Reportagem

Reféns de uma viagem

Andrea Chaves


Estrangeiros que vieram para Salvador em busca do sonho de uma vida melhor acabaram perdendo tudo inclusive o próprio passado

Mais de 4,1 mil quilômetros separam as origens de Miguel e Ernesto, dois latino-americanos completamente diferentes. Porém, suas histórias e seus passados são bem mais distantes. O primeiro, exportador de móveis em Lima, no Peru. O outro, dono de uma loja de artesanatos em Buenos Aires, na Argentina. Hoje, continuam distantes, não se conhecem, sequer sabem da existência um do outro. Mas, na Bahia, construíram trajetórias bem parecidas.
Ambos deixaram seus países de origem em busca de um sonho no Brasil e, especialmente, em Salvador. Até aí uma trivial coincidência. O que os une de verdade é o fato de suas “viagens” terem sido interrompidas. Miguel e Ernesto perderam tudo e não têm dinheiro sequer para voltar.
Miguel fugiu da guerra peruana e Ernesto deixou o passado de drogas e desafetos. Ambos apostaram em uma vida melhor no Brasil e tentaram mudar suas realidades difíceis. Mas aqui se tornaram reféns de uma viagem sem volta. No início, cada um adaptou sua vida às mudanças que suas estadias na Bahia trouxeram.
Ernesto Nuñez, um argentino de 57 anos, nasceu em Buenos Aires e tinha um sonho de morar em Salvador e conhecer a Lavagem do Bonfim. “Sempre fui encantado pelas mulheres e festas baianas”, relata. Chegou à Bahia em janeiro deste ano, em pleno verão. Deixou as malas na pousada e foi sem demora conhecer a capital.
Miguel Oviedo, um peruano de 56 anos, buscava refúgio e queria reconstruir a vida por conta da guerra civil. “Eu estava procurando um lugar para viver e tinha o desejo de conhecer a Bahia”. Queria se estabelecer como marceneiro que fabricava móveis.
Os latino-americanos então conseguiram chegar a Salvador e construíram laços de amizade. Porém, os seus sonhos foram interrompidos. Oviedo se deparou com a crise financeira que derrubou suas vendas e o deixou endividado. Nuñez não conseguiu emprego fixo, muito menos se estabeleceu como artesão, o que o obrigou a viver nas ruas e o fez voltar para as drogas.
Reféns de uma viagem

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