Para a pesquisadora e professora Cacilda Machado, 58, todos temos múltiplas identidades culturais, por isso não há dificuldade em se ter uma família com múltiplas bases culturais: “A cultura é viva e está sempre se recriando”. Indivíduos criados num contexto equilibrado e com pluralidade tendem a ser mais cosmopolitas e possuem um olhar mais amplo do mundo. Segundo a estudiosa, a iniciativa de estrangeiros criarem seus filhos com diversas referências “abre um novo capítulo de enriquecimento cultural da humanidade”.
Para as famílias americanas McLane, James e Houck esse processo foi longo, mas prazeroso. Os três núcleos criaram seus filhos de forma bilíngue, mas afirmam que cultura e tradição ultrapassam as barreiras do idioma.
A agente consular Heather McLane, 59, é mãe de Olive Gabriela, 29, e Vitor McLane Marques,28, e criou os filhos dentro dos costumes americanos e baianos. Para ela, a assimilação foi natural: “Umas das decisões que tomei é que queria criar meus filhos como bilíngues, por isso falava em inglês em casa e comemorava festas do meu país, como o 4 de Julho, o Halloween e a Ação de Graças”.
Mas ela não passou para os filhos apenas o que conhecia. Enquanto as crianças cresciam, Heather decidiu que deveriam absorver a cultura baiana e entender os costumes regionais. Então, passou a comemorar o São João e a Semana Santa. “Eu pesquisava e ensinava a eles, além de incentivar a ida nas festinhas dos amigos e do colégio. Eles são baianos, nasceram aqui e é importante saberem os costumes locais”, comenta.
A família da geógrafa Mollie James, 55, também manteve a tradição americana através da língua e das festas. A mãe, nascida no estado de Indiana, Centro-Oeste dos Estados Unidos, criou Patrícia Louise, 28, e
Daniel Wilson, 24, falando inglês em casa e mantendo a culinária americana na mesa. “Queria que meus filhos pudessem conhecer meu mundo, conviver com minha família”, justifica.
Convivência- Mollie afirma que não queria só filhos bilíngues, mas biculturais: “Não bastava saber falar, eles tinham que conhecer. Por isso, em casa, a cultura que prevalecia era a americana, porque eles já convivam com a brasileira naturalmente”. Mesmo festas como Páscoa e Natal, que são comemoradas nas duas culturas, na casa dos James possui uma cara americana. “Na Páscoa, a gente cozinhava ovo de galinha e pintava e depois, eu e meu irmão, escondíamos pela casa para que um achasse o do outro. Isso não é tradição no Brasil, mas eu acho muito legal, eu me divertia muito,” conta Patrícia.
Bryan Houck, 51, é dono de um pequeno hotel na Barra e concorda. Ele acredita que a cultura ultrapassa as fronteiras linguísticas. Por isso, promove todos os anos, desde que seus filhos Grabriela, 6 e Dexter, 3, nasceram, festas do calendário americano. “Faço o Halloween para eles e peço para que os vizinhos comprem doces e distribuam para as crianças quando eles vão de porta em porta falar: “trick or treating” (doces ou travessuras). Mesmo eles sendo pequenos, quero que conheçam as tradições”, conta.
Em outubro desse ano a família realizou o quinto Halloween. “Ela percebeu que o Halloween não é uma festa de todos. Acho que está começando a entender que tem dois mundos,” comenta a mãe, Cristiane, 37, e acrescenta que o Natal também é diferenciado: “Nós fazemos nossos enfeites e o gingerbread house (biscoito de gengibre) junto com as crianças”.