

Crianças querem mesmo ser ouvidas. A pesquisa TIC Kids Online Brasil de 2016, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), apontou que 86% das crianças e adolescentes (de 9 a 17 anos) possuem perfis próprios nas mídias sociais. Metade deles (49%) tem perfil público, enquanto apenas um terço (33%) o configurou como privado e outros 9%, como parcialmente privado. E quanto menores, maior a presença das mães. Maria Eduarda Yamazaki, 6 anos, tem mais de 73 mil seguidores no Instagram. É ao celular da mãe, Patrícia, que ela recorre para vencer a timidez. Dudinha, como é conhecida pelos instafriends, mostra vídeos de encontros com famosos como Jesus Luz, fotos de quando ainda era um bebê e cenas do seu aniversário de 4 anos. A festa, com decoração da princesa Cinderela, foi o primeiro aniversário com colaboração de parceiros. Na comemoração seguinte, de 5 anos, foram mais de 40 marcas patrocinando roupas, sapato, cabelo, maquiagem e até lembrancinhas. “Eu vejo que tem muitas crianças nesse meio para isso, para ganhar e não pagar mais nada. Minha intenção nunca foi essa. Foi uma coisa que realmente aconteceu”, garante Patrícia.Visualizar esta foto no Instagram.Uma publicação compartilhada por Mariana Regueira (@regueiramariana) em
Formada em Turismo, ela deixou de trabalhar ainda na gravidez e agora dedica-se inteiramente a cuidar tanto da filha quanto do Instagram bombado da pequena. Tempo virtual Com tantas atividades, crianças estão cada vez mais ligadas ao funcionamento do tempo: horários, compromisso e eventos. Porém, também não é incomum que elas usem uma palavra que a gente não ouvia há muitos anos: tédio. Mas o que é esse tédio? “É não ter o que fazer, principalmente quando estão de férias. Isso faz a gente pensar onde está aquela criança que desce, brinca e perde a noção do tempo, que é o verdadeiro sentido da infância. Agora, elas não conseguem lidar com essa falta de uma atividade”, sustenta a psicanalista Lena Lois. Para a especialista, a criança aprende noção de tempo no corpo. “É o sentar pra comer, sentar pra ouvir história, ir para a escorregadeira. O adulto é que vai dando a dimensão de tempo pra ela. E a medida que ela vai crescendo, a depender de como as famílias conduzam, é que a gente se preocupa. Hoje, a criança muito cedo tem uma agenda grande. Por que não esperar um pouco?” Natural As mães são unânimes em dizer que a vida de influenciadora digital das filhas começou de forma “muito natural”. Bia Dornbusch, hoje com 10 anos, teve sua página no Instagram criada prestes a completar 4. A influenciadora mirim foi uma das primeiras crianças baianas a ter página na rede social. Bia diz gostar de posar para as fotos, enquanto a mãe, a médica Tina Batalha, curte tirar. “Eu gosto que as pessoas gostam, mas minha mãe que faz tudo praticamente sozinha”, conta a menina. Tempo livre foi algo que não existiu para ela em 2017. A mãe conta que aquele foi um ano cheio de viagens para cumprir agenda. Em fins de semana, foram a Fortaleza, Natal, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, João Pessoa e Gramado (RS) para desfiles, produção de catálogos ou propagandas. Cansativo Apesar de destacar a importância de novas amizades e contatos feitos nesse período, a mãe relata o desgaste que essa vida de blogueirinha traz. “Tinha vezes em que a gente chegava domingo de noite e segunda de manhã eu tinha que estar no trabalho. Isso para mim era muito cansativo”, relembra. No final do ano, a família passou mais de um mês na Europa. Foi um tempo em que mãe e filha ficaram distantes do mundo digital e de preocupações com postagens. “Vi que vivo sem isso. Estava envolvida em uma bola de neve que não conseguia sair”, menciona. A experiência fez ela reduzir a agenda de compromissos em 2018. Outra preocupação foi o prazer da filha em viver aquela vida de influenciadora. “Levei Bia para um psicólogo, porque pensei ‘poxa, será que ela está fazendo esse negócio todo para me satisfazer?’”. Com as consultas, a mãe pôde se despreocupar. “Ele (o psicólogo) considera que Bia não vive uma adultização e que ela realmente gosta. De alguma forma, a gente deixou isso lúdico.” Segundo a psicóloga infanto-juvenil Rafaela Machado, não existe uma quantidade de tempo específica para a criança ter tempo livre, mas alerta: “Hoje se estabelece que a criança fique sem contato nenhum com celular até os 2 anos. O ideal seria (ficar sem contato com a tecnologia) até os 5 anos, mas a gente sabe que hoje os pais acabam dando o celular mais cedo. Então, que passe no máximo uma ou duas horas." O cuidado com as horas gastas na internet pelos pequenos merece atenção especial dos responsáveis. Mesmo que o meio tenha influência sobre a criança, a psicanalista Lena Lois afirma que essa mediação tem que ser feita pelo adulto. “Como se vai mediar isso é decisão do adulto, da família, do que é melhor para o filho ou a filha conduzir o tempo dele. Se meu filho gosta de jogar jogos eletrônicos e me pede um jogo que tem cenas violentas, eu tenho na minha mão a decisão de dar ou não. Quem decide isso sou eu, e não ele”, observa a psicanalista. Segurança Nesse tempo de permissão do uso é também preciso atenção às tentativas de abuso. “Acordei 6h em um sábado, abri o direct do Instagram (mensagens privadas) e tinha umas coisas bem pesadas. Eu fiquei muito nervosa”, relembra Rafaela, mãe de Aimée, que fez imediatamente capturas da tela e mandou para um grupo de mães de blogueiras, que atuam para divulgar e proteger suas crias. Nesse caso, denunciaram o suspeito virtual. “Em menos de cinco minutos, o perfil já estava fora do ar. Não é garantia de nada, o Instagram desativa um, a pessoa vai lá e cria outro. Foi uma sensação muito ruim de impotência”, conta Rafaela. A preocupação faz a mãe praticamente não postar fotos da filha usando biquíni e ter atenção com novos seguidores. “Alguém adicionou, vou no perfil. Acho que diariamente eu bloqueio gente”, comenta. Michele Regueira, mãe de Mariana, também lida com inseguranças da rede. “Já aconteceu de virem com uns papos de ‘você é linda’, ‘onde você mora?’, ‘qual o nome de sua mãe?’. Tenho muito receio.” Como proteção, ela evita fazer postagens em tempo real, mostrando o local que a filha está e o que ela está fazendo. Marcas de adulto de olho FitDance, canal no Youtube com mais de 9,5 milhões de seguidores, tem, entre os seus projetos paralelos, o FitDance Kids & Teen. As coreografias infanto-juvenis já receberam mais de 800 mil inscritos e quase 105 milhões de visualizações desde a sua criação, em 2015. Marina Akemi, 11 anos, é uma das crianças que dançam. "Todo mundo fala ‘Você parece aquela menina do FitDance Teen’, e aí eu tenho que falar que eu sou aquela menina", diverte-se. Com pai cantor (Marina é filha de Tiago Velame, participante do The Voice Brasil 2017), a garota também solta a voz em casa e, às vezes, grava vídeos para as redes sociais. Alguns desses vídeos tiveram alcance para além dos seguidores, tendo perto de 20 mil acessos. "Eu quero ser cantora em algumas horas e ser médica também." Marina conta que faz aula de inglês e música e antes fazia aula de violão e teatro, o que sempre a deixou apenas com os sábados e domingos livres. O projeto para criar um canal próprio no Youtube ainda não saiu pela falta de tempo. "Quero gravar vídeos cantando e outros mais do tipo ‘oi meninas, tudo bom?’", conta, se referindo ao bordão das influenciadoras mirins. Quem conduz profissionalmente a presença dos pequeninos na internet fica de olho no tempo. "Tentamos achar horários que não prejudiquem os estudos das crianças. Por isso, fazemos revezamento entre elas. Normalmente, gastamos um período de três horas para gravar cada vídeo, além do tempo dos ensaios", diz Fábio BigBoss, CEO da marca. A presença na internet toma espaço das tradicionais atividades extra-curriculares. Udan Barreto, sete anos e contratado do FitDance, abandonou as aulinhas de futebol para se dedicar ao que realmente queria. "Percebi que ele estava ficando no futebol por causa de mim", conta o pai dele, Joka Barreto, ex-vocalista da Banda Mel. Além do pai artista, Udan tem a irmã mais velha, Catarina, como exemplo. "Foi ela que me influenciou. Ela me treina em algumas músicas." O menino já chegou a receber proposta de modelar, mas pondera: "Não sei se vai dar tempo"Visualizar esta foto no Instagram.Uma publicação compartilhada por Tiago Junior (@tiagoborges.junior) em