Seguindo o baile

Seguindo o baile

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Toda vez que um desafio aparece, fico ansiosa. Não foi diferente quando soube que participaria da cobertura do Festival Virada Salvador, realizado entre os dias 28 de dezembro e 1º de janeiro, durante as comemorações de réveillon na capital baiana. Nós, futuros sorteados para o plantão de ano novo, fomos presenteados com essa pauta. Mas não só essa.

Entre as outras coisas que fiz, tive que ir ao aeroporto conversar com turistas que vieram celebrar a chegada de 2019 na cidade. Agora que estão cientes da minha programação enquanto vocês tomavam uma cerveja na praia, faziam um churrasco com os amigos ou arrumavam as malas para viajar, talvez se perguntem: o que uma coisa tem a ver com a outra? Em ambas, foi preciso encontrar fontes, aquelas pessoas que podem testemunhar, explicar ou representar algo apresentado na matéria.

Nos casos de festas e aeroportos, as fontes estão em momentos da vida em que, provavelmente, tudo o que não querem é conversar com uma estranha que busca informações para realizar seu trabalho. Apesar de me sentir como aquela vendedora de cartões que muitos ignoram nas lojas, foi perceptível a diferença entre a recepção das pessoas nas duas pautas.

Quem chega de viagem está cansado, apressado para ir ao banheiro, tentando encontrar o guia turístico que o espera ou em busca de um meio de transporte para lhe levar ao local de hospedagem. Se no meio de tudo isso aparece uma intrusa que, de quebra, ainda implora por uma foto, é de se esperar que não seja bem recebida.

Isso, claro, eu concluí depois de horas refletindo e repassando mentalmente as perguntas feitas, a forma que me apresentei e qualquer outra coisa que pudesse ter resultado nas várias pessoas se recusando a dar entrevista na minha ida ao aeroporto – pelo menos três, de acordo com o que a minha memória é capaz de alcançar. A cada “não”, eu ficava um pouco mais triste e um pouco menos esperançosa de encontrar boas histórias.

No fim das contas, deu tudo certo. Encontrei uma família em que a maioria dos integrantes é natural de Belém do Pará, mas mora em São Paulo, e veio fazer a contagem regressiva para 2019 com os parentes que vivem em terras soteropolitanas. As duas crianças do grupo são paulistas e estavam pela primeira vez por aqui.  Apesar de terem acabado de pousar em solo baiano, todos toparam conversar comigo e tirar uma foto da galera reunida.

Teve também a dupla de amigos alagoanos – um que veio repetir a dose do réveillon passado e outro estreando em território baiano. Sem falar na família natural de São Paulo, mas recém-chegada diretamente de Chicago, nos Estados Unidos, onde vive atualmente. Ainda houve a história de dois brasilienses e dois grupos de amigos da cidade de Porto, em Portugal. Esses acabaram não entrando no texto final por dois motivos: não iam ficar hospedados na cidade – o que fugia do foco da pauta – ou não havia mais caracteres suficientes para contar a história deles. Eis aqui um dos desafios do trabalho jornalístico: selecionar o que será exposto – mas deixemos isso para um próximo texto…

20190103_194252

Indo para o primeiro dia do Festival Virada Salvador, que também marcou a minha primeira vez cobrindo uma festa desse tipo | Foto: Thais Borges

Surpresas

No caminho para o Festival da Virada eu já esperava uma recepção meio negativa. Acontece que fui surpreendida. Lá, as pessoas falavam animadamente sobre tudo o que era perguntado, mesmo diante do barulho, da multidão e do empurra-empurra  que dificultavam o diálogo. Apesar disso, a minha batalha interna era permanente: “será que durante essa música é uma boa hora para abordar essa pessoa? Mas, se não for agora, quando será o momento ideal?”, me questionava. Enquanto o show acontece, uma canção sucede a outra e fica difícil mensurar se entre esta e a seguinte haverá algum tempinho disponível para a entrevista.

A credencial que dá acesso ao palco, às entrevistas coletivas com artistas e à sala de imprensa | Foto: Larissa Silva

A credencial que dá acesso ao palco, às entrevistas coletivas com artistas e à sala de imprensa | Foto: Larissa Silva

Por outro lado, quem está na redação com o papel de atualizar o site está à espera de novidades para publicizar, alimentando a cobertura em tempo real. É por meio dos olhos, ouvidos, anotações e texto do repórter em campo que o colega da base pode realizar a missão dele. E isso pode ser um peso ou um estímulo. Tentei me tranquilizar com a última alternativa.

Depois dessas experiências do plantão, percebi duas coisas – meio piegas, é verdade, mas nem por isso menos importantes. A primeira é que a paciência deve ser companhia do repórter na apuração, ainda que a pressão do tempo seja uma realidade. A busca por bons personagens para contar uma história exige calma. A outra é que é preciso ter cara de pau para insistir o quanto for necessário para conversar com sua fonte. Às vezes, isso vai funcionar. Outras, não. E tudo bem. Quando não der certo, é preciso ter empatia e leveza para ouvir e acolher o “não”, afinal ninguém é obrigado a participar de uma matéria. O que não dá é ficar desanimado diante das respostas negativas. As buscas continuam e o baile tem que ser seguido sempre.