ANUSKA MEIRELLES
"Meu filho veio ao mundo numa noite de domingo e só pude conhecê-lo no outro dia pela manhã. Foi uma das piores esperas. As horas não passavam, não conseguia parar de pensar e praticamente não piscava os olhos vidrada no relógio pendurado na parede do quarto do hospital", lembra a arquiteta Fabiana Melo Frugoni, 32 anos.
Quem chega antes da hora faz a mãe contar os dias. Foi assim com o bebê de Fabiana, Aloysio, que nasceu com 24 semanas e 1 dia. Prematuros precisam de um tempo especial para crescer. Os primeiros dias dentro de uma UTI neonatal, turnos maternos e paternos ao lado da incubadora, um longo período até o corpo estar maduro e pronto para ganhar o mundo.
No Brasil, o nascimento de bebês prematuros corresponde a 12,4% dos nascidos vivos, de acordo com dados do Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. Segundo o relatório do estudo Born Too Soon, realizado pela ONG americana March of Dimes, que lidera a luta pela saúde de todas as mães e bebês, o país ocupa o 10º lugar em números absolutos de partos prematuros.
Um parto é considerado prematuro quando ocorre antes das 37 semanas de idade gestacional.
“Normalmente, o bebê nasce com 37 a 41 semanas e 6 dias. Dos que aqui chegaram em 2018, 61% deles só completaram até a 30ª semana de gravidez”, afirma Dina Daltro, coordenadora da UTI Neonatal do Hospital Roberto Santos.
A classificação do bebê prematuro é feita de acordo com a idade gestacional ao nascer e está diretamente relacionada aos riscos de adoecimento e de óbito. Há os prematuros tardios, recém-nascidos entre 34 semanas e 36 semanas e 6 dias; moderados, entre 32 semanas e 33 semanas e 6 dias; muito prematuros, entre 28 semanas e 31 semanas e 6 dias; e prematuros extremos, que nascem com menos de 28 semanas.
Há também a classificação feita pelo peso de nascimento. Os bebês com menos de 2kg são classificados como baixo peso; menos de 1,5kg, muito baixo peso; e menos de 1kg são aqueles de extremo baixo peso.
“Na década de 1980, se nascesse um bebê com menos de 28 semanas, como você não tinha os recursos de hoje, ele era enrolado em um paninho pelos médicos para morrer. Não havia nada que podia ser feito por ele. Hoje, pode ser o prematuro mais extremo, se respirar a equipe faz qualquer coisa para mantê-lo vivo”, comenta Tati Andrade, coordenadora médica da UNICEF.
Muitas vezes, a prematuridade não dá sinais de que vai acontecer. Segundo Selma Lopes, professora adjunta do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb/UFBA), as causas estão relacionadas ao ambiente, à gestante e ao feto. Mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, em extremos de idade (antes dos 18 anos e após os 40), tabagistas ou expostas a trabalho pesado e a drogas lícitas e ilícitas correm risco maior. As gestantes com histórico de aborto ou outro parto prematuro, que apresentem infecção urinária grave ou alterações no formato do útero, também têm risco aumentado.
“Aqui na UTI Neonatal do Roberto Santos, muitas mães chegam com o antecedente de infecção urinária, doença hipertensiva e diabetes. São doenças que não causariam a prematuridade se a mãe fizesse um pré-natal regular. Mas grande parte fazem o pré-natal incompleto, com uma ou duas consultas, ou não fazem”, conta Dina Daltro. Em relação ao feto, a principal causa de prematuridade são os defeitos congênitos e fetos múltiplos.
Um prematuro demanda assistência ao parto especializada. A situação clínica mais comum é a insuficiência respiratória, causada pela deficiência do surfactante, um líquido que ajuda o pulmão a receber e utilizar o oxigênio de forma adequada e que está em falta no pulmão dos prematuros. Aliado ao suporte de oxigênio, este bebê precisa ser mantido em ambiente que simule as condições intrauterinas, através de incubadoras aquecidas e umidificadas. Os pré-termos, em especial aqueles que nascem com menos de 34 semanas, com imaturidade neurológica, necessitam ser nutridos por uma sonda ou nutrição venosa.