Jorge Gauthier: “Jornalista não pode ter o papel de julgador”

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Jorge Gauthier não tem medo de fonte, e muito menos de trabalho. Foto: Acervo Pessoal

 

Ele adora Beyoncé. Embora isso seja motivo suficiente para mensurarmos a lacração de Jorge Gauthier, o jovem jornalista oferece closes ainda mais admiráveis. Jorge é formado em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e é o atual chefe de reportagem de Economia, Brasil e Mundo no jornal CORREIO. Não para por aí, o rapaz é também criador do Blog Me Salte.

Com sorriso no rosto, e trajando suas típicas camisas de estampas coloridas, os contrastes do jornalista não se restringiram ao visual. Ao responder as 11 perguntas da 11° Turma do Correio de Futuro, Jorge provou ser como um arco-íris, repleto de diferentes cores e muito versátil. Ele diz não ter medo de nenhuma fonte e garante que, como jornalista, não julga Marco Feliciano, pastor e deputado federal brasileiro conhecido pelas opiniões conservadoras e contra a diversidade sexual.  Vistam seus maiôs, liguem os ventiladores, coloquem Single Ladies para tocar bem alto e confiram:

Correio de Futuro: Como é ser homossexual e escrever para homossexuais?
Jorge Gauthier: O Me Salte é um projeto que eu relutei internamente por muito tempo, por colocar a minha orientação sexual como forma de trabalho. Estou no jornalismo há cerca de 9 anos, já passei por diversas atividades, mas o Me Salte é minha realização pessoal e profissional mais exitosa. Eu sei de pessoas incríveis que se identificam com a produção de conteúdo que eu faço, e eu me sinto representado nessa produção de conteúdo. Quando eu era um adolescente gay, não tinha esse tipo de identificação, as referências eram muito poucas. A liberdade de expressão e de imprensa em relação às questões de gênero e sexualidade há 5 anos não eram as mesmas da modernidade. Hoje, eu me sinto realizado de poder escrever e produzir conteúdos que envolvem esses temas de identidade ou orientação sexual, sendo um jornalista gay. Acho que isso, de certa forma, me credibiliza mais, pois acabo tendo uma autonomia e um conhecimento maior dessas causas. Claro que um jornalista não-gay pode falar sobre o assunto também, afinal, está na essência da nossa profissão escrever, inclusive, sobre aquilo que a gente não conhece.

As pautas do Me Salte vão além da vivência gay, englobando transgêneros, travestis, bissexuais, etc. Isso envolve outras formas de representatividade, que é um assunto muito delicado. Já acabou dando algum close errado ao tratar do assunto?
Eu sempre tive muito cuidado em falar sobre expressões ou identidades de gênero que não são as minhas. Eu sempre brinco dizendo que tenho “consultores”, que são pessoas que eu não me incomodo em ligar para perguntar como elas querem ser identificadas no jornal, ou tirar dúvidas sobre a utilização de termos e tratamento de determinadas situações. O jornalista precisa ter a humildade de reconhecer que não conhece sobre tal assunto. Sempre busco falar com quem entende para que não ocorra nenhum preconceito, pois a questão de gênero, para quem vê de fora parece algo super simples, apenas trocar o artigo masculino pelo feminino, mas na minha experiência de convivência com pessoas que possuem outras identidades de gêneros, não é só um artigo, é a forma como elas se identificam, o local delas dentro do universo. Tem veículos que não possuem essa preocupação, especialmente com a população travesti e transexual, que mais sofrem com situações de transfobia e bizarrices dos meios de comunicação. Não se trata apenas da falta de conhecimento, mas principalmente da falta de responsabilidade.

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Nesses contrastes entre o Me Salte e o mundo da economia, como é noticiar, em questão de minutos, um pronunciamento do ministro da Fazenda e as nudes do Paulo Zulu?
Para mim, é tranquilo. Eu chego no jornal mais ou menos às 7h, faço a parte de economia, Brasil, e mundo até as 15. Mas o Me Salte, que é um projeto meu em parceria com CORREIO, eu faço no meu tempo livre. É como se fosse um freelancer, que por coincidência está hospedado na empresa em que eu trabalho. Também sempre gostei de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, então pra mim é normal, estou vendo uma coisa e fazendo outra. Sou aquela pessoa que ler três livros simultaneamente assistindo televisão. Minha cabeça tem vários compartimentos!

Além disso, eu me tornei chefe de reportagem de economia do CORREIO com 25 anos, é uma função complicada, eu não tinha experiência na editoria, portanto foi um fato muito simbólico na minha carreira.

Qual a experiência mais bafônica da sua vida de jornalista? E qual a experiência mais uó?
Aconteceram várias coisas muito importantes. A produção do livro reportagem sobre Irmã Dulce foi muito significativa porque surgiu de um especial de reportagens que eu desenvolvi com outros jornalistas do CORREIO, Victor Uchoa e Alexandre Lyrio, ganhamos até um prêmio. No processo de criação do especial, eu fiquei responsável por contar a história de Irmã Dulce. Então eu tinha muito material sobre isso e resolvi fazer o livro. Além disso, eu me tornei chefe de reportagem de economia do CORREIO com 25 anos. É uma função complicada, eu não tinha experiência na editoria, portanto foi um fato muito simbólico na minha carreira.

Depois disso eu ganhei prêmios em economia e no caderno de imóveis, que editava até junho desse ano. As séries de reportagem que que causaram mais impacto foram a do PCC (Primeiro Comando da Capital – SP), onde um bebê havia sido abandonado em um carro na Avenida Paralela e, na minha investigação, descobri que a criança estava dentro de um contexto de briga entre facções de Salvador e São Paulo. Repercutiu muito. A outra, eu assinei com Mariana Rios e Alexandre Lyrio, e se chamou Estatuto do Crime. Foi quando descobrimos que dentro do sistema prisional da Mata Escura, um preso chamado Ravegar, famoso na década de 80, havia escrito um estatuto do crime, com regras do que se podia ou não fazer na cadeia. Com essa série, fomos finalistas do prêmio da Associação dos Magistrados do Brasil. Chamou muita atenção do poder judiciário e do país inteiro.

capa-irmadulce-021214Quanto a experiência mais uó…Bem, sem querer ser piegas, eu acho que tudo que fiz na minha carreira teve um propósito e um aprendizado. Talvez a experiência mais “diferente” que eu tive foi na época da Copa do Mundo, quando tive que chefiar a equipe sem saber nada de futebol. Inicialmente eu ficaria mais com a parte de comportamento, e os jogos mesmo seriam cobertos pelos meninos do esporte. Uma semana depois, eu já sabia o nome de todos os jogadores! Sempre fui de estudar mesmo, uma missão é uma missão, então vamos encarar. Nunca tive medo de trabalho, se é para fazer, eu faço. Obviamente uns são mais prazerosos que outros.

Em se tratando de inspiração profissional, quem seria sua diva do jornalismo?
Eu admiro muito o trabalho de Gay Talese pela forma de ela contar histórias. Um mantra que eu tento levar é o de se perguntar qual a função do jornalista? E a nossa função é reportar os fatos para as pessoas. Porém, atualmente, temos uma concorrência muito grande com outros meios e formas de chamar a atenção. Só paramos para ler um texto se for muito bom, se for rico de detalhes, que prenda a atenção. Talese tem esse entendimento melhor do detalhe. O detalhe é o que me parece mais fascinante.

E exemplo para não seguir… quem seria o seu Bolsonaro?
Toda forma de produzir jornalismo tem sua validade e seu público receptor. Esse exemplo para não seguir não seria uma pessoa em específico, mas sim formatos e apropriações de formas de fala em reportagens, matérias que vão de contra aos direitos humanos, as identidades das pessoas. Eu prefiro não me aproximar desse tipo de prática. Em todo lugar tem pessoas boas e pessoas que preferem seguir por outros caminhos.

 

Um sonho vai alimentando o outro, afinal, nós temos o direito de estar em qualquer lugar. Sua identidade, sua orientação sexual, sua classe social não podem ser um impeditivo na sua vida.

O que você perguntaria a Marco Feliciano em uma entrevista?
Vai depender da pauta, mas eu não tenho medo de fonte nenhuma. Nunca tive. O jornalista não pode ter o papel de julgador. Chegar para ele e perguntar “Por que você faz isso?” talvez não seja o melhor caminho, mas se você disser “Você como parlamentar, pela lei tal, não acha que está indo de encontro com os direitos humanos e etc?”. Jamais julgaria ele, não é o meu papel.

O curso de jornalismo tem sido foi muito frequentado pelos gays assumidos, militantes ou não. O que você espera dessa nova geração de divas afrontosas que estão ocupando as redações?
Sempre foi assim (risos). Eu acho que não só no jornalismo, mas na sociedade, as pessoas estão tendo uma possibilidade de enfrentamento. Não no sentido de brigar, pois tem acontecido um movimento muito importante nessa geração, chamada de “geração tombamento”, que é o de se empoderar dentro de suas capacidades para ocupar espaços que antes não eram ocupados. Talvez em um jornal conservador, nunca o chefe de reportagem fosse gay. É uma questão de ocupação de espaços, que transcende o jornalismo e vai para a engenharia, medicina, enfermagem etc. Trata-se de um trabalho multiplicador, porque as pessoas se baseiam em inspirações e referências, logo, ao ver um semelhante naquele posto que você jamais pensaria em alcançar, você sente que também pode chegar até lá. Um sonho vai alimentando o outro, afinal, nós temos o direito de estar em qualquer lugar. Sua identidade, sua orientação sexual, sua classe social não podem ser um impeditivo na sua vida.

O que você mudaria no jornal CORREIO?
Hoje, o CORREIO tem caminhado para uma linguagem mais digital e integrada com o impresso. O que importa mesmo é a diretriz, e a daqui é fazer o impresso e o online caminharem lado a lado, e não um sobre o outro. Baseado nisso, a gente poderia intensificar a produção de vídeos, que a gente já usa, mas pode crescer mais. Criando videos que, por exemplo, não dependam de uma matéria, mas que sejam uma matéria.

Como sua mãe te descreveria?
Minha mãe é tão fã, que só vai falar coisas boas (risos). Eu sempre fui esse caxias, o cdf chato, a pessoa que ficava sempre estudando e vendo televisão. Eu sou muito dedicado em tudo que faço, então talvez ela desse foco nisso da dedicação e do cumprimento das tarefas que me são passadas. Quando estamos em uma empresa grande temos duas opções: ser mais um objeto decorativo dentro dela ou fazer a diferença. A dedicação é fundamental para isso.

E se amanhã você acordasse no corpo de um participante do Correio de Futuro. O que você faria?
As turmas do Correio de Futuro possuem uma oportunidade de transitar por áreas da redação que eu demorei a passar antes de entrar no jornal. A grande vantagem dos futuros é que eles conseguem viver a dinâmica do veículo e ter uma visão do todo com a humildade, que é rara para alguns, de entender que está na condição de aprendizado. Apesar de eu acreditar que o aprendizado é algo mútuo, os futuros estão em formação. Em tese, eles têm mais para ouvir do que para falar no sentido de construção e troca. Existem muitos futuros que não entendem isso. Se eu fosse um futuro, eu teria esse entendimento.