GABRIEL AMORIM
Eu tinha quatro anos. Era domingo e enquanto meu irmão recém nascido dormia no quarto, eu jantava pizza com meus pais na cozinha. O telefone tocou. Do outro lado a notícia de que meu tio, irmão do meu pai, havia sofrido um acidente de carro voltando da casa de praia no sul do país. Com ele estava tudo bem, pelo menos fisicamente. Mas sua esposa e seu filho, meu primo, haviam falecido na hora. Foi a primeira vez que eu vi meu pai chorar. Foi a primeira vez que me encontrei com a morte.
Nāo me lembro bem como meus pais me conduziram pra lidar com aquilo. Se me contaram o que era morrer ou se usaram qualquer metáfora sobre virar estrelinha no céu. Não sei. Sei que a cena na cozinha é tão viva em minha memória que podia ter acontecido ontem, mesmo 25 anos depois. Ela me faz pensar que eu sempre soube lidar muito bem com a finitude. Afinal, aos quatro anos, eu nem chorei.
Escrever “Tempo que acaba”, foi uma chacoalhada. Não, talvez eu não lide tão bem com o fim. Cada entrevista, cada história, ouvir de quem realmente enfrenta o tal encontro marcado, me fez perceber que pra mim não é tão fácil assim. Sai cada dia mais tocado, em alguns momentos incapaz de conter a emoção e as lágrimas. A morte era tão real naquelas histórias. Tão real que a vimos de perto. Uma paciente havia topado falar com a gente. Mas antes que a equipe da clínica conseguisse agendar o encontro ela partiu. Martelando na minha cabeça a pergunta: e se fosse comigo? E se fossem os meus?
Depois do meu primo, perdi meus avós maternos num intervalo de quase 10 anos. A morte, então, não se fez presente na minha realidade muitas vezes. E quando ela veio, eu fugi - agora percebo. Evitei as despedidas, os funerais, sempre dizendo a mim mesmo que era porque eu acreditava que a morte não era o fim. Minhas convicções religiosas me diziam que aquela despedida era apenas mais um passo no caminho. Continuo firme no que acredito, mas essa matéria me colocou diante de um medo que eu não sabia que tinha.
Sigo, certo de que não estarei preparado pro fim. Se nem os profissionais que convivem com a morte por anos se enxergam prontos, por que me cobrar essa maturidade? Agora sigo, porém, modificado. Aquela frase sobre a única certeza que temos é a de que vamos morrer está, agora, carregada de significado.
Escrever sobre a morte foi um desafio que eu quis abraçar. Uma forma de me colocar de frente com um assunto que sempre foi tão difícil e evitado por mim. Espero, sinceramente, que meu próximo encontro demore a acontecer. Mas enquanto isso, certo de que ele virá, vou buscar encarar cada dia como o último. Não acho que vá ser fácil. Afinal é humano viver pensando que teremos tempo pra tudo, mas me sinto mais corajoso agora com a consciência do contrário. A esse trabalho, e especialmente a Carla e D. Lúcia, o meu muito obrigado por me inspirarem a viver mais intensamente. Como vocês vivem!