ANUSKA MEIRELLES
Você já se perguntou o que passa na cabeça de uma mãe que tem um bebê prematuro? Selecionamos dos depoimentos de mães que passaram ou estão passando pela experiência de ter um filho que veio ao mundo antes da hora.
PERSEVERANÇA E FÉ
"14 de abril de 2014, dia do meu aniversário. Com sangramento e contrações, fui para uma clínica particular de Ituberá, onde morava. Recebi a notícia de que estava passando por uma ameaça de aborto. O aumento do muco e a intensidade das cólicas me levaram à Salvador, onde estava minha obstetra. Passei nove dias com fortes dores até ser internada no Hospital Aliança.
Um pessário (prótese que mantém o colo do útero fechado) que viria do Paraná era nossa esperança. A prótese chegou às cinco da manhã do dia 1º de maio. No aeroporto, um portador o esperava. Nesta mesma manhã, já na sala de procedimento para colocação do pessário, acompanhada por três obstetras, tive a linda e assustadora notícia de que os meus filhos nasceriam.
André estava numa posição de encaixe e nasceu de parto normal. Logo em seguida, e muito rapidamente, fui anestesiada para uma cesariana. Nasceu Maria Rita, o milagre. Parto duplo e extremamente conturbado, doloroso e tenso. Com 23 semanas de gestação, dei à luz meu casal de gêmeos.
Com 32cm e aproximadamente 600g, eles foram entubados logo após o nascimento. André nasceu com a pele fininha e frágil. Não era fácil vê-lo. Sobreviveu por 13 dias e, após muito sofrimento, dele e nosso, voltou a morar com Deus. Com o falecimento do meu filho, voltei-me inteiramente para minha filha. Enfrentei ameaças, riscos, medos, ansiedades, incerteza. Acima de tudo, tive fé.
Em menos de 15 dias após o nascimento, Maria Rita passou por duas cirurgias abdominais por conta de uma inflamação intestinal. Ela também teve uma hemorragia intracraniana moderada, seu coração apresentou problemas e ela teve enzimas e hormônios alterados por conta de uma contaminação viral. Além disso, fez um procedimento nos olhos por conta de lesões na retina. Também teve suspeita de hipotireoidismo, meningite, entre outros diagnósticos não confirmados. Ficou 45 dias entubada e mais 39 dias em ventilação mecânica.
No dia 27 de agosto, 128 dias depois do nascimento, tive o privilégio de sair do hospital com ela nos braços. Ao chegarmos em casa, os cuidados foram intensos. Com a imunidade baixa, teríamos que apresentar o mundo à nossa bebê aos poucos.
Hoje, quatro anos depois, Maria Rita traz alegrias que nem sou capaz de imaginar. Ser mãe de prematuro é um grande exercício de amor, perseverança e fé.".
Francis Menezes, 41 anos, coach e professora universitária
CORAÇÃO PARTIDO
"Sou mãe de UTI novamente. Primeiro, tive Gustavo, que nasceu no tempo certo e hoje está com 14 anos. Depois veio Antônio, que nasceu com 7 meses. Ficou 51 dias na UTI Neonatal e hoje está com 7 anos. Agora, tive Camila. Ela nasceu com 20 semanas, 940 gramas e 36 centímetros.
Tudo começou quando descobri uma infecção urinária. Estava fazendo o tratamento, mas, na noite de 14 de janeiro de 2019, senti uma dor insuportável. Fui para o Hospital Menandro de Farias (Lauro de Freitas) às 6h do dia seguinte. Achei que seria medicada e voltaria para casa, mas a obstetra falou que a dilatação completa do meu útero sugeria um aborto. Minha filha não iria nascer com vida. Foi um choque.
Fiquei até as 12h sentindo muita dor e internada na sala de pré-parto, até que a médica retornou. Disse que teria de induzir o aborto. A sala de cirurgia já estava preparada, quando, de forma espontânea, Camila chegou ao mundo. Ali mesmo onde eu estava. E todos esperavam que fosse um nascimento sem vida, quando, milagrosamente, ela chorou.
Nessa hora, ela foi levada para o berçário do Menandro. Fui avisada de que aquele poderia ser apenas o primeiro chorinho dela. Ela ainda poderia morrer. Ouvi isso da médica antes mesmo de ver minha filha. Doze horas após o nascimento, a bebê foi transferida para a Maternidade Tsylla Balbino e eu permaneci no Menandro. Na saída dela, tivemos nosso primeiro contato. Não consegui ver nada porque o aparelho de nebulização cobria todo o rostinho dela.
Não consegui ficar tranquila. Sai do Hospital Menandro de Farias por conta própria para tentar uma vaga para mim na Tsylla. Era inconcebível ficar longe da minha filha. Fui acolhida, consegui minha internação e recebi todos os medicamentos que precisava.
Minha filha estava entubada na unidade semi-intensiva, porém, seu caso acabou sendo mais grave do que os médicos imaginavam. No dia 17 de janeiro, foi novamente transferida. Desta vez para o Hospital Roberto Santos, onde está até hoje. Achei que estaria preparada para o que estou vivendo, mas é tudo diferente. Acordo cedo todos os dias, vou para a escola onde trabalho como diretora. Depois, sigo para o hospital junto com meu esposo e lá ficamos, junto com Camila, até as 18h.
Nunca tive inveja, mas outro dia invejei uma mãe que carregava o seu bebê. Eu ainda não segurei minha filha. Tenho uma sensação de coração partido."
Adriana Souza, 33 anos, pedagoga
CORAÇÃO PARTIDO
"Marina, nossa filha, foi muito desejada, tinha mais de 15 anos que eu desejava ser mãe e há 3 anos eu vinha tentando engravidar. Ela chegou no momento que tinha que ser. Eu e o meu marido ficamos muito felizes com a chegada dela.
Eu tenho trombofilia (doença que provoca risco de formação de coágulos na circulação sanguínea), descobri há uns 6 anos, então, foi uma preocupação com isso durante a gestação. Tivemos um planejamento para a chegada desse filho e foi tudo muito rápido. Com 6 meses ela nasceu, eu não tinha nenhuma indicação de prematuridade, a questão da trombofilia é algo que você toma uma injeção e se resolve, então, não tinha nada que indicasse que ela nasceria prematura, mas, na noite de Natal (24), as 21h, comecei a perder líquido e fui para emergência. Não senti absolutamente nada, colo do útero fechado, nenhuma contração, nenhuma preparação para o parto.
Tinha certeza que chegaria à emergência, seria medicada e retornaria para minha casa. Mas não foi isso que aconteceu. Quando cheguei à emergência o obstetra falou que a bolsa tinha rompido, ela não havia estourado de vez, mas tinha rompido e estava gotejando – perdendo líquido. Eu fiquei internada por 3 dias no hospital, para tentar segurar, sem poder sair da cama, pois era um bebê de 27 semanas e tem uma fragilidade do quadro. Tomei algumas medicações para ajudar o pulmão do bebê a amadurecer mais rápido e isso foi fundamental para o seu nascimento.
Depois desses 3 dias não tinha mais como segurar, eu estava perdendo muito líquido e já tinha algum sinal de infecção, precisava fazer o parto e ele aconteceu no dia 28/12/2019.
Fiz a ultrassom e viu o exame, desci para a sala de cirurgia no mesmo dia para fazer o parto porque meu bebê precisava sair do meu útero. Foi feita toda uma preparação. Eu lembro que na hora do parto a sala estava muito quente e o médico me disse que o local estava adequado para Marina (minha filha), para recebê-la.
Após o nascimento eu não acompanhei a chegada dela na UTI Neonatal, meu marido que fez isso, mas senti uma preparação muito grande, de equipamento, de toda uma estrutura, inclusive, tinha a perspectiva dela ser intubada, mas não foi. Acredito que a medicação que ela tomou para amadurecer o pulmão ajudou bastante nesse processo.
Estou há 45 dias na UTI e é uma rotina que aos poucos você vai de adaptando. No início, os primeiros 5 dias, eu era só felicidade, só sorria porque ela tinha nascido, depois, passei a entender outros aspectos desse nascimento, outras implicações de saúde. Passei a entender os riscos e os perigos. Muitos exames. Ela não precisou de grandes intervenções, nos deu alguns sustos, por conta da respiração, principalmente, mas são muitos detalhes que envolvem a prematuridade, de risco e de sequela.
Ela usou durante um tempo um equipamento chamado CPAP, que coloca no nariz para ajudar na respiração, ajudando o ar a entrar e eu não sabia que, mesmo machucando um pouco o narizinho dela, ele é melhor que a intubação. E não é só a questão de machucar, o oxigênio faz mal e pode trazer várias sequelas, nas vistas, no pulmão. Tudo isso eu fui sabendo dia após dia.
Eu perguntava tudo, queria saber de tudo. Uma das coisas que me ajudou bastante foi o apoio da equipe do Hospital Aliança e o acesso 24 horas ao meu bebê. Lembro-me que a noite da virada do ano eu e meu marido passamos no hospital, junto com outros pais, enfermeiros e médicos.
Estamos aqui no hospital todos os dias. Meu marido passa 6h, antes de ir para o trabalho e eu passo grande parte do meu dia aqui, hoje mesmo cheguei as 6h40, devo ficar até umas 15h, vou à rua rápida, resolver umas coisas e volto para ficar até às 20h.
Eu quero estar junto a todo o momento, perguntando, querendo saber cada detalhe dela. Marina está bem próxima da alta, deve estar recebendo dia 22/02/2019, ela está bem e as outras questões nós vamos resolver de casa, dia após dia.
A fé me sustentou e me ajudou o tempo todo. Está confiante acreditando que tudo daria certo e isso você passa para o seu filho. Está do lado dela estando bem. A cada momento eu falava para ela que estava tudo bem, que estava tudo bem com ela e que isso era passageiro.
Andréa Luz, 41 anos, psicóloga, e seu esposo, Alberto Cruz, 45 anos, tecnologista, estão contanto os dias para receberem a alta hospitalar e ir para casa.