O casamento, porém, nunca vai acontecer. Manuel é um perfil criado apenas para a apuração desta reportagem (veja a troca de mensagens ao lado). Em pouco mais de um mês, o personagem fictício recebeu quatro propostas de mulheres em um site de classificados online. Márcia foi apenas uma delas.
Há algumas formas de um estrangeiro obter o visto definitivo de permanência no Brasil: ser administrador de empresa, investidor, pensionista, intelectual ou aposentado com renda superior a R$ 6 mil, ter um filho em solo brasileiro, ter ascendência brasileira, realizar casamento ou formalizar uma união estável. Nos dois últimos casos, após registrar o enlace em cartório, os noivos comparecem à Polícia Federal (PF) e dão entrada no pedido de permanência. Segundo a PF, só este ano, 494 registros permanentes foram concedidos em Salvador. Destes, pelo menos 287 foram com base em casamento. Ou seja, mais de 50% das concessões.
Até setembro de 2014, havia uma sindicância antes de o visto ser concedido ao estrangeiro. Agentes da Polícia Federal investigavam se as uniões eram verdadeiras, iam até o endereço dos casais, entrevistavam vizinhos, certificavam-se de que havia roupas de ambos na casa, fotos e outros pertences. Porém, através de determinação do Ministério da Justiça (portaria Nº 1351), este padrão de atuação foi extinto. Agora, só há investigação em caso de suspeita ou denúncias. “A investigação continua, mas não é a praxe. É uma exceção”, indica o delegado Paulo Sampaio, do Núcleo de Registro de Estrangeiros (NRE) da PF de Salvador.
Se por um lado a medida diminui a burocracia para os casais que se amam, por outro facilita as fraudes. “O casamento é legítimo, o que não é legítimo é o objetivo”, enfatiza o delegado. Sendo assim, a mudança de aplicação na lei não faz o casamento cinza deixar de ser crime. O casal pode ser processado por falsidade ideológica, cuja pena varia de um a cinco anos de reclusão, além de o estrangeiro ser expulso do país. No momento, não há pessoas presas na Bahia devido a essa conduta.
Prisão e anulação
Um caso marcante de fraude que o delegado Sampaio se recorda aconteceu em 2005. A dupla farsante era a chinesa Jin Yuying e o brasileiro Miguel Ferreira de Alcântara. Ambos tentavam dar entrada no pedido de permanência. Ao perceber que Miguel tinha dificuldades em assinar o próprio nome, a PF suspeitou dos dois. Descobriu-se que o homem era, na verdade, Demício Ciqueira de Freitas, morador de rua, e que a certidão de casamento usada por eles, emitida pelo Cartório do Registro Civil de Pessoas Naturais, localizado no bairro de Nazaré, era falsa.
Através de investigações, constatou-se que o casal havia sido auxiliado por Wu Ke Ning, um chinês permanente no Brasil. Além de Jin Yuying e Demício Ciqueira, ele também havia auxiliado um outro casal: Jussara Carmen dos Santos, brasileira, e Huang Jianzong, chinês, que utilizaram a mesma tática para obter o visto. Os envolvidos foram presos e tiveram os casamentos anulados.
Conveniência
Embora haja tentativas de lucrar com o casamento cinza, nem sempre o dinheiro é o principal objetivo. Pelo menos foi assim com o italiano Gaspari* e a brasileira Amanda*, que se conheceram através de um grupo de brasileiros que residia na Itália. Ela pretendia trabalhar durante dois anos e voltar para o Brasil. “Queria juntar dinheiro para comprar uma casa e um carro”, diz ele.
Porém, antes disto o visto venceu e ela ficou clandestina no país dividindo o aluguel. “Queria ajudar, sem que ela estivesse envolvida na minha vida”. Gaspari tinha diversos relacionamentos e não queria se comprometer com ninguém. “Pensei: se eu casar, uso o casamento como uma vacina e não precisaria me comprometer com mais ninguém”.
Segundo ele, não houve nenhum valor envolvido na união. A ideia inicial era que morassem em casas separadas, mas Amanda não conseguiu manter o apartamento e eles passaram a viver juntos, mesmo mantendo uma vida amorosa independente. Anos depois, em dificuldades financeiras na Europa por conta da crise econômica, Gaspari usou o casamento para vir morar no Brasil. “Naquele momento eu entendi que aquilo que eu fiz para ela, poderia usar em benefício próprio”. Há dez anos, ambos vivem na Bahia. “Somos felizes”.
Agressões
Segundo o delegado Paulo Sampaio, que trabalha na PF da Bahia há 37 anos, pelo menos duas vezes por semana mulheres fazem denúncias por agressões praticadas pelo marido. “Elas querem cancelar a permanência dos maridos estrangeiros”. Nestes casos, é tomado um Termo de Declaração da pessoa, junto aos documentos como Boletim de Ocorrência e exame de corpo de delito. Esses documentos são encaminhados ao Ministério da Justiça e leva de três a quatro meses para o visto ser cancelado. Porém, as mesmas mulheres que dão entrada no cancelamento, acabam desistindo. O contrário, no entanto, não ocorre: nunca uma mulher estrangeira denunciou cônjuge brasileiro.
*Os nomes foram trocados a pedido das fontes