Ivan Dias: “Destino é uma desculpa tola para o fracasso”

Em 11 perguntas, a 11ª turma do Correio de Futuro conheceu melhor 11 dos profissionais da redação do Jornal Correio*. Como nem só de jornalismo vive o jornalista, as respostas dos repórteres e editores entrevistados revelam seus interesses, lembranças e hobbies para além da profissão. Confira.

ivanfinal

Soteropolitano de 34 anos, Ivan Dias Marques é jornalista, cantor, instrumentista, pai, filho e mergulhador. Criado nas ruas e playgrounds do Costa Azul, é remanescente da última geração no bairro que ainda explorava o asfalto como campo de futebol, pista de skate, ciclovia e palco para outras brincadeiras. Recentemente, teve uma experiência que julga ter sido a mais rica no âmbito profissional: cobrir os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Quando não está centrado na editoria de esportes do CORREIO, acompanha o crescimento da pequenina Lulu (sua filha) ou solta a voz e os acordes na banda de rock metal Jimmy Six. Sobrou mais um tempinho? É hora de cair no mar para visitar as profundezas (adora mergulhar!) e de bater uma bola com os amigos.

Correio de Futuro – Você, além de jornalista, é musico. Em algum momento o jornalismo e a música se complementam ou interagem, enquanto duas vivências suas?  

Ivan Dias Marques – Sim. Quando eu estava trabalhando em cultura, isso aconteceu um pouco mais, obviamente. Na medida em que eu, frequentando a noite, principalmente em eventos de música, alguma banda me chamava atenção, algum tipo de movimento me chamava atenção, eu podia trazer isso como uma pauta para o jornal. Algum disco…isso sempre foi bem tranquilo, assim. Sempre foi algo contumaz da gente, de quase uma obrigação do jornalista de estar presente na noite. E eu como músico, ainda mais em Salvador, sendo música de rock, de uma cultura alternativa de rock – metal -, é que eu vivia mesmo um mundo que era bem exterior do que o resto das pessoas vivia no jornal. Hoje menos, mas isso rola muito. Com o passar do tempo também, a gente descobria alguma coisa na internet, pesquisando, algo que vinha do meu gosto pessoal. Que aí você descobre, por exemplo, novas ferramentas de gravação, você acha, às vezes, músicos brasileiros tendo alguma relevância no exterior, tal, isso acaba se tornando a pauta jornalística.

Foto: Facebook / Jimmy Six

Foto: Facebook / Jimmy Six

Você entrou no CORREIO pela sessão Vida (cultura) e hoje é editor de esporte. Isso aconteceu naturalmente ou você sempre quis cobrir esporte e trilhou seu caminho para isso?  

Um pouco, um pouco. É…sempre que eu fiz jornalismo a minha intenção era mexer com música e com esporte. Quando eu entrei no CORREIO a vaga era pra cultura, era algo que eu me dava super bem, e fiz cultura. Minha passagem para o esporte foi quando rolou uma vaga interna para isso. Eu, na época estava trabalhando no Aprovado, também, na TV Bahia, e trabalhar no esporte me dava uma facilidade melhor de conciliar as duas atividades, trabalhar na TV e no jornal. Em cultura isso estava chocando um pouquinho, porque, particularmente aqui no CORREIO, na editoria de cultura, cada um tinha seu papel bem definido e ficava complicado alguém cobrir quando eu precisava sair pra realizar alguma matéria de TV. Em esporte isso acontece com maior facilidade, as pessoas desenvolvem as mesmas atividades, semelhantes. Então se eu precisasse de alguém me cobrir ou eu cobrir alguém, era mais tranquilo.

Quais as suas leituras e esportes prediletos quando o objetivo é descansar a mente e se desligar da rotina?  

Eu gosto muito de caça submarina, de mergulhar. Caça submarina pra mim é um momento muito meu, apesar de eu estar mergulhando com outras pessoas sempre, porque não é nem seguro você mergulhar sozinho. Mas, é um momento muito seu, muito de decisão. Tem outros esportes que eu gosto, talvez correr gostei durante mais tempo. Mas, a caça é um momento mais tranquilo, que você entra em outro mundo, é outra situação, é mais silencioso. Aliás, o silencio é fundamental. Então, isso se torna realmente uma atividade bem legal pra mim. Quando eu quero ler algo diferente, geralmente eu procuro blogs. Tem um blog americano chamado de The Players Tribune, que é um blog feito por jogadores e atletas, principalmente americanos, mas às vezes alguns atletas estrangeiros também. São os próprios atletas que escrevem, sem interferência de um assessor, coisa do tipo, e tem muitas histórias pessoais bem legais. Acho que é a leitura que eu mais gosto. E alguns outros blogs que fogem dessa coisa do esporte, da prática, e vão para a parte de histórias mesmo, das pessoas, isso é bem interessante. Documentários também são bem legais, essa parte eu gosto bastante.

_mg_8130

Se suas investidas na música ganhassem proporções nacionais e lhe rendesse fama, dinheiro e sucesso, você se imagina mais feliz vivendo desta forma?  

100%. Com certeza. Tranquilamente. Não tenha a menor dúvida disso. Até não precisava ser tanto dinheiro, não. Sendo o mesmo dinheiro eu já estava largando. Não que eu não goste do jornalismo, eu gosto do jornalismo, mas eu acho que quando você faz o jornalismo sem essa obrigação de trabalho, ele flui melhor, ele flui mais naturalmente. O impresso te dá essa rotina, às vezes a gente tem como escapar, principalmente quem tem coluna, a gente escapa um pouquinho da rotina, mas eu não tenho a menor dúvida que…é o que sempre digo, eu não fiz música e não fiz educação física por falta de coragem, só por causa disso. Senão eu teria feito.

Seu processo criativo para compor uma música é o mesmo que você leva para outros âmbitos, como o profissional? Como é se debruçar em duas formas narrativas tão distintas?

São processos criativos distintos. Eu acho assim: no jornalismo você tem dois tipos de processos. Tem aquele processo que você tomou gosto da matéria, que você quer escrever aquela, que você sabe que pode escrever um texto diferente e bem particular, e outro que é quando você faz o básico, aquele texto bem corriqueiro e bem formal, ate mesmo por uma questão de espaço, e aí, são situações diferentes. Quando, inclusive, faço esse texto mais trabalhado, eu gosto de fazer ele praticamente de uma vez só, nem paro. Antes de começar o texto já pego as informações, algumas coisas, e mando bronca. Se tiver uma dúvida ou outra, vou ali e pesco a dúvida ou alguma informação, mas basicamente, no aspecto mais criativo e mais poético de certa forma do texto, é de uma vez só e vai fazendo. A música, eu tenho um processo de criação que é ao contrário da maioria. Não é raro, mas é o contrário da maioria. A maioria das pessoas escrevem as letras e fazem a música em cima. Eu faço o contrário, que é o processo criativo de você fazer a música e depois jogar a letra em cima da música. Primeiro você faz a melodia e depois você procura uma letra. As vezes, se tiver algumas letras escritas separadamente e você joga, vê aquela letra que se encaixa melhor com a aquela música, de acordo com a pegada da música e a pegada da letra, esse é o normal. Mas, às vezes também a gente está lá no estúdio criando com a banda, começa a balbuciar alguma coisa, a vir alguma coisa na cabeça que você está pensando naquele momento, da rotina, faz umas palavras, e depois com a música pronta você só encaixa mais alguma outra coisa.

Jornalismo investigativo também é você investigar a vida de uma pessoa e contar a história dela. Você ter um apuro de contar, de ir ao lugar onde ela nasceu, de onde ela começou a sua história. Isso também é um jornalismo investigativo.

 

Na palestra de apresentação do produto Correio você comentou comigo que pensou em fazer educação física se não jornalismo. Você tem vontade de fazer outra graduação? Assumir outra profissão futuramente? 

Eu tenho, sim. É difícil planejar isso, dizer que vou fazer isso agora. Eu estou terminando uma pós, depois de terminar essa pós…acho que a gente procura um pouco de estabilidade, quando eu tiver um pouco mais de estabilidade na vida posso tentar fazer outra graduação. A depender do que eu quero dessa graduação, é a minha escolha. Se eu quero uma graduação pra me completar pessoalmente, provavelmente vou procurar isso aí, música. É bem provável que eu procure música porque é algo pessoal. Se eu fizer uma graduação que vá me prender pelo aspecto profissional, talvez eu procure outra coisa que talvez nem seja tão ligada ao jornalismo, como o direito, que é uma graduação que já fiz um ano, tenho matrícula trancada na Católica – eu acho que ainda existe a matrícula – e que é uma coisa que eu podia voltar pensando na questão profissional.

Juca Kfouri, durante o Festival Piauí Globonews de Jornalismo, apresentou um dado explicando que as reportagens de esporte da Folha de S Paulo perderam alcance depois que pararam de fazer investigações e críticas. Como fazer um jornalismo esportivo na Bahia que mostre mais uma visão crítica sobre o futebol, para além do lúdico e esportivo? 

Dá pra fazer, sim. A questão é meramente a estrutura dos meios de comunicação. É…se você tiver profissionais suficientes que você possa dedicar um profissional, tirar ele da rotina do esporte, e botar ele na rotina da investigação, você consegue fazer. A questão é de tamanho de equipe, mesmo. Assunto sempre tem, não falta, não, e dá pra investigar. O jornalismo esportivo investigativo, ele não necessariamente precisa ser algo ruim, algo que você esteja procurando uma denúncia, um erro de alguém. Jornalismo investigativo também é você investigar a vida de uma pessoa e contar a história dela. Você ter um apuro de contar, de ir ao lugar onde ela nasceu, de onde ela começou a sua história. Isso também é um jornalismo investigativo. A gente às vezes costuma tratar essa vertente como se fosse só denúncia, só procurar aquilo que as pessoas querem esconder, mas eu não considero isso, não. Acho que investigação é tudo que necessita de um apuro maior, e um apuro maior necessita de tempo.

Você se considera um rapaz supersticioso? Se sente à vontade para falar sobre sua religião e/ou prática religiosa? 

De superstição a gente sempre tem alguma coisa, sempre se apega a alguma coisa. Mas, eu sou um cara muito racional, então eu tento fugir da superstição sempre. Às vezes a superstição vem e eu vou de encontro a ela. Vou dizer assim: não, isso é completamente emocional, não tem nada a ver com superstição, vamos ser racionais e esquecer isso. Destino é uma desculpa tola para o fracasso.

Você sofreu alguma ameaça por parte da torcida ou de assessores devido a alguma matéria publicada? 

Devido a alguma matéria, não. Mas, assim…torcedor de futebol é um bicho estranho, não é? Se o time dele está ruim, ele vai arranjar culpa em qualquer coisa, e a impressa fica sendo culpada. Ou se ele viu uma matéria que ele não gostou uma vez na vida do seu jornal, independentemente se foi você quem escreveu ou não, ele vai descontar em você, podemos dizer. O máximo que aconteceu foi estar no carro do jornal e alguém falar alguma coisa, dizer que o jornal é torcedor de time A ou time B, mas ameaça em si, não. Já teve discussão, nada demais. Acho, às vezes, que até por uma característica pessoal minha de, nesse caso, sempre me impor. Não impor fisicamente, mas através da palavra, através de uma fala mais firme. Já estive em algumas situações que as pessoas que estavam comigo ficaram apreensivas e eu não. Nessas finais de campeonato, por exemplo, e a pessoa fala “fecha o vidro do carro aí, o torcedor pode fazer alguma coisa”, e eu “que nada…”. Não tenho muito receio disso, não.

Sua filhinha ainda é bebê, e o pai dela assume uma rotina de editor de jornal impresso. Como tratar a divisão do tempo nesses dois momentos tão especiais, um na sua vida pessoal, que é o crescimento de sua filha, e o outro no âmbito profissional?  

São dois lados. Primeiro que, assim, eu e minha esposa a gente sempre foi da…minha esposa também não é uma pessoa que tem um horário muito fácil, porque ela é enfermeira e trabalha em plantão. Então, a gente sempre pensou em a filha da gente se adaptar a nossa rotina e não a gente se adaptar a rotina dela. Eu tenho um colega na editoria que o filho dorme sete horas da noite; a minha filha dorme onze da noite. A gente tenta botar ela pra dormir dez, mas ela enrola até dormir onze. Então, a maioria das vezes chego em casa, ela ainda está acordada. E como eu trabalho do início/meio da tarde até o final da noite, eu tenho a manhã com ela também, por ela acorda tarde, umas oito e meia, nove horas, um horário de boa. Nesse sentido o jornalismo pouco atrapalhou, dá para, tranquilamente, acompanhar o crescimento dela, e quando ela entrar na escola vamos ver o que vai acontecer. Mas, por enquanto que ela não está na escola, está de boa.

Dá pra resumir Ivan Dias Marques em uma frase ou em três palavras?

Eu falei durante a gravação que o destino é uma culpa tola do fracasso. Eu gosto muito dessa coisa de você controlar o que você faz. Então, tem uma frase que é de Matrix, do filme, que quando perguntam ao personagem de Keanu Reeves, se ele acredita em destino, e ele fala: não acredito porque eu não consigo conceber que eu não controle aquilo que eu faço. É mais ou menos por aí, eu não acredito em destino porque eu não consigo conceber isso. Eu acho que eu controlo o que eu faço e o meu destino está diretamente vinculado às ações que eu tomo.