Na sexta-feira (04), eu e Marilúcia acompanhamos uma repórter na apuração de uma matéria no bairro de São Marcos em Salvador. A empreitada foi grande: subimos e descemos um barranco, sujamos os nossos pés na lama e fomos abordadas por uma fonte bastante solícita, embora não muito sóbria. Mas… Vamos com calma. O dia não começou assim.
Na quinta feira, havíamos combinado de, em duplas, sairmos com repórteres do CORREIO para acompanhar a apuração. Como não dava para os dez jornalistas do futuro saírem juntos de uma vez, pensamos num escalonamento em que os pares chegariam de hora em hora. Para aproveitar bem o dia, eu e Marilúcia decidimos chegar cedo – lá pelas dez e meia da amanhã. E assim, numa sexta-feira chuvosa nós chegamos à redação. Se você imaginou barulho, gente gritando, telefones tocando, fez como eu, se enganou. No fim das contas, o nosso cedo já era bem tarde. Os repórteres da manhã já haviam saído para cobrir as suas matérias.
Como não haviam saídas programadas para aquela hora, acabamos fazendo um plantão improvisado, ansiando que um repórter fosse chamado para cobrir algum acontecimento imprevisto. Confesso que nunca desejei tanto que um acidente ocorresse, nada sério, só o suficiente para mexer um pouco com a redação. Após quatro horas de cadeira, alguns biscoitos e um debate acalorado sobre a importância do diploma, veio o chamado. Uma repórter estava saindo para São Marcos. Saindo não, saído. Priscila Chammas tinha acabado de sair para cobrir uma pauta sobre áreas com risco de desabamento em Salvador. Por sorte nossa, a repórter fotográfica estava indo cobrir esta mesma pauta e mais outras duas. Pulamos no carro que levava Andréa Farias e seguimos para São Marcos. Sorte não é bem a palavra correta, pois é comum que repórter e fotógrafo sigam em carros separados.
No caminho, entre uma sinaleira e outra, fomos perguntando a Andréa e seu Reginaldo, o motorista, como era estar nesta correria do dia a dia. Andréa responde com satisfação que para ela, já são 19 anos sem um dia de rotina: “Todas as vezes que eu publiquei foi diferente. Mesmo quando são as mesmas pautas, e é aí que está o desafio”. Até que foi a vez de Reginaldo nos fazer uma pergunta:
– E aí, vocês estão gostando de jornalismo?
– Claro!
– E vocês gostam de trabalhar no Natal e outros feriados?
– … .
Chegamos a São Marcos. Lá, a repórter já estava nos esperando para fazer as fotos da casa de uma família que ela estava entrevistando. Priscila passou os detalhes da pauta para Andréia que ia tirando as fotos e explicando como provavelmente ficaria, depois, na diagramação.
Aqui vai um adendo: se bons jornalistas são aqueles que encontram as melhores fontes para chegar à história, bons motoristas são aqueles que acham os melhores caminhos para chegar ao destino. E que destino! Não me peçam para refazer o trajeto, por que não conseguiria chegar lá.
Após conversar e tirar fotos da primeira família, Priscila seguiu na rua em que estávamos procurando por mais casas. Encontrou duas que ficavam ao fim de algo que em algum momento deve ter sido uma escada, mas que, naquele dia, mais se assemelhava a um monte de lama. Não foram encontrados adultos nas duas casas que ficavam acima da “escada” e, portanto, descemos de novo com o maior medo de escorregar no barro. Quem disse que na descida todo santo ajuda, nunca tentou descer um projeto de barranco, cheio de lama, enquanto começa a chover.
Já em terra firme, nos preparávamos para ir embora quando um morador da rua em que estávamos abordou a repórter alegando “conhecer muito de áreas de risco da região”. O rapaz parecia meio fora de si, dado o nível etílico do seu hálito, mas foi capaz de nos levar a uma moradora (sóbria) que pôde testemunhar com clareza os estragos que a água faz em sua moradia quando chove muito na região. Desta vez, não foram feitas imagens, pois a senhora não quis ser fotografada. Após o solícito morador pedir uma pequena ajuda de custo pela informação (prontamente recusada), voltamos ao carro e de lá mesmo Priscila ligou para a Codesal a fim de fazer uma entrevista, enquanto Andréa seguia em outro carro para cobrir outras pautas.
Enquanto íamos de volta para o jornal, não pude deixar de pensar que, apesar da lama, este tinha sido um dia surpreendente. Poderíamos ter ficado o dia todo na redação ou até mesmo sair para cobrir uma coletiva sem graça, mas fomos parar no outro lado da cidade. Nunca foi tão legal se sujar de lama.