O terror da página em branco

O terror da página em branco

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Uma vez, assistindo à uma entrevista da premiadíssima jornalista Eliane Brum (que mulher, amigos), não me recordo onde, ouvi-la dizer que achava muito difícil alguém trabalhar com jornalismo e ter medo da página em branco. Lembro que fiquei arrasada quando vi. Afinal, cá estou eu: uma foca que se apavora com as linhas ainda não escritas.

Antes mesmo de começar no Correio de Futuro eu já tinha essa inquietação. É coisa antiga, da época em que ainda treinava redações para o vestibular. Apesar disso, na hora de escolher o curso, pensei que não era certo deixar o medo me fazer desistir da opção que me enchia os olhos: a de ser jornalista. Por isso, arrisquei. Mesmo assim, ainda na faculdade, ele permaneceu. Da decisão sobre por onde começar um texto até a definição de como terminá-lo, são muitas as dúvidas que se colocam no caminho.

Essa aflição que me acompanha antes de escrever algo, uma espécie de fobia do que ainda não é mas precisará ser, foi o que me afastou das oportunidades de ir para uma redação antes. E esse incômodo e latente desespero, que faz o coração palpitar quando ouve a palavra “deadline”, jargão usado para falar sobre o prazo final de entrega de uma matéria, ainda são meus companheiros, infelizmente. A boa notícia é que isso tem melhorado.

Aqui no CORREIO deu para ver que a rotina é menos cruel do que eu imaginava. Não sei se essa percepção é motivada pela minha expectativa de que seria um bicho de sete cabeças insuperável ou se é porque os editores, chefes e colegas fazem ela ser mais leve. Talvez um pouco dos dois. Há pressa, há necessidade de rapidez, mas também há compreensão sobre o processo e o tempo que ele demanda.

Hoje, acumulo 100% de vitórias sobre todas as páginas em branco que precisei enfrentar. Campeã invicta. No fim das contas, acho que finalmente estou começando a ver a folha vazia como aliada, não mais como adversária.

Depois de me dar conta disso fico pensando que deveria era ter arriscado antes! Por outro lado, acalmo a mim mesma com a certeza de que as coisas acontecem mesmo quando precisam acontecer. Acredito piamente nisso, apesar de às vezes achar que pode ser nada mais do que uma estratégia para não me arrepender tanto do que não foi feito. Mas vou parar logo por aqui, antes que o texto perca a coerência. Tô ficando corajosa, mas não tô ficando besta.