As atividades hoje na redação do Correio* aconteceram rápidas. Duas de minhas colegas ainda na recepção da redação já foram arrancadas para a rotina jornalística. Eu, de ousado que sou, resolvi insistir em brincar com o acaso, ficar uns minutos a mais na redação e deixar o acaso levar. Menos de cinco minutos sentado em uma das cadeiras da redação e meu destino já estava traçado.
Ainda na redação, junto com minha colega Dani, conheci Luana Ribeiro. Percebi logo de início doses de simpatia em Luana. No entanto, a euforia do jornalismo local não me deixaria muito tempo com Dani e Luana. As notícias as puxaram para um caminho diferente do caminho que eu percorreria nesta tarde.
Minha rotina mudou rápido. A cena de Linda Bezerra ao meu lado, ainda com as mãos em meus ombros, recebendo uma aparente ligação importante me fez curioso. Linda já contaminada pela notícia avisa a respeito de um assassinato que acontecera na noite passada. Um taxista foi assassinado com três tiros e atropelado. Trágico. O velório estava prestes a acontecer, ali perto da redação mesmo, no Cemitério Campo Santo no bairro da Federação. Não hesitei e me disponibilizei para cobrir a pauta.
Na última sexta-feira em um encontro com Erival Guimarães uma das minhas perguntas direcionadas a ele foi justamente sobre os medos que a profissão do jornalismo local poderia oferecer e como encará-los. Erival sabiamente respondeu minha questão com um conselho: “Em meio a tanta tristeza você precisa ser profissional. É preciso criar uma capa e fazer o seu trabalho”. Relembrei as palavras e percebi o sinal do acaso que, desde antes, já me preparara.
Fui deixado em frente ao cemitério na recepção minutos depois de saber do caso. A informação ainda estava crua. Sequer tinha o nome da vítima em minhas mãos. Ao descer do carro, deixando as colegas Luana e Dani atrás, confesso, eu me fiz jornalista. Lembrei do olhar atento, dos critérios de noticiabilidade, da discrição.
Logo de início venci a primeira etapa, o nome da vítima estava estampado em um painel com o horário do sepultamento ao lado, às 16h30. Vi-me em um quebra-cabeça. O jogo da vez era desvendar as informações, entender a tragédia.
Meu já amassado bloco de notas e meu crachá de Jornalista de Futuro me denunciavam. Talvez minha fácil identificação, nesse caso, tenha me ajudado com as fontes. Minutos depois de chegar à sala 08 do cemitério, estava com a declaração de óbito da vítima em mãos e com muitos dados que há meia hora eram desconhecidos.
Resolvi infiltrar-me no meio das dores, no meio da multidão que de 11 tornaram-se aproximadamente 150 pessoas pegas de surpresa pela morte do taxista. Fui além. Ainda tímido, avistei um senhor com aparência de 80 e poucos anos inconformado. Narrava para quem quisesse ouvir sua indignação com a violência de Salvador. Fiquei ao seu lado, observando-o e timidamente balançando a cabeça concordando com sua indignação e dando apoio com o olhar. Não resisti e perguntei: “O senhor é parente da vítima?”. E ele: “Era meu genro, meu filho”. De repente, em segundos, o senhor inclinou-se para mim e começou a desabafar. Ainda misturando frases de presente e passado, confuso com a morte do genro, nem lágrimas foram economizadas, nem mesmo enquanto conversava comigo, um desconhecido.
O sobrinho do taxista assassinado também veio prontamente falar comigo. Ouvir um sobrinho narrar como encontrou o tio assassinado no chão de asfalto também não foi fácil. Mas, admito, suguei ao máximo. Vesti, como Erivaldo mesmo aconselhou, minha capa jornalística e me atentei aos fatos, ao desenrolar da história.
Luana chegou no local perto da hora de sepultar o corpo. Passei atentamente todas as informações que obtive, mostrei a parte daquele quebra-cabeça que consegui construir até o momento. Percebi no passar de informações o quanto eu já tinha construído a notícia. Mas, ainda assim, Luana com seu olhar jornalístico atentou-se para outros fatos que identifiquei, mas não me alonguei. Estávamos sendo jornalistas.
Ainda com fôlego jornalístico, continuei o caso após o velório. Os amigos do taxista depois do sepultamento dirigiram-se à praça da Piedade. Rumo a Secretária de Segurança Pública (SSP), os colegas da vítima pararam o trânsito. Manifestação! Novamente “sozinho” na cobertura dos fatos, Luana e Dani dirigiram-se para a redação e eu? Eu me vesti de coragem e continuei a apurar os fatos.
Com o celular conectado na redação do Correio* de um lado e com as fontes de outro, encarei a segunda cobertura como um renovo. A alguns quarteirões da manifestação, Jassan – um simpático motorista que me levava até o local – alertou que provavelmente demoraríamos no engarrafamento. Horário de pico! Não pensei duas vezes e desci do carro em meio ao trânsito. Eu corri atrás da informação. Fui a pé até a SSP e entre ligações alternadas fui traçando o caminho que a notícia foi tomando.
Presenciei o acordo entre policiais e taxistas para liberação de uma das vias da Rua Direita Piedade. Vi também os três taxistas saindo da reunião da SSP e anunciando as reinvindicações que fizeram ao delegado. E até cidadão irritado com a paralisação do trânsito querendo quebrar vidro de carro de taxista eu vi…
Ao final do dia, eu me senti gente. Nem a movimentação da polícia me fez parar naquele fazer jornalístico. E brinquei pensando comigo mesmo: eu, marinheiro de primeira viagem, peguei uma pauta-combo: 2 em 1. É… Ok, dia. Você surpreendeu. Que venha um novo.
Por Darlan Caires