Meu marido trabalhava com peixe e eu cuidava dos filhos e da casa. Tínhamos uma vida simples, as coisas não estavam dando certo

Jian Qin, comerciante chinesa que tem lojas no Centro Antigo explica porque a família se mudou para o Brasil



Dinastia Lin - Atrás de melhores oportunidades, os chineses começaram a se fixar no Centro Antigo. Muitos abandonaram uma vida simples na China e investiram todas as fichas aqui, sem ao menos conhecer o idioma. Assim aconteceu com a família de Lilian. Hoje a família possui cinco lojas no Centro.
A jovem faz parte de uma família que veio da província de Fujian. O pai dela está na cidade há sete anos, depois de ter passado uma temporada em São Paulo. Quem apresentou Salvador ao pai de Lilian foi a tia dela, Jian Qin Xue, 43. Jian Qin administra a Linxue, uma loja de bolsas na Avenida Sete, enquanto o marido cuida de outra loja com o mesmo nome na Barroquinha. A filha do casal, Bruna Lin, 22, ainda cuida de uma terceira loja da família, também na Av. Sete.
Jian Qin chegou ao Brasil há 14 anos. Trabalhou com o marido por nove como ambulante no bairro do Brás, em São Paulo, até juntarem dinheiro para abrir a própria loja. Decidiram vir para Salvador, em busca de menor concorrência com os compatriotas. Segundo Jian Qin, a loja dela foi a terceira a se instalar na Avenida Sete.
A vida na China era difícil. “Meu marido trabalhava com peixe, enquanto eu cuidava dos filhos e da casa. Tínhamos uma vida simples, as coisas não estavam dando certo. Foi aí que fomos para São Paulo“.


O marido chegou primeiro, depois veio Jian Qin, para ajudar nas vendas. Bruna ficou com os avós e veio para o Brasil após concluir os estudos.
Nomes e sobrenomes - Os costumes chineses com relação aos sobrenomes são diferentes dos do Brasil. Lá o padrão é que o nome da família venha na frente do nome próprio, mas quando chegam aqui precisam trocar a ordem para ficar igual aos brasileiros. Tomando Jian Qin Xue como exemplo, o nome da família é Xue e Jian Qin é o nome próprio. Na China, ela seria chamada de Xue Jian Qin.
As mulheres mantêm o mesmo nome de solteira depois de casarem e os filhos adotam apenas o sobrenome do pai, o que acarreta pouca variedade. Um levantamento divulgado pela Xinhua, agência de notícias oficial do país, mostra que em 2007 quase 85% dos chineses dividiam apenas 100 sobrenomes. Outro levantamento mais recente, de 2014, mostra que o sobrenome Lin é o vigésimo sobrenome mais comum no país. O estudo mostra ainda que 12,8 milhões de pessoas se chamam Lin, o que equivale a 0,96% da população. O sobrenome mais comum por lá é Wang, usado por quase 100 milhões de pessoas.

Rigidez é principal diferença



Para Daniel Ramos, 20, só há uma forma de lidar com o patrão: “Não abaixo a cabeça”. Mesmo trabalhando há um ano e meio na loja Cauê Presentes, na Avenida Sete de Setembro, o vendedor não conseguiu se acostumar com o jeito do chefe chinês.

“Quando eu era novato, eu sofri. Ele falava alto comigo. Quando me mandava fazer alguma coisa e eu não entendia, ele gritava”, desabafa. Para lidar com a situação, diz ter adotado uma nova postura. “Se abaixar a cabeça, eles montam em cima. Me esforço para fazer o melhor e não ouvir nada”, afirma.
A postura severa do chefe não se limita aos funcionários. “Já vi situações em que mandou o cliente sair da loja e, quando ele não vai com a cara, não atende mesmo”, conta.
Alguns comerciantes do Centro discordam do padrão chinês de atendimento. Edson Miguel, 48, tem duas lojas de roupas na Avenida Sete e se mostra preocupado com o jeito dos concorrentes. “Se um cliente for para a loja do chinês e não for bem tratado lá, ele vai achar que todos os lojistas da Avenida Sete tratam mal as pessoas”, diz.
As diferenças culturais não afetam só os baianos. A chinesa Bruna Lin, 23, diz ser muito difícil lidar com os clientes. Morando em Salvador há três anos, ela tomou aulas de português por um ano e seis meses e adotou um nome brasileiro para conversar melhor com as pessoas. Na loja, ela discutia com uma cliente que queria trocar a mercadoria sem a nota fiscal. Era a segunda vez que a cliente tentava trocar o produto danificado. Na primeira, Bruna costurou o forro a mão e devolveu a mesma bolsa.
Segundo Haroldo Nunez, presidente da Associação dos Empresários da Cidade Alta de Salvador (Aecasa), os imigrantes não procuram as entidades representativas. “Os chineses são uma praga, chegam como ratos. Se eu disser que é um bom negócio ter os chineses aqui, estou machucando meus compatriotas. Sou mais pelos comerciantes baianos”, afirma.
Há entre os comerciantes brasileiros quem admire os chineses. Domingos Felício, 51, administra um restaurante na Rua do Cabeça há quatro anos e diz não se incomodar com a presença na região. “Admiro o jeito do chinês de trabalhar. Trabalham de domingo a domingo. A gente tem que tomar cuidado, se deixarmos, eles vão dominar Salvador”, afirma.

Alvos fáceis da violência



O comerciante, que prefere não ser identificado na reportagem, é proprietário de um restaurante e considera a violência o principal problema da cidade. “Salvador? Cidade mais violenta! Na outra semana, pegaram um chinês, furaram a perna com alicate perguntando ‘cadê o dinheiro?’. Ladrão gosta de roubar chinês”, desabafa.

Ele já foi vítima de assalto, teve a casa invadida por uma quadrilha e seu cofre arrombado. A descrença no trabalho da polícia aumenta a sensação de insegurança. “Aqui nunca fui assaltado, porque pago segurança”, diz.
Quando não está preocupado com a insegurança, ele é sorridente, conversador, cumprimenta os pedestres e clientes. Entende bem o idioma, porque mora há 17 anos em Salvador. Ele chegou a Salvador para trabalhar no restaurante de um conhecido, antes de abrir o próprio estabelecimento.
Para outra comerciante chinesa, a polícia é ineficaz. O problema com a segurança tem um peso tão negativo que impede a família de querer ficar mais tempo no Brasil. Esposa do dono de uma loja de bolsas, ela diz ter medo de sair à noite. “Na China, se a polícia pega o ladrão, a pessoa fica sete anos, vinte anos na cadeia. Aqui, pega o ladrão e depois solta, sai”, protesta. Há poucos anos morando em Salvador, ela conta que a loja passa diariamente por furtos.
O marido reclama de ter que pagar impostos, que considera altos, e aluguéis, igualmente caros. Segundo ele, os lucros da loja são suficientes apenas para pagar as contas e a alimentação da família. O comerciante reclama: “Aqui não é bom, só trabalho, trabalho, trabalho”.
Em pleno final de ano, a loja do casal está com as prateleiras quase vazias porque um caminhão carregado com mercadorias vindas de São Paulo foi roubado na estrada.
O casal não soube explicar o quanto perderam em dinheiro, com o roubo das mercadorias. Para repor o estoque, “só no outro mês”, estimam. Com as dificuldades, não é à toa que, quando perguntados se gostariam de voltar para a China, a resposta é “sim”.

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