Da redação para as ruas

Da redação para as ruas

Muito atrasado ou não, eu não poderia deixar de contar aqui como foi o dia em que tive que sair da redação do CORREIO e ir às ruas conhecer o processo de apuração das notícias. A missão era, junto com Alexandro Mota, que também faz parte do Programa Jornalismo de Futuro, acompanhar a repórter Laís Vita e vivenciar a rotina de produção da informação. A pauta a ser coberta por ela dizia respeito às dúvidas dos estudantes de cursinho sobre o vestibular da Universidade Federal da Bahia. E lá fomos nós.

Mal entrei no carro junto com os outros e tive o primeiro choque. Laís me mostrou a pauta passada para ela escrita no seu bloco de notas. Eram quatro linhas com tópicos meio vagos sobre o que ela deveria fazer. É claro que era fácil a compreensão da matéria a ser coberta por ela e talvez não houvesse necessidade de maiores detalhes, mas como acabei de passar por matérias que cobravam a produção de pautas de mais de uma lauda, não pude deixar de me espantar com o que vi. Tirando os sustos da vida, tudo bem.

Laís Vita durante entrevista (Foto: Ruan Melo/Dispositivos móveis)

Antes de contar como foi a chegada ao primeiro cursinho, é válido ressaltar que, como já saí às ruas para cobrir matérias para disciplinas da faculdade, sei mais ou menos como as “coisas funcionam”. Ao ver a facilidade de Laís para ter acesso ao local e o número de estudantes que ela conseguiu entrevistar sem ter que implorar, lembrei dos meus tempos de produção da revista e do jornal da Faculdade de Comunicação. Naquela época, para ter acesso a certos lugares eu tinha que explicar o motivo da minha ida, quem me mandou, com que objetivo e jurar de pé junto que era para uma boa ação. Pior era para conseguir uma entrevista. O entrevistado não confiava em mim, achava que era pegadinha e não dava importância, já que era um trabalho acadêmico.

Com Laís a coisa era diferente. O entrevistado respondia as questões rindo, se interessava pelo tema, queria ficar mais tempo com ela. Melhor ainda foi quando a fotógrafa do jornal chegou. Os estudantes foram logo se maquiar, arrumar os cabelos. Comigo, para as disciplinas, ninguém queria tirar foto porque achava que eu fosse fazer alguma “montagem macabra”. É obvio que a credibilidade do CORREIO está no meio disso tudo e, por isso, são inúmeras as portas que o jornal abre.

Lembro de um episódio no mínimo engraçado. A fim de nos ajudar a ganhar experiência, Laís propôs que eu e Alexandro fôssemos entrevistar alguns estudantes sobre o tema da matéria. E lá fomos nós. Não demorou muito e encontramos nosso alvo. Era um casal de alunos do cursinho que estava conversando durante o intervalo da aula. Confiantes em função da facilidade que a jornalista do CORREIO teve para conseguir as suas informações, fomos tranquilamente até a dupla. No entanto, o que parecia fácil não chegou perto disso. Primeiro que, ao me apresentar, vi que os dois me encaravam com desconfiança. Segundo, eles respondiam sem interesse algum, não davam importância ao que fazíamos. Mas não pense que isso foi o pior.

(foto: Ruan Melo/Dispositivos móveis)

(Foto: Ruan Melo/Dispositivos móveis)

Laís nos contou que, para o caso de dúvidas futuras, sempre ao final da entrevista é fundamental pedir o número de telefone dos entrevistados. Pois bem. Segui junto com Alexandro todos os ensinamentos dela e, no final da entrevista com o casal, recebi um “belo não” ao pedir o nome completo da menina. Ou seja, nem deu tempo de chegar na parte do número de telefone. Mas como sou flamenguista e não desisto nunca, consegui o nome da entrevistada após jurar que era para o CORREIO e que eu era um “menino direito”. Deu certo. O telefone nem cheguei a pedir, pois corria um grande risco de levar um tapa.

Mesmo com todos os problemas do mundo, acredito que a saída com a repórter profissional foi uma das coisas mais positivas que fiz durante esse quase um mês de imersão. Dentre outros pontos, vi diferentes formas de abordagem das pessoas, como deve ser a relação do jornalista com o entrevistado e como deve ser conduzida a entrevista. Como diria Linda Bezerra, chefe de reportagem do CORREIO, lugar de repórter é nas ruas. E é nisso que eu acredito. Não existe forma melhor de adquirir experiência do que vivenciando o seu trabalho.