Fotorreportagem

Ginga com sotaque

Alessandra Lori

Conhecida em todos os continentes, a capoeira ultrapassa barreiras culturais e transforma Salvador na Meca da luta

A capoeira é um cartão postal vivo de Salvador. A luta dançada de movimentos leves atrai pelo som peculiar do berimbau e do caxixi, e reflete parte da história de resistência dos negros escravos contra a opressão do sistema escravista imposto pela Coroa portuguesa no Brasil colonial. É luta, é dança, é jogo, é diversão. Em Salvador, está presente praticamente em todas as festas populares desde a fundação da cidade, em 1549.
Como expressão cultural do povo brasileiro, ganhou o mundo e hoje está presente em mais de 150 países, principalmente na Europa, Ásia e África, além dos Estados Unidos. Nas rodas de capoeira do Pelourinho, se percebe que boa parte de estrangeiros chega com algum conhecimento. Curiosos para ver de perto e beber na fonte, escolhem Salvador como parada obrigatória. Para muitos, a capoeira vai além de uma simples troca intercultural, ou atividade física, é encarada como uma filosofia de vida.
É o caso da nutricionista sueca Cecília Wanhainen, 36 anos, praticante há onze, que vem uma vez por ano ao Brasil. Nesse ano, intenção era ficar por dois meses, mas já está há três e tem planos
de permanecer mais tempo na capital baiana para se aperfeiçoar na luta. “O que gosto na capoeira é o calor humano, há solidariedade e alegria no jogo, é uma brincadeira de amigos”, diz Cascavel, como Cecília é conhecida nas rodas de capoeira pelo mundo. Antes de Salvador, ela já tinha visto a capoeira nas ruas em vários países da Europa e em shows artísticos, mas nunca tinha se atraído a ponto de praticá-la.
Cecília atribui à capoeira o mérito de ter contribuído para a superação de um quadro de depressão. O sofrimento psíquico foi resultado de um momento difícil na vida. Ela tinha acabado de voltar para a Suécia depois de dois anos na Suíça. Estava em Estocolmo, capital sueca, onde não tinha amigos e estava longe de pessoas queridas. Sentia isolada, sofria de insônia e acabou mergulhando na tristeza. Para lhe ajudar, um amigo a convidou para uma aula de capoeira. A partir daí, nunca mais parou, entrou em um grupo brasileiro, tem mestre brasileiro e viaja o mundo participando de eventos ligados à atividade. “A capoeira me deu uma atividade física e social, liberdade e um jeito de me expressar. Me fez acabar com vários padrões e ideias sobre a vida. Tem alguma coisa de defender e de cuidar, isso me fez crescer como pessoa. Não consigo mais viver sem”, relata a nutricionista.
Para o mestre Marcelo Grauçá, da Associação de Capoeira Beira de Mar, é no Terreiro de Jesus e no Mercado Modelo, que acontece o primeiro contato de estrangeiros com a capoeira, tanto que muitos alunos de outros países vêm para trabalhar ou estudar, e aproveitam para conhecer ainda mais na cultura brasileira. “Facilita a socialização, deixa com o espírito suave para dialogar. A gente tem dificuldade no idioma, mas se entende pelos movimentos. Essa singularidade de estabelecer relações assim, só a capoeira tem”, acredita o capoeirista.
Ginga com sotaque

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