Estrangeiros que vieram para Salvador em busca do sonho de uma vida melhor acabaram perdendo tudo inclusive o próprio passado

“Peguei caronas, dormi nas boleias dos caminhões, passei por alguns sufocos como falta de água e comida. Mas em nenhum momento pensei em voltar para o Peru”
Chegou por Foz do Iguaçu, subiu pelo Rio Grande do Sul e atravessou o sudeste brasileiro. “Decidi ir para o nordeste, morei no Rio Grande do Norte, em Pernambuco. Mas na Bahia encontrei espaço para mim e meu trabalho”, relata.
Montou um atelier em Salvador, onde confeccionava móveis e instrumentos musicais. Namorava uma brasileira que futuramente seria a mãe dos seus quatro filhos. “Vivíamos bem”. Mas a crise afetou diretamente seus negócios. Sozinho, separado da mulher, queria um lugar tranquilo.
Com o que sobrou de dinheiro comprou um lote de terra na aldeia Hippie de Arembepe, distrito de Camaçari, onde construiu uma cabana de madeira e folha de bananeiras. Hoje ele está construindo sua casa de bloco com as próprias mãos. Sua companhia tem sido seus clientes que alugam o espaço para acampar no terreno. “Eu cobro barato para acampar. São R$ 15 por barraca. Com wifi, fica por R$ 20”, comenta o peruano.
Desembarcou aqui em janeiro, mês da lavagem. Não trouxe amigos nem parentes. Com quase nenhuma roupa na bagagem e um pouco de dinheiro para se manter por alguns dias, hospedou-se no Pelourinho, no centro da cidade. Pegava ônibus sem destino. Queria conhecer lugares e aprender hábitos e costumes.
Em um desses passeios, conheceu uma baiana chamada “Neguinha”, 30 anos, moradora da Liberdade. Apaixonou-se. “Ela me levou em lugares incríveis como Ilha de Maré”. É louco por dendê e ouras iguarias pesadas. Caruru e rabada estão entre as preferências. “Meu organismo é quase baiano”, brinca.
Mas Nuñez sempre teve uma fraqueza com álcool. Numa noite dessas se excedeu na bebida e brigou com a namorada. “Terminou comigo e não quis reatar mais”. Sem amor e com pouco dinheiro, ficava bêbado até cair na Praça Tereza Batista, no Pelourinho. Acabou vítima de um assalto.
“Só sei que eram dois homens. Levaram minha carteira com todos os documentos e dinheiro”. Acabou sem-teto. “Hoje eu sou morador das ruas que eu visitei”. Nos últimos seis meses, conheceu o crack. Viciado, volta e meia arruma confusão. Vive fissurado pela droga. Mais do que nunca, é refém de sua viagem.