Por Camila Daltro Ferreira

Por que se orgulhar? Segundo o dicionário, orgulho é um “sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra”. À primeira vista, pode parecer contraditório que haja um dia específico para se orgulhar do que crescemos acreditando que seria motivo de vergonha (no mínimo).

Vivendo em um dos países mais LGBTIfóbicos do mundo e o que mais mata pessoas trans e travestis, é difícil conceber um motivo que justifique orgulhar-se. Mas, exatamente 52 anos atrás, no dia 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn em Nova York, conhecido por seu assíduo público LGBTQIA+, acontecia não a primeira, mas com certeza uma das mais históricas revoltas de enfrentamento e vitória sobre a violência contra os nossos corpos.

Essa revolta, rebelião ou insurreição tem vários nomes, mas, independentemente do qual se utilize, o ponto principal é que há mais de meia década, uma reação liderada por mulheres trans e travestis e drag queens e kings levou a um confronto que durou 4 dias, e tudo começou com uma rotineira abordagem policial agressiva e discriminatória que chegou ao seu limite naquele dia. Toda a raiva e desejo de existir da população LGBTQIA+ frequentadora daquele bar não foi contida nem por reforços policiais, cuja única saída que tiveram foi justamente entrincheirar-se dentro do local que tanto reprimiam.

A força de Stonewall e de todas aquelas pessoas desviantes e fora do padrão que, assim como milhares de outras mundo afora, cansaram de precisar se esconder por simplesmente serem quem são, é motivo suficiente para nos orgulharmos, mas também para refletirmos a quem é dado o direito de comemorar atualmente.

As trans, travas, monas, bichas e sapatonas de Stonewall ainda resistem; não só lá em Nova York, mas nas comunidades e periferias daqui, basta olhar ao redor. Essa data comemorativa, ainda que com uma origem muito nobre, corre o risco de ter se perdido após tanto tempo de sua história: hoje, o orgulho virou sinônimo de capitalização, e o arco-íris é de quem paga mais.

A população lésbica, gay, bissexual, trans, travesti, intersexo, assexual, queer e outres tantes dissidentes, ainda que no senso comum adquiram uma forma só, é muito mais complexa – identitária, racial e economicamente – do que uma data, e o nosso orgulho, para além de ser comemorado, ainda precisa ser lutado, conquistado e ocupado a cada dia. A cada travesti brutalmente assassinada, a cada homossexual violentado, a cada afeto não demonstrado publicamente, a cada vaga de emprego perdida por uma pessoa não-cisheteronormativa, a cada pessoa LGTBQIA+ expulsa de casa. A luta é coletiva, embora isso não signifique que não enfrentamos batalhas individuais cotidianamente.

Caso ainda não tenha ficado evidente por que não existe um Dia do Orgulho Cis e Hétero, é só conferir os dados de heterofobia, a quantidade de casais heterossexuais assassinados, o número de vezes que uma pessoa heterossexual escondeu a sua sexualidade com medo de ser discriminada, o sofrimento passado por pessoas cisgêneras ao entrar num banheiro público ou acessar um serviço de saúde, os índices de depressão, ansiedade e suicídio na comunidade hétero… Não encontrou?

* Psicóloga (CRP-03/23375), integrante do Grupo de Trabalho em Psicologia, Sexualidades e Identidades de Gênero (GTPSIG/CRP-03) do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, pesquisadora e mestranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA).

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