Quando era adolescente, Millena Passos precisava andar em grupo para ir à   escola. Os gritos ofensivos à   sua sexualidade lhe colocavam medo pelo risco a sua integridade física. Pela força do preconceito se empoderou para assumir a defesa da comunidade LBGT. Já morreu um monte de gays, trans e travestis no meu colo, relembra Milena que hoje conseguiu alcançar um posto inédito no Brasil. Sou a primeira mulher trans do Brasil a prestar serviço em uma Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), orgulha-se Millena, que há um ano está na função de técnica na SPM da Bahia e atualmente é Diretora da União Nacional LGBT.

Millena demorou muito para galgar espaços na sua carreira. O mercado de trabalho é fechado para nós. A cada estereótipo que a gente carrega  fica mais direito. O mercado fica cada vez mais fechado, conta Millena. A falta de oportunidade, que é uma cruel realidade para a população trans, fez com que Millena tivesse ainda mais dificuldade de ingressar em uma carreira acadêmica, por exemplo.

Milena Passos é a primeira mulher trans no Brasil a trabalhar em uma Secretaria de Políticas para Mulheres

Foto: Jorge Gauthier

Estudei só até o segundo grau com muita luta e passando por muito preconceito. Meu sonho é entrar em uma faculdade. Eu viro uma adolescente quando eu penso em entrar em uma faculdade. Mas como mulher trans a vida real destrói muitos sonhos mas eu ainda vou realizar esse sonho, destaca ela que ainda tem dúvidas se cursa Jornalismo, Psicologia, Assistência Social ou Direito.

Família e luta
Órfã de pai e mãe, Millena precisou migrar pela casa dos parentes até alcançar a vida adulta. Ela tem uma irmã e um irmão além de tias e avós, mas demorou para ser respeitada dentro da sua identidade como mulher trans. Sou mulher e ponto. Minha identidade política é de mulher trans. Millena Passos é a minha identidade, mas isso incomoda as pessoas. Tem uma irmã e um irmão. A construção hoje para ter laços sanguíneos mais fortes partiu com o tempo. Eu nunca exigi que os meus irmãos me chamassem pelo nome que condiz com a minha aparência, mas com o tempo eles fizeram isso, recorda.

Não somos mais a minoria. Nós hoje somos a maioria

Millena não tem filhos biológicos, mas ganhou muitos na rua em função do seu trabalho de assistência à   população LBGT. Muita gente da minha geração não está mais aqui. Mas eu sobrevivi. Muitas pessoas LGBT acabam tendo que ir para as ruas e lá elas fazem a sua própria família. Eu tenho várias filhas. Isso é muito comum no nosso universo.

As dificuldades de aceitação da família foram, segundo Millena, um reforço positivo para que ela pudesse ter força de militância para ajudar outras pessoas.  Na minha adolescência era difícil ser uma filha na fase de transição para a família aceitar. Eu achava que era mulher e ponto. Nasci, achei que ia casar, ter filhos e viver como Alice no país das maravilhas. Mas a realidade não era essa. Com as dores que passei e vi outros irmãos e irmãs sofrerem eu comecei a me comover e lutar, enfatiza.

Ela acredita que o preconceito diminuiu na comparação com o que já passou na vida. Os gays da minha época precisaram sofrer param que hoje a geração mais nova não sofra tanto. Para alguém com eu que tem alma de mulher, coração de mulher mas é mal compreendida pela sociedade é impossível não passar por situações de violência e preconceito. Algumas pessoas me enxergam como um ser abjeto, mas não podemos abaixar a cabeça, ensina.

Millena não costuma fugir de perguntas, mas na nossa conversa só não quis revelar um segredo. Ao ser questionada da sua idade disparou. Sou uma mulher muito vaidosa. Escreva aí que há anos não saio dos 28 anos, relativizou.

 

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