Bastidores da Notícia

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Adilson Cruz confessou o assassinato / Foto: Lorena Vinturini

Adilson da Cruz, acusado de matar a ex-namorada a facadas, confessou o crime e foi apresentado pela polícia na tarde desta sexta-feira (4). Junto com Leo Barsan, repórter do CORREIO, Carol Gomes e Luana Ribeiro, fomos ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) acompanhar a apresentação. No local, só havia eu e mais um fotógrafo, que era da assessoria da Polícia Civil. Nenhum outro representava os veículos.

Por que?

Foto: Divulgação/Polícia Civil

De volta à redação, conversei por mais de uma hora com Márcio Costa e Silva, editor de fotografia do CORREIO, que me explicou: “Em primeiro lugar porque não é um crime tão relevante”. E em segundo porque, convenhamos, não há muito que fazer de diferente em um caso deste (o que remete ao texto Infotógrafo que falo das “pautas e pautas”). A foto da assessoria parece muito com o meu clique. Por isso, Márcio acredita que não é necessário dispensar tempo e mão de obra para cobrir este tipo de evento.

Foto: Luana Ribeiro / Dispositivos móveis

Repórteres tentaram, mas Adilson permaneceu em silêncio / Foto: Lorena Vinturini

De qualquer forma eu estava lá e aproveitei para clicar os bastidores. Jornalistas dos principais veículos de impresso e televisão estavam presentes. Primeiro, a delegada, Clelba Regina, esclareceu, em coletiva, as perguntas dos jornalistas. Depois, acompanhado por um policial, Adilson entrou na sala e logo encostou o rosto na parede. Microfones nas mãos e câmeras a postos, os repórteres tentaram a todo custo que ele falasse algo, mas Adilson permaneceu em silêncio.

Fotografar ou não?

Trabalhando para um jornal não há espaço para esse questionamento. Mas na minha posição de ainda estudante, confesso que me incomodei em retratar o preso. Quando ele chegou à sala, a cena que vi foi desconfortante: um ser humano sendo exibido como um animal e todos frenéticos para tentar roubar sua atenção.

Se ele estava com o rosto escondido não queria aparecer, certo? E eu, enquanto produtora da imagem, tenho o direito de clicar? Quando questionei um dos repórteres presentes (e experientes) a respeito disso, ele respondeu: “se ele não quisesse realmente aparecer tinha esse direito. Muitos escondem o rosto com a camisa, por exemplo”.

Essa é uma inquietação típica de foca, que demonstra o embate entre o ideal ético e a lógica de mercado. Com o tempo e experiência, os profissionais encontram os limites em que as práticas jornalísticas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas.