Por Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia

O Grupo Gay da Bahia foi fundado em 1980 pelo antropólogo paulistano Luiz Mott, então, professor visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a convite da saudosa professora Consuelo Pondé. Mott é etnohistoriador e antropólogo orgânico, começou naquela época uma caminhada dentro e fora da Universidade, no combate ao preconceito e discriminação contra a comunidade hoje chamada de LGBT, luta que se confundiu com a sua própria vida, liderando a principal entidade de emancipação homossexual, hoje com 37anos de atuação sem trégua nem férias, desempenhando papel pioneiro decisivo na campanha pela despatologização da homossexualidade com a retirada do código 302.0 do antigo Código Internacional de Doenças seguido pelo INPS, que rotulava o “homossexualismo como desvio e doença sexual”.

Mott, como doutor em Ciências Sociais, destacou-se como intelectual orgânico, e com base nas principais associações de psicologia e psiquiatria do mundo, iniciou uma campanha nacional coletando assinaturas de personalidades e intelectuais brasileiros favoráveis a retirada desse parágrafo que classificava a homossexualidade como patologia. Com um abaixo assinado que reuniu assinaturas de Fernando Henrique Cardoso, Tancredo Neves, Rute Cardoso, Ivete Vargas, Caetano e Gil, entre outros vips, somando mais de 16 mil assinaturas, resultando na vitoriosa “despatologização do homossexualismo”.

Essa vitória fundamental influenciou aqui na Bahia a ilustre Dra. Maria Tereza Pacheco, então diretora do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, a votar favorável em 17 de maio de 1990 na Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), em Viena na Áustria pela retirada desse parágrafo que facultava aos médicos e psicólogos tratarem LGBT como se fossem doentes. “Votei a favor, em honra a memória do mestre Estácio de Lima”, disse a médica legista forense, a principal discípula do médico alagoano Estácio de Lima, autor em 1943 da obra “Inversão do Sexo”, livro raríssimo que conta com um exemplar na biblioteca do mestre Luiz Mott. O livro é um relatório descritivo de como viviam os homossexuais baianos, descrevendo seu corpo e comportamento, trabalho importante para a época e sinalizador de novos tempos já que o sexólogo reclamou para a ciência a questão da homossexualidade masculina e feminina, mesmo chamando-as de “inversão”, seguindo as teorias médicas do início do século XX, se opunha a ideia de que a homossexualidade fosse caso de polícia, propondo sua transferência aos cuidados da saúde pública.

Há vinte e sete anos passados, exatos 17 de maio a homossexualidade deixou de ser doença e passou a ser uma variável, normal, natural e saudável da sexualidade humana, ganhando o status de orientação sexual, e desse modo deixando de ser tratada como patologia médica, doença ou caso de polícia. O preconceito homofóbico passou então a ser combatido com o amparo da ciência e no Brasil ganhou reforço, além do movimento LGBT que se formava, com um grande parceiro, o Conselho Federal de Psicologia, que através da Resolução 01/1999 estabeleceu normas de atuação dos psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual.
O Artigo 2 dessa Resolução, assinada pela então presidente, Ana Maria Bock, é revelador da posição cientifica da Associação: “Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.” Tal Resolução enfrentou o dogmatismo de profissionais protestantes, que associavam tratamento e cura dessa orientação sexual “desviante e pecaminosa” através da religião. Diversos profissionais com formação protestante iniciaram uma cruzada cristã contra tal resolução, reivindicando a criação de clínicas de cura para tratar os LGBTS, iniciativa combatida arduamente pelo GGB .

Em 1991, o presidente do GGB, Luiz Mott desafiou o psiquiatra e homeopata baiano Ricardo Chequer-Chemas para um debate público para desmascarar o médico que afirmava com base em suas questionáveis pesquisas que havia curado homossexuais com aplicação de doses líquidas de platina. Além de denunciar publicamente essa pesquisa estapafúrdia, O GGB entrou com processo junto ao Conselho Estadual de Medicina reivindicando a cassação do registro do médico. Mott fez a defesa sozinho, diante de uma junta de médicos todos vestidos de branco e se proclamando colegas do acusado, redundando porém pela condenação do médico homofóbico.

Observa-se hoje, 37 anos após a fundação do GGB, um novo panorama da comunidade LGBT nacional e baiana. A pós-modernidade afetou também a vivência dos diversos segmentos da comunidade LGBT, cada vez mais defendendo a liberdade de identidade de gênero e orientação sexual, valorizando novas performances do desejo mais fluidas e nômades . Tal tendência trouxe consigo novos ícones LGBT com um discurso denunciador de todas expressões de preconceito e discriminação, levantando bandeiras e barricadas, marcando território político e de poder nas artes, entretenimento, na academia, na internet e na política.
A pós-modernidade, após os 37 anos do início do movimento gay na Bahia trouxe acentuada segmentação do movimento original, ancorada num discurso de variadas representações de gênero e orientação sexual, fortalecendo o aparecimento e afirmação de novas identidades , como a dos “homens trans”, que antes não se afirmavam enquanto tal, mas hoje mostram a cara e o corpo, buscando seu espaço no universo LGBT e na sociedade global. A novidade, até então pouco conhecida, é que as mulheres trans e homens trans se afirmam alguns como heterossexuais, homossexuais, bissexuais ou mesmo assexuais.

O fundamental na celebração de 17 de maio, Dia Internacional e Nacional de Combate a homotransfobia é olharmos para dentro de nós mesmos e descobrir como colaborar e o que nos une na luta contra a LGBTfobia no Brasil e no mundo globalizado – vide a tragédia atual vivida pelos LGBT na Chechênia.

A reflexão que trazemos nesse dia que o mundo todo grita por respeito e igualdade de direitos de mais de 10% da humanidade constituída pela tribo LGBT, é que todos nós, somos vítimas de estigmas, discriminações e preconceitos, já que a LGBTfobia se manifesta também através do machismo, racismo e xenofobia. “Direitos iguais, nem menos nem mais!”

15 de maio de 2017

[Opinião] Dia Mundial e Nacional de combate a homofobia por Marcelo Cerqueira

Por Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia O Grupo Gay da Bahia foi fundado em 1980 pelo antropólogo paulistano Luiz Mott, então, professor visitante […]
13 de maio de 2017

Vidas LGBTs: movimento levanta a bandeira contra a impunidade e a LGBTfobia

Os gritos de “Parem de nos matar” se mesclaram com os gritos por “Justiça” e a sensação de que cada um que ali estava poderia receber, […]
2 de maio de 2017

Projeto Minha Mãe é uma Drag terá edição especial no dia 14 de maio

Sua mãe gosta de uma boa lacração?! Então vocês já têm um destino no dia das mães. No dia 14 de maio acontecerá a segunda edição […]
2 de maio de 2017

Abertas inscrições para oficinas da Mostra CUS 10 anos

Monxtração, bondage e invasões dissidentes. Essas são as três oficinas que compõem a Mostra CUS 10 anos. As oficinas já estão com vagas de inscrições abertas. Elas acontecerão […]
26 de abril de 2017

Salvador recebe segunda edição do festival de artes Marujo da Diversidade

Vamos falar de diversidade! Em maio acontecerá a segunda edição do babadeiro festival de artes Marujo da Diversidade comandado pela talentosíssima Malayka SN no bar Âncora […]