“Tem coisas que só o jornalismo te dá”

“Tem coisas que só o jornalismo te dá”

Saímos da redação em companhia da fotógrafa Andréa Farias – a repórter já tinha saído em outro carro. Pegamos carona com seu Reginaldo, motorista com 20 anos de casa. O caminho até São Marcos foi bem animado, recheado de conversas. Eu e Edely aproveitamos para fazer aquela bateria de perguntas básicas que fazemos a quase todos os profissionais que temos oportunidade de conversar. Perguntamos sobre a rotina de Andréa, ela nos perguntou como fomos parar ali, nos contou curiosidades que já viveu em seus anos de profissão, os lugares onde já trabalhou. Seu Reginaldo continuava atento ao trânsito intenso da Avenida Paralela, mas isso não o impediu de participar da conversa que se estendia.

Perguntou se gostávamos de jornalismo e nós respondemos, empolgadíssimas, que sim. Entretanto, a pergunta seguinte não foi respondida de imediato. Ficou como uma reflexão. “Vocês gostam de trabalhar fim de semana, Carnaval, Natal, Reveillon? E completou dizendo: “Jornalista faz festa para os outros”. Enfim chegamos ao nosso pretendido destino. Tão logo seu Reginaldo estacionou o veículo, comecei a perceber os olhares dos que passavam e me veio o pensamento que, em seguida, transformou-se em palavras: o carro da reportagem chama tanto atenção quanto um carro de polícia. A repórter, acostumada com aquele tipo de realidade, confirmou.

Priscila e Andréa buscam imagens para compor a matéria

Priscila Chammas foi logo mostrando a Andréa os personagens que havia conseguido e os locais que considerava interessante para serem fotografados. Partilhou com a colega o tema da pauta e o enfoque que teria, como orienta os manuais. A matéria é resultado do trabalho conjunto entre o repórter de texto e o de fotografia. Seguimos em direção à Rua Lúcia.

Andamos na lama, tomamos chuva, subimos e descemos com muito custo e medo de escorregar, um simulacro de escada aberto num barranco que dava acesso a algumas residências. A pauta era sobre lugares que ofereciam risco de desabamento em dias chuvosos. Fomos abordadas por um homem, que nos levou até sua casa para que conversássemos com uma mulher, a qual dizia ser sua mãe. O homem dava indícios de que abrigava em seu corpo um elevado nível de álcool. O odor que exalava não deixava dúvidas. A conversa rendeu, mas a senhora não permitiu que fosse fotografada. “Essas situações acontecem sempre e, nesses casos, eu apago todas as imagens que, por ventura, já tenham sido feitas”, explicou Andréa.

Residências em locais de risco e de difícil acesso.

Além das informações necessárias ao tema da pauta em questão, a mulher começou a expor outro problema – falta de pavimentação na rua – enfrentado pelos moradores do local. “É assim, o povo acha que tudo que nos fala vai estar no jornal do dia seguinte. Veem o repórter e começam a falar das situações que vivem”, enfatizou Priscila. Antes de dar a cobertura por finalizada, nos restou ainda contornar o pedido de dinheiro, feito pelo homem que nos havia abordado minutos antes. Depois disso, no carro, Priscila entrevistou por telefone a fonte oficial – que segundo manuais, deve ser sempre a última a ser contatada – e finalizou o trabalho de campo. Agora ela poderia retornar à redação e, enfim, escrever o texto. De preferência um bom texto.

A satisfação tomou conta de mim. Mesmo estando apenas acompanhando, consegui me sentir realizada. Do dia, ficaram duas frases. Uma que eu disse e outra que ouvi de Andréa quando seguíamos em direção ao São Marcos. A primeira: “Jornalismo não é só escrever bem”. A segunda: “Tem coisas que só o jornalismo pode dar e a diversidade humana que se consegue alcançar por meio dele é fantástica”.