Para a sexta-feira (4) tínhamos em nossa programação o acompanhamento de repórteres na rua, entretanto, a tal rotina jornalística – que por ironia nunca se repete – nos pegou mais uma vez. Ao chegarmos à redação, logo pela manhã, eu e Edely Gomes fomos informadas que os repórteres já haviam saído, mas que poderíamos ficar por lá e acompanhar as atividades internas até que um novo chamado soasse. E foi o que fizemos.
Aos poucos, os outros colegas foram chegando e tivemos a oportunidade de participar da reunião de abertura. Aquela que acontece logo de manhã e revela os primeiros rabiscos do que será a edição. Na mesa de reuniões, os editores conversam com Paulo Leandro e apresentam para ele as pautas previstas para o dia e o andamento da apuração dos repórteres que já estão na rua. E Paulo questiona os dados apresentados, tenta recriar a cena a partir das informações passadas pelos editores. O texto começa a dar os primeiros sinais de existência.
Outra sugestão de pauta é apresentada. E são questionados os enfoques possíveis, os elementos que podem ajudar na contextualização, as formas de evitar a reprodução de preconceitos, a representação por meio das fotografias, tudo é discutido e anotado, ponto a ponto, pelo secretário de redação, Paulo Leandro. Na reunião de fechamento, que costuma acontecer às 17h, os temas serão revistos e posicionados, considerando para tanto sua relevância, proximidade, interesse público, imagens.
E o diploma, é importante?
Logo após a reunião, a redação recebeu a visita de uma turma de alunos no 2º ano colegial, vindos de Cipó, no interior do estado. Nós, os jornalistas de futuro, que permanecemos na mesa de reuniões conversando enquanto aguardávamos ansiosos o momento de ganhar às ruas, fomos convidados a participar da conversa com os estudantes. Apesar da timidez dos garotos, iniciamos uma discussão sobre a importância e/ou a necessidade do diploma para exercer a profissão.
O debate foi iniciado por Paulo. Ele apresentou os argumentos que o fizeram mudar de ideia quanto à necessidade do diploma para exercer a profissão de jornalista, ressaltou a importância dos blogues como um ambiente democrático de experimentação, de treinamento da escrita, como possibilidade de mostrar ao mundo o que somos capazes de produzir utilizando letras e ideias. Um dos argumentos utilizados por ele para justificar que o diploma pode não ser tão necessário foi a identificação, ao longo de sua vida profissional, de pessoas que escrevem bem, mesmo não tendo passado pela faculdade de jornalismo. Confesso que me senti bastante incomodada, mas continuei atenta à fala dos meus colegas, esperando a minha vez de falar.
A conversa começou a esquentar, alguns alunos se soltaram um pouco mais e, numa brecha das vozes que se sobrepunham, coloquei para fora o que, a essa altura, já estava quase pulando de dentro de mim. Comecei a apresentar minhas impressões mais íntimas. “Um bom texto é, sem dúvida, algo extremamente importante para um jornalista, entretanto não é suficiente. A cada semestre, a cada disciplina que finalizo me certifico cada vez mais que o jornalismo envolve questões que vão além de uma boa escrita. Antes e durante o processo de produção de um texto jornalístico precisamos evocar questões éticas, de gênero, pontos específicos de um modo de fazer. Antes do texto ganhar forma existe todo um processo consciente e de significados, os quais descobrimos dentro da universidade. É lá que encontramos sentido para o que fazemos. É lá que aprendemos como o jornalismo deve ser – mesmo que na prática não possamos segui-lo em todas as ocasiões. O jornalismo tem um papel social. Nada é assim tão simples. Para além da importância do diploma é preciso atentar para a importância da formação”.
O bate papo continuou e, em mim, continuou também a pulsação da frase: Jornalismo é muito mais que escrever bem, no sentido gramatical. E foi exatamente isso que pude provar duas horas depois quando fui acompanhar, junto com Edely, a cobertura de uma pauta no bairro São Marcos com a repórter Priscila Chammas. Acompanhe: