O que você pensa do CORREIO? O que você acha das matérias? Das capas? Das fotos?
Se as respostas chegaram à ponta da sua língua, não foi diferente conosco. Hoje, conversamos sobre tudo isso de forma aberta e sem constrangimentos. Na conversa, também estiveram presentes as professoras Graciela Natansohn e Regina Gomes; o secretário de redação, Paulo Leandro; o editor-executivo, Oscar Valporto e o diretor de redação, Sérgio Costa.
Vamos combinar que passamos da fase de dizer que o CORREIO é popular e ponto. Quais são as especificidades do produto? Por que ele é popular? Seria por causa do tamanho dos textos, da linguagem, do apelo ao drama, das fotos? Mas ser popular é necessariamente ruim? Essas e outras questões que nos rondam na academia, sem dúvida, surgem na hora de analisarmos o produto. Não só porque somos estudantes de jornalismo, mas porque, sobretudo, somos leitores de mundo. O exercício hoje foi bem bacana porque através dele conseguimos pôr em prática a teoria sem nenhum constrangimento.
Logo quando chegamos, Paulo Leandro distribuiu algumas matérias que estão concorrendo ao TOPNEWS para que pudéssemos avaliar alguns quesitos gerais (interesse, relevância, clareza, diagramação, aparência) e selecionar o que seria a melhor reportagem e a página (imagem/fotografia/diagramação) mais bem resolvida do bimestre julho/agosto. O TOPNEWS é resultado da parceria da redação do CORREIO com o setor de Recursos Humanos da Rede Bahia que a cada dois meses premia os melhores trabalhos publicados no veículo. Pretende-se, com isso, a busca constante pela qualidade no produto final.
Para facilitar o trabalho, nos dividimos em dois grupos: um para analisar os textos, outro para analisar aspectos visuais página. E cada um de nós ficou com cerca de quatro matérias para analisar. Eu, por exemplo, li quatro textos*: “Dança dos prefeitos”, “Loucos por buzu”, “O chifre é real”, “Revolução na era digital”.
*Hoje, cometi um pecado mortal para o jornalista: não fiz praticamente anotação nenhuma e, por isso, não sei precisar os títulos nem os nomes dos jornalistas de todas as matérias.
Mesmo assim, pontuarei algumas das discussões interessantes que tivemos hoje:
– Windson leu uma matéria sobre o ficcionista James Ellroy da editoria Vida e a avaliou como desinteressante para o leitor do CORREIO, tanto por não fazer uma referência a algo local, quanto por não estar contextualizada. Além disso, ele pontuou o quão caro era um dos produtos (um livro) citado na matéria: como custava R$ 77.00, não seria acessível ao grande público leitor do CORREIO. Logo de início, já tivemos uma polêmica: alguns achavam que por ser um jornal local e carregar o slogan “o que a Bahia quer saber”, o CORREIO deveria evitar matérias muito distantes do universo baiano e pouco contextualizadas; outros, no entanto, que ser um jornal local não deve ser sinônimo de ser um jornal provinciano, o que permite que falemos de tudo, desde que contextualizado com a realidade local. O debate foi acalorado e mostrou como leitores e críticos de um mesmo produto podem ter visões muito diferentes.
– Após observar todos os critérios listados nas duas matérias que leu, Carol elegeu como melhor matéria a “Afogada em problemas”, uma das reportagens da série sobre a Estação da Lapa. Três repórteres a executaram e, segundo Carol, o fizeram muito bem. A matéria traz informação sem cair no drama, mas explorando as histórias de vida, marca característica do CORREIO. As fotos também eram bem interessantes, pois registravam todas as cenas descritas na reportagem (crianças escorregando pelo corrimão das escadas; idosos descendo com dificuldade os degraus da escada, uma vez que a escada rolante não está funcionando; infiltrações no subsolo).
-Ruan (como já era de se esperar) ficou com as matérias de Esporte. Ele admitiu que nenhuma das candidatas entraria no seu TOPNEWS, mas que se fosse para escolher uma, ele selecionaria uma das matérias que fez parte do especial sobre a Copa e que abordava a vida dos moradores de rua que conseguiram emprego na construção civil e estavam ajudando a construir a Arena Fonte Nova. Me perguntei o porquê de esta matéria estar em Esportes e não em 24 horas, afinal o enfoque humano era muito mais presente. O fato de estar associado à Fonte Nova pareceu justificar, mas não convenceu.
-Marilúcia ficou com as matérias de polícia. O incômodo dela foi o mesmo em quase todas as matérias. Foi perceptível, inclusive, em uma das mais aclamadas dentro e fora da redação que é a das 1000 vidas. Estereótipos, dramaticidade, texto muito leve e brincalhão para temas muito complexos e complicados foram alguns dos pontos sinalizados pela colega. Outro incômodo: o tom de “premiação” que um dos textos da série mostrou ao recuperar a história do milésimo morto, somente por ser o milésimo. As pontuações da colega também geraram bastante polêmica – polêmica esta sempre bem-vinda quando o assunto é lidar com momentos de dor e perda de um ente querido, por mais que este tenha sido gauche (torto) na vida.
– Por fim, eu. Das matérias que li, gostei muito da que falava sobre sites de relacionamento destinados a homens e mulheres casados que estavam a fim de trair seus parceiros. A matéria brincava um pouco com a discussão do real/virtual e conseguiu uma estratégia gráfica interessante. Uma tecla de computador que continha a barra e um casal. A barra funcionava como cerca que estava sendo pulada pelo homem. Apesar de na matéria o repórter ter conseguido depoimentos de muitas mulheres que traem, a imagem confirma uma estatística do próprio site: os homens são os maiores usuários da rede e os que mais traem. Além de dicas de como não acreditar em tudo o que seu parceiro diz, a matéria informava como trair sem deixar pistas em aparelhos eletrônicos. Muitos colegas não gostaram da ideia de se destinar um espaço só para isso – conferindo certo tom panfletário à prática -, mas não vi problema algum e achei super divertido. A matéria da dança dos prefeitos falava sobre a bagunça da prefeitura de Madre de Deus que em menos de seis meses já carregava cerca de 13 decisões judiciais distintas. A matéria é interessante, pois revela o quanto é possível fazer uma matéria gostosa de ser lida e bastante informativa sobre um município próximo (por falta de equipe e de suporte técnico, sabemos o quanto esse tipo de cobertura é difícil e refém dos telefonemas nem sempre esclarecedores). As fotos que ilustram a alegria de prefeito e funcionários públicos com a última decisão judicial são excelentes. A matéria sobre ativismo na rede que invade as ruas não me trouxe nada de novo (e, com certeza, não traria a muitos de vocês), nem no texto, nem na diagramação, por isso nem comentarei mais nada. De todas que li a que mais gostei, em disparado, foi a dos loucos por ônibus; eles são fascinados por passear, tirar fotos das janelas de ônibus, olhar, dirigir, colecionar, enfim. Até então desconhecia essas pessoas e até mesmo a existência de redes sociais que as aglutinassem. Desconhecia também que isso ocorre em Salvador, cidade famosa pelo sistema de transportes precário. E a matéria, apesar de leve, não deixa de abordar essas problemáticas. Através de gráficos, mostra o aumento de 700% na tarifa do ônibus em 13 anos, além disso, outro gráfico ilustra a queda do número de usuários de ônibus devido ao aumento da venda de carros e recente redução do IPI. Por ter sido publicada num domingo, e por resolver bem todos aqueles questionamentos que tivemos na nossa reunião de apostas para o jornal dominical, acho que ela merece levar o prêmio TOPNEWS de melhor reportagem.