Na última sexta-feira, a agenda dos Jornalistas de Futuro marcava atividade em campo, acompanhar os repórteres do CORREIO nas apurações de rua. Para o estudante de jornalismo, a apuração é o momento frio na barriga. As dúvidas variam: Como vou saber o limite das minhas perguntas? Se eu cobrir um velório, devo insistir para falar com os familiares da vítima? Quando eu sei que já apurei suficiente? A verdade é que por mais que você leia de trás para frente um manual para os focas, não dá pra seguir um passo a passo. Na hora de apurar tem que ter o famoso feeling, curiosidade aguçada e aquela cara de pau amiga. De preferência sem perder a elegância, mas invariavelmente ela se perde sem você dar conta (o que é um perigo).
O resultado da sexta-feira foi cobrir, no Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), a apresentação de Adilson da Cruz, pedreiro acusado de assassinar a facadas a ex-namorada. Muitos dos veículos de comunicação de Salvador estavam presentes e se aglomeraram ao redor da delegada Clelba Regina para esclarecer o crime. As perguntas partem das mais óbvias, é assim que você garimpa o lead. Onde foi o crime? Onde encontraram o acusado? Quem é a vítima? Qual a motivação do assassinato? Quando tudo aconteceu? Como foi o homicídio? O acusado já tem histórico na polícia? Enfim. Todas as perguntas foram postas e as respostas foram dadas. Mas foi bem depois, quando os repórteres conversavam esperando uma outra delegada para se pronunciar sobre um outro crime que alguém se lembrou:
– Ei, e onde foram as facadas no corpo da vítima?
Parece inacreditável, uma pergunta tão óbvia e importante passou despercebida durante um bom tempo por repórteres experientes. Afinal, a depender de onde foram as facadas, o crime ganha uma nova cara: mais ou menos dramática. São esses detalhes, aparentemente acessórios, que dão a essência da narrativa jornalística. O lead vai ser praticamente o mesmo em todas as notícias, mas os detalhes é que fazem a diferença.
Lendo o CORREIO e acompanhando este blog, presumo que todos já sabem que o jornal tem uma linha de narrativa jornalística com história – início, meio e fim – e personagens. Assim, aproximam o leitor do fato e prendem a atenção na notícia. Esse recurso, se é que eu posso chamar assim, aparece com mais ou menos força em outros jornais da própria cidade. Acontece que se existe um jogo no jornalismo, ganha quem conta a melhor versão da história. Nem sempre a melhor versão da história é a mais próxima do acontecimento verdadeiro, mas o ideal é que seja.
Microfones e flashes – Os repórteres anotavam tudo, costurando o relato da delegada para a construção das matérias. Logo em seguida, Adilson da Cruz foi apresentado. Uma cena um tanto desconfortante. O rapaz encostou a cabeça na parede e se recusou a falar. Alguns repórteres se aproximaram, enfiando microfones e flashes em cima do pedreiro, tentando espremer qualquer palavra e aproveitar qualquer imagem. Ele permaneceu mudo, com os olhos fechados, cabeça baixa rente à parede e mãos algemadas.
Eu, minhas colegas, Lorena Vinturini e Luana Ribeiro, e o repórter que acompanhamos, Leo Barsan, discutimos um pouco sobre o caso. Ali, naquela situação, Adilson da Cruz não se tratava exatamente de um criminoso, mas de um homem que cometeu um crime passional, sem nenhum histórico na polícia. O fato de não ter dado nenhuma palavra e se manter arrredio fez com que ele se tornasse apenas mais um personagem dos casos de homicídios que acontecem em Salvador. “Já fui em apresentações que os presos dão risada, se exibem, tiram onda”, disse Leo Barsan. Provavelmente, se a reação do acusado fosse uma dessas, a exibição seria perfeita para o fim do caso policial. Mais que uma exibição, um espetáculo.
Como jornalistas precisamos saber onde foram as facadas e escrever a melhor versão da história, e muitas vezes não nos damos conta do drama que aquela pessoa – sim, é uma pessoa – está passando e com o direito de ficar calada, de não ser exposta. Mas faz parte do jornalismo, faz parte do show, mesmo que pareça cruel. No calor da apuração, do registro dos fatos e das imagens, alguns passam por cima da ética e fazem dos personagens verdadeiros animais de circo. Outros, claro, mantêm a elegância. Essas questões vão além da apuração, muito além. E o frio na barriga dá lugar ao peso da responsabilidade nas pontas dos dedos ao escrever as matérias.