Qual o segredo da fechadura?

Qual o segredo da fechadura?

Edely foi quem começou a rodada de discussão sobre o visual da página. Aqui, não irei descrever muito bem o que cada um falou, pois muitas das coisas foram analisadas em conjunto.

Jogo da Sustentabilidade de Morgana Lima publicado no caderno Imóveis e finalista na categoria arte do Prêmio Jornalistas & Cia/HSBC de Imprensa e Sustentabilidade

A equipe comentou o premiado Jogo da Sustentabilidade, elaborado por Morgana Lima. A matéria saiu numa edição do caderno de Imóveis e, segundo a equipe, apesar de ser inovador tinham questões muito superficiais, o que levava a crer que aquele produto era destinado para crianças, mas isso não estava muito claro no texto. Devido a esse incômodo da equipe com a facilidade das questões, começamos a discutir o que seria fácil para o grande público leitor do jornal e nos questionamos se essa rotulação “jogo infantil” daria conta do produto.

Outra matéria interessante que a equipe analisou foi uma sobre os estilos musicais preferidos do público baiano. Por incrível que pareça, a MPB ficou em primeiro lugar e o pagode à frente do axé (o que nem é tanta novidade assim). A primeira página da matéria é praticamente metade foto (do cantor Xanddy, do Harmonia do Samba) e outra metade texto bastante numérico. Esse fato, já cansa o leitor desde o início. E vá lá que a segunda página seja muito bonita e disponha esses dados em gráficos, mas a overdose de informação visual quase não  permite ao leitor ver nada. Esse, inclusive, é um erro grave.

A mais polêmica de todas as fotos foi uma sobre o “Dr. Réu”, médico suspeito de ter mandado matar o pai de 73 anos para que pudesse ficar com a herança. O crime teria sido encomendado a um pintor que após cometer o crime (matou o pai do suposto mandante a pauladas) confessou tudo. Matérias como essa são sempre difíceis de escrever, imaginem de ilustrar. Ou são fotos como a que Lorena descreveu muito bem em postagem recente aqui no blog ou são fotos que apelam para o horrror, o grotesco e o reforço do culpado, sem nem mesmo ter tido provas. Eu e Marilúcia lemos a matéria juntas e achamos o texto muito bom,pois relatava o que havia acontecido na audiência judicial sem recorrer ao drama familiar ou ao horror social. No entanto, quando vimos a foto, sentimos um grande incômodo: o médico estava envolto por uma sombra negra (que inclusive dialogava com o início do texto), o que ratificava a ideia de que ele estava envolto por algo negativo, sombrio e, da forma que estava exposto, quase o decretava culpado. Até que Paulo Leandro nos viu lendo a matéria, e nos alertou de que aquela página estava concorrendo a melhor foto e não ao melhor texto. Eu e Marilúcia nos entreolhamos e não entendemos bem o porquê de aquela matéria estar concorrendo em outra categoria, afinal até há pouco discutíamos o quanto a imagem ratificava algo que o texto fazia questão de afastar. Paulo Leandro pegou a matéria de nossas mãos e dirigiu-se ao grupo ao lado (que estava analisando a parte gráfica) explicando que aquela foto tinha sido feita em uma situação excepcional: como a audiência ocorrera a portas fechadas, o fotógrafo aproveitou um buraco na fechadura para enquadrar parte do rosto do suspeito. Desde então, tudo mudou de figura. O problema foi que nenhuma etapa desse processo foi explicada ao leitor (nem por texto, nem por legendas). E a primeira leitura é a que fica. Eu e Marilúcia não nos convencemos; mesmo após a explicação a foto não nos parecia “a foto”, o que fez com que ela caísse no ranking do nosso TOPNEWS e do de grande parte da turma. Depois dessa discussão, Sérgio Costa nos alertou que aquilo foi realmente um erro de edição e que a narrativa sobre o processo havia sido esquecida de ser encaixada em algum lugar da matéria.

Foto de Antonio Saturnino: flagra do reú na audiência através do buraco de uma fechadura