Ética na Odebrecht

Ética na Odebrecht

Ernesto Gonzalez, representante de conformidade da Odebrecht

Ernesto Gonzalez, representante de conformidade da Odebrecht

Errar, admitir e recomeçar. Este é o caminho que está sendo percorrido pela Odebrecht. Depois do envolvimento em esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, a empresa tem intensificado as ações de combate a práticas antiéticas. Em setembro deste ano, cerca de 90 acionistas e executivos da holding Odebrecht, conglomerado de empresas que compõem o grupo, conheceram o sistema de conformidade adotado pela organização – um conjunto de orientações e práticas que norteiam o comportamento dos funcionários na gestão dos negócios do grupo.

Para reforçar essa nova conduta ética, a empresa passou a seguir 10 princípios de não tolerância à corrupção. O executivo Ernesto Gonzalez, por exemplo, trabalha para garantir que a política de conformidade seja cumprida na Enseada Indústria Naval, um dos maiores investimentos privados na Bahia nos últimos 15 anos com recursos da ordem dos R$ 3 bilhões, com unidade localizada em Maragojipe, no Recôncavo. As explicações sobre essa nova fase da empresa foram apresentadas esta semana à 12ª turma do Correio de Futuro, na sede da Odebrecht em Salvador.

Na oportunidade, Gonzalez falou sobre casos históricos de corrupção em empresas e governos de diversos países (veja galeria) e descreveu as medidas que a Odebrecht tem implementado, a exemplo do estímulo ao uso da “linha de ética”, um canal de comunicação confidencial para denúncias sobre eventuais comportamentos inadequados e de desvio ético nos negócios da empresa. Confira a entrevista: 

Correio de Futuro: Como é trabalhar na Odebrecht neste momento de crise?

Ernesto Gonzalez: Na época da investigação foi um momento difícil. Não foi a primeira crise da Odebrecht, ela já teve outras crises. Numa empresa de grande porte, isso acontece. Com o desligamento (cerca de 100 mil funcionários foram demitidos em três anos), as pessoas ficaram mais abatidas, mas as que continuam aqui estão confiantes que vamos virar essa página e conseguir seguir em frente. O que a gente precisa é gerar novos contratos. Essas pessoas que estão aqui acreditam na empresa e que vamos superar isso.

CF: O senhor falou que membros do Ministério Público Federal (MPF) e Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) estão acompanhando as mudanças na Odebrecht e vão ficar por três anos na empresa. É tempo suficiente?

EG: Essas duas pessoas que foram escolhidas pelo MPF e pelo DOJ não têm que prestar qualquer tipo de conta para a Odebrecht. Eles só prestam conta ao MPF e ao DOJ. Houve um entendimento que três anos seria um período bom, razoável, para você fazer esse amadurecimento, consolidar essas práticas. Aí entende-se que a empresa está apta para seguir com suas próprias pernas.

11 fatos da corrupção no mundo

CF: Quanto o novo código de conduta da Odebrecht mudou?

EG: Esse novo código foi ampliado com temas mais sensíveis, relevantes. Tem um capítulo específico falando sobre combate à corrupção, por exemplo. Ele ficou também mais severo. É a evolução natural do processo.

CF: Depois desse processo intenso de mudança na empresa, o senhor acha que essa cultura de conformidade vai continuar presente?

EG: A conformidade é um caminho sem volta. No caso da Odebrecht, não só porque ela agrega valores, mas porque não há mais margem no grupo para isso. Não vai haver uma terceira chance. A gente está lutando por essa segunda chance, mostrando pra sociedade que a gente tá se transformado. Um novo deslize, a sociedade e o mercado não vão perdoar. Não só por isso, mas também porque foram mudanças trabalhadas com intensa dedicação. Até a divulgação daquela carta (divulgada pela empresa em dezembro de 2016), houve um intenso trabalho de bastidores. Discussões, reflexões, qual caminho seguir. É algo muito forte, contundente, um presidente de uma grande empresa do Brasil dizer: “erramos”. Erramos, mas queremos e vamos colaborar de forma definitiva com a Lava Jato. São pontos que mostram que não haverá esse afrouxamento.


“Não vai haver uma terceira chance”,
Ernesto Gonzalez, executivo da Odebrecht

 

CF: Desde que os casos de corrupção envolvendo a Odebrecht foram expostos, as atividades da Enseada Indústria Naval foram paralisadas. Um tempo depois da suspensão, a empresa anunciou que investiria em novos negócios no estaleiro (Enseada do Paraguaçu, em Maragojipe). Como está esse desenvolvimento dos novos negócios?

EG: A gente está buscando esses novos negócios para reativar o estaleiro. Procurando se diversificar, não perdendo o nosso cerne que é a construção naval e o offshore, mas buscando inovação por conta do ativo. É um ativo relevante. São cerca de 82% de área já construída (área total é de 1,6 milhão de metros quadrados). A gente tem um porto, tem licença para operar como se fosse porto privado. Então estamos buscando inovação para manter a nossa sobrevivência.

CF: Há previsão de retorno das atividades paralisadas na Enseada?

EG: Estamos dependendo da conquista de um novo contrato [de investimento na empresa]. Existe uma diretoria específica no negócio para tratar esse assunto, que está em busca desse cliente.

CF: Enquanto isso, o que está sendo realizado no local?

EG: As únicas atividades feitas no momento são de manutenção e preservação do espaço. Além, claro, das atividades administrativas.

Galeria de imagens: Kelven Figueiredo e Renata Oliveira