O CORREIO é pop

O CORREIO é pop

Editor do Vida, Hagamenon Brito comenta a importância da leitura para quem quer escrever sobre cultura

Como muitos dos editores e repórteres que temos conversado comentam, o CORREIO procura se firmarna diferença. A busca por novos modos de levar a notícia ao leitor é pauta constante na redação, na diretoria e em outros departamentos da empresa. Na fonte, no visual, no estilo textual, nas imagens, no marketing, na manchete, na distribuição, no asterisco. O discurso, na minha percepção, é o seguinte: que mentes criativas trabalhem pensando em como se distinguir da concorrência. E esse pensamento tem linguagem popular.

Na linha editorial conta-se histórias, aborda-se dramas, apresenta-se o povo ao povo. A pauteira Linda Bezerra nos apontou esse caminho em um dos primeiros dias de imersão que tivemos no periódico. Direcionamento, aliás, reiterado e justificado pelos Estudos Culturais, campo de análise da cultura contemporânea e seus desdobramentos na sociedade. O teórico britânico Richard Hoggart pôs em foco em seus estudos sobre cultura popular a ênfase nas representações da vida cotidiana. Para ele, estas se justificam pela relevância que o ser humano dá ao pessoal e ao local nas tais culturas populares.

A indústria da comunicação (sobretudo a de entretenimento) compreende e se relaciona com essa ideia muito habilidosamente, de acordo com Hoggart. Os pormenores da vida comum são intrinsecamente interessantes e esse fator atiça uma série de veículos, como o CORREIO, a traçar linhas a partir do fascínio que a vida humana tem por si mesma.

Quem disse que cultura é fácil?
Durante uma troca de ideias sobre os conteúdos ligados à cultura do jornal, Hagamenon Brito, editor da sessão Vida (espaço do periódico que nada tem a ver com saúde, ao menos no sentido biológico), comenta sobre a ideia comum de que escrever reportagens culturais ou de entretenimento seja menos trabalhoso. “Cultura não é fácil”, enfatizou. Segundo ele, há toda uma geração de estudantes de jornalismo que quer escrever sobre o tema, mas não tem a necessária bagagem para isso. E um dos principais problemas detectadoé a falta de hábito de leitura. “É terrível pra um editor ouvir de um repórter que ele não gosta de ler,” conta.

Ao invés de seguir para o Sudeste em busca de maior espaço no segmento da crítica musical, Hagamenon fez diferente. Escolhendo o caminho de casa para tocar sua carreira, preferiu dialogar com outros cantos do país diante da realidade do seu estado. Aos 51 anos, o jornalista considera muito importante a reforma pela qual o CORREIO passou porque ele mesmo já se sentia acomodado. A saída da zona de conforto e a mudança dos ares do diário parecem mesmo ter feito bem para ele, que diz ser fundamental não discriminar artistas, tendências, estilos e pautas. “Mas só depois de algum tempo a gente se desprende desses preconceitos,” admite.

Hoje, por agradar a múltiplos gostos, Hagamenon considera o Vida um caderno pop. E não o compreende como apêndice da indústria cultural. Ou seja, busca-se outros métodos de produção de pauta, não somentea partir do agendamento induzido. Para isso, faz-se um recorte de tema ou uma entrevista exclusiva perseguindo a tal distinção da reportagem.

Já Gabriela Cruz, editora do Bazar, esclarece que até pode parecer, mas o caderno não se pauta só em moda

Além da moda
Já o suplemento dominical Bazar & Cia, que inclui um guia de TV sob responsabilidade da equipe de Hagamenon, tem Gabriela Cruz como uma das editoras. Lá, moda é um dos principais assuntos tratados, mas não o único. Na rota para chegar ao caderno ideal, tenta-se equilibrar as pautas entre consumo e informação e não rebuscar o palavreado. “Ele já foi mais masculino, mais baiano, mais fashion,” comenta. Com uma vertente estética marcante, a organização dos textos e imagens aqui é levada bem a sério. “A plástica do caderno tem voz forte,” diz.

Nesse espaço também são publicadas matérias de decoração, gastronomia, comportamento e turismo. Para produzir reportagens sobre o último tema, procura-se achar um gancho especial como datas, roteiros baratos ou destinos incomuns. No Bazar não se trabalha com fotografia de flagrante, mas produzida. “Temos orgulho de dizer que nós mesmos fazemos a produção (dos editoriais de moda)”, observa, enfatizando que há equilíbrio entre o conceitual e o comercial, sem deixar o popular de lado. À propósito, Gabriela também acredita que, sim, “o CORREIO é pop”.