Brasil tem contornos raciais, aponta especialista

Juliana Leite e Luana Silva

Para pesquisador da USP, racismo explica casos de agressão contra haitianos, africanos e hispano-americanos

Apesar da imagem de país da hospitalidade, que recebe o mundo de braços abertos, o acolhimento a haitianos, africanos e hispano-americanos que decidem ganhar a vida no Brasil não tem sido nada amistoso, e são cada vez mais comuns os casos de agressão e ameaças a esses imigrantes. Quem aponta este cenário é Sidney Antonio da Silva*, professor-doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Estudos Populacionais pela Universidade de Campinas (Unicamp), que pesquisa o fenômeno das migrações de hispano-americanos e haitianos para o Brasil. Para ele, essa falta de receptividade principalmente contra grupos mais vulneráveis socialmente, como africanos, haitianos, bolivianos, peruanos, tem contornos raciais. O especialista lembra ainda que há um contexto histórico por trás, que remonta ao século XIX, quando o governo brasileiro promoveu uma política migratória que incentivava a vinda de imigrantes europeus. Parte dessa política, destaca Silva, visava promover o “embranquecimento” da população brasileira, considerada muito “escura” ou “mestiça”. Em entrevista ao Correio de Futuro, o pesquisador criticou a cobertura da imprensa com relação ao fenômeno das migrações no país, comentou o momento atual da crise migratória no mundo, que tem feito populações inteiras fugirem da fome e das guerras, e citou que em cenário de retração econômica, como o que se observa atualmente no Brasil, a discriminação contra esses povos que chegam ao país tende a se intensificar.


CF: A estagnação econômica e a instabilidade política nos países de origem têm atraído bolivianos, paraguaios e peruanos para o Brasil. Como se dá a inserção da mão de obra destes imigrantes no mercado de trabalho?
SS: Para o capital, a mão de obra não tem nacionalidade. O que interessa ao empregador é se eles estão dispostos a aceitar ou não as regras do jogo, ou seja, trabalhar cada vez mais por cada vez menos e com um agravante: sem direito algum garantido. Num contexto de terceirização cada vez mais complexa da produção econômica, o trabalhador migrante é o mais afetado, pois, sem ter, às vezes, o amparo legal, por estar indocumentado, encontra-se numa condição de vulnerabilidade maior em relação ao trabalhador nacional.

CF: Como combater a discriminação contra estrangeiros?
SS: O melhor caminho é a educação intercultural, destacando a importância do respeito às diferenças, sejam elas étnicas, culturais, religiosas, de gênero ou de orientação sexual. Contudo, não se trata de tornar a cultura abstrata, como algo imutável e inquestionável, mas trabalhar na perspectiva do diálogo entre elas, pois é na troca entre as culturas que todos saem ganhando e fortalecidos, combatendo, inclusive, “tradições” que ferem direitos fundamentais das pessoas.
 

Sidney Antonio da Silva

é graduado em Filosofia pela Universidade Católica do Paraná (1980), mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (1995), doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (2002) e pós-doutor no Núcleo de Estudos Populacionais – Nepo/Unicamp (2005-2006). Atualmente, é professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Coordena o grupo de Estudos Migratórios na Amazônia (Gema), o qual integra a rede de pesquisa do Instituto Brasil Plural: Migrações no Brasil contemporâneo: fluxos, processos sociais e gênero. A entrevista ao Correio de Futuro foi concedida via e-mail.

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