Juan Torres: “Se eu não fosse jornalista, estaria pilotando avião”

 

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Em 11 perguntas, a 11ª turma do Correio de Futuro conheceu melhor 11 dos profissionais da redação do Jornal Correio*. Como nem só de jornalismo vive o jornalista, as respostas dos repórteres e editores entrevistados revelam seus interesses, lembranças e hobbies para além da profissão. Confira.

Juan Torres é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e atualmente assume o posto de editor de Inovação no CORREIO. Sabatinado por 45 minutos, ele quase se atrasou para uma reunião mas não deixou de responder com calma nenhuma das questões. Por outro lado, Juan mexia incessantemente as mãos quanto mais atrasado ficava e vez ou outra dava um sorriso de criança tímida quando aparecia um questionamento mais controverso.

Qual o maior desafio em fazer com que dados se transformem em história?

Juan Torres: O grande desafio é você saber fazer as perguntas certas pros dados. Hoje, a oferta deles é muito grande e a tendência é aumentar cada vez mais. Portanto, é muito importante você “entrevistá-los”. A sua obtenção, a fonte e a credibilidade são essenciais para uma análise. Com dados organizados e estruturados é que você começa a entrevista e nela você encontra as histórias. É necessário saber fazer as perguntas corretas. Geralmente procuramos nos extremos, é lá onde podem estar as boas histórias. O jornalismo busca a história na exceção, enquanto o de dados encontra na regra. Se você escolher padrões que nunca foram observados ou que possuem um ponto fora da curva, você pode ter algo bom pra contar.

“Mentiras que são amplamente compartilhadas on-line, dentro da rede, podem assumir rapidamente a aparência de verdade. Apresentadas a evidências que contradizem a crença que tinham, as pessoas têm uma tendência a negar os fatos num primeiro momento”. (The Economist, set/2016) Ao trazer histórias que nunca foram contadas, como o jornalismo de dados enfrenta a era da pós-verdade?

Acho que o jornalismo de dados pode ajudar a quebrar algumas dessas mentiras que surgem. Um exemplo bem clássico que a gente já fez no CORREIO foi a matéria Cidade negra, produzida há uns três anos. A pauta nasceu da gente tentando perceber quão grande era a população de Salvador e o que é ser a cidade maior fora da África, em números. Descobrimos que Salvador não é a cidade mais negra do Brasil; não sendo a mais negra do Brasil, ela não é obviamente a mais negra fora da África. E não é nem de longe. Em proporção, Salvador é 37º cidade no Brasil em número de população negra, segundo dados de 2010. Em números absolutos ela até lidera por uma vantagem pequena de São Paulo, mas ainda assim não é a mais negra fora da África porque nos Estados Unidos existem cidades com populações maiores e mais negras. É aquela história: Uma mentira repetida mais de mil vezes se tornou verdade e hoje em dia as pessoas continuam repetindo isso sem nunca ter checado. Então a gente foi checar e descobriu isso. Imagino que muita gente tenha conseguido emplacar projetos com esse argumento. Mas saiba que isso é, numericamente, uma mentira.

Nessas polêmicas de notícias que se espalham muitas vezes não sendo verdade – embora o conceito de verdade seja bastante relativo -, eu acho que o jornalismo de dados serve para gerar um freio. Por outro lado, ele também tem armadilhas, muitas armadilhas. Por isso a importância de trabalhar os dados com ética. Não é diferente a ética do jornalismo dentro de dados.

Nem Hilary nem Trump. Eu preferia um Bernie Sanders

Você acredita que o populismo de direita, que pode ser ilustrado hoje com a figura de Donald Trump, ganhará mais força nos próximos anos? Por quê?

É a velha história do ciclo. Eu acho que a gente teve um ciclo de esquerda muito forte, depois do começo dos anos 2000 pra cá, e há alguns anos a direita vem ganhando espaço na Europa e agora essa onda está chegando ao Brasil. Eu acho que pode estar só começando.

Hilary ou Trump?

Nem Hilary nem Trump. Eu preferia um Bernie Sanders, mas enfim, diante das opções… (silêncio prolongado) a gente tem que dizer que é Hilary. Mais pelos próprios americanos do que por nós. Acho que pra gente não vai fazer grande diferença. A política externa americana não vai mudar. Ideologicamente, eu acho que Hilary está mais próximo do que eu acredito.

Não sei se Dória já veio no Nordeste, mas eu digo que existem muito mais coisas que uma Ralph Lauren

Você é deputado federal durante o governo Temer e está participando da primeira votação da PEC 241, que cria um teto para gastos públicos. Qual o seu voto e quais as justificativas?

Contra, absolutamente contra. Acho perigosíssimo estabelecer um teto de gastos para coisas tão básicas como saúde e educação. Eu não sou um exímio conhecedor de orçamento público, mas certamente devem haver outras maneiras de você segurar os gastos que não seja limitando coisas básicas por tanto tempo. Sequer estamos falando de um limite emergencial, estamos falando de alguns anos. Enfim, acho um tema muito complicado.

Voltando à conversa dessa onda “direitosa” do mundo, acho que a gente tá caminhando pra ela, o que eu considero muito perigoso.

“Algum dia, quem sabe, todos os brasileiros poderão usar polo Ralph Lauren”, declarou João Dória (prefeito eleito de São Paulo) há duas semanas. O que Juan sonha que os brasileiros possam usar daqui a alguns anos?

Não sei se Dória já veio no Nordeste, mas eu digo que existem muito mais coisas do que uma polo Ralph Lauren. Pra começar, eu sequer acho que uma polo Ralph Lauren seja necessário, por mais dinheiro que se tenha. Precisamos de muita coisa básica ainda. Primeiro, uma roupa, seja ela qual for. Muita gente sequer tem isso. É um pouco aquela música dos Titãs: a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. Acho que os brasileiros são muitos carentes, apesar de ter melhorado muito nos últimos anos. Acredito que evoluímos bastante, mas socialmente a gente precisa de muita coisa ainda. Educação, saúde, lazer, mobilidade, transporte público decente. Eu acho que tem uma série de coisas que os brasileiros precisam.

Depois de Minas Gerais, a Escola de Princesas chega a São Paulo. Você cogitaria matricular a sua filha nesse colégio, se ele chegasse a Salvador? Por quê?

De jeito nenhum. Quero a minha possível filha bem longe de qualquer valor desse tipo. Eu acho completamente anacrônico você ficar inserido em valores que estão ligados a uma separação social, a aristocracia. Não tem nada a ver comigo.

Além disso, está ligado a papéis determinados de gênero, dos quais eu não concordo em absoluto e que a sociedade faz com que a pessoa se enquadre. Seu comportamento é balizado, talvez em primeiro lugar, pelo gênero. Desde pequeno isso acontece, até porque é a coisa  mais fácil de distinguir quando você é bebê. Você é homem, eu vou botar azul; você é menina, eu vou botar rosa. Eu acho muito bizarro. Quanto mais liberdades e oportunidades a gente tiver e que eu possa dar aos meus eventuais filhos, melhor.

(Fonte: Estadão)

Proibição da vaquejada: qual o seu lado e o que você argumenta?

Eu sou absolutamente contra vaquejada e qualquer tipo de situação em que você tenha um sacrifício animal.

E a questão cultural?

É aquele velho papo, um dia a escravidão foi cultural. Eu não acho que esse é um argumento forte. Eu acho que a questão de violência animal é muito mais forte do que uma questão cultural. Embora eu precise dizer que eu já fui a uma tourada em Madrid e achei divertido, achei interessante. Na primeira vez foi bem punk, depois eu quis ir de novo. Financiei isso duas vezes. A sensação é estranha, o ritual é muito estranho, é tão cruel, mas ele tem uma beleza, uma dança… Os defensores inclusive têm argumentos éticos. Éticos pra eles. Dizem que o touro tem toda uma ritualística e que não é necessariamente sacrificado. Para eles, o touro tem que ser morto com honra. Não posso dizer que desgostei, embora seja muito triste o momento da morte do touro.

O que não pode faltar no dia a dia do Juan?

Uma boa comida. Eu gosto muito de comida, mas falta no meu dia a dia porque eu não como bem sempre. Tem pouca coisa que eu não goste e a minha comida preferida de todos os tempos é carne.

Sou contra a obrigatoriedade de diploma para jornalistas. Acredito que pessoas com outras formações, ou às vezes sem nenhuma formação acadêmica, podem escrever sobre determinados assuntos muitas vezes melhor do que jornalistas

Você defende a proteção dos animais e a sua comida favorita é carne? 

Juan: Eu não disse que defendo, eu disse que sou contra a vaquejada porque os animais sofrem. Você pode argumentar também que os animais sofrem porque são mortos mas o que pesa mais é o meu paladar, na verdade. Eu acho que se fosse pra se tornar vegetariano por uma questão de sofrimento animal, a gente deveria deixar de fazer muitas outras coisas. Alguma coisa que prejudica os outros a gente tem que fazer, tem que escolher. E eu escolho comer a carne.

Se não fosse o jornalismo, onde você acredita que estaria?

Se eu não fosse jornalista, estaria pilotando avião. É um sonho antigo. Sempre quis mas sempre foi muito caro. Há uns 10 anos, o brevê – documento que permite pilotar – custava aproximadamente 30 mil reais, aqui em Salvador. É o mais simples e sequer dá o direito a voar com passageiro. É apenas você, o chamado piloto privado. Nos primeiros anos da minha carreira como jornalista, eu cheguei a juntar dinheiro para fazer um curso mas a vida me levou para outros caminhos. Eu não sei se vou ser piloto, mas com certeza eu vou aprender a pilotar.

Se você tivesse o poder de mudar a grade curricular do curso de jornalismo, o que faria?

A princípio sou contra a obrigatoriedade de diploma para jornalistas. Acredito que pessoas com outras formações, ou às vezes sem nenhuma formação acadêmica, podem escrever sobre determinados assuntos muitas vezes melhor do que jornalistas.

Acho que o caminho deveria ser inverso, como é na grande maioria do planeta. Só o Brasil que derrubou há pouco tempo a obrigatoriedade, mas o mercado ainda pratica muito isso.

A gente precisa abrir um pouco essa mente e considero a base teórica muito importante, mesmo sem diploma. Eu tive isso na Uerj. Apesar da maioria das pessoas acharem que é preciso ter mais técnica, eu creio que foi muito importante a base teórica que tive em Teorias da Comunicação, Semiótica e todas essas coisas na faculdade que a gente acha um saco, e é um saco mesmo, mas é muito importante.

Qual foi o seu último livro de cabeceira?

Juan: Eu estava lendo um livro de Mario Levrero, que é um escritor uruguaio. “Um discurso vazio”.

 

El discurso vacío – Mario Levrero

El discurso vacío - Mario Levrero (Casa del libro)

El discurso vacío – Mario Levrero (Casa del libro)

É um romance que se escreveu sozinho. Ele se chama “O discurso vazio” e tem duas partes misturadas. Uma é “O discurso vazio” propriamente dito e a outra, mais extensa, é “Exercícios”. São exercícios de caligrafia feitos para melhorar a letra, ou em outras palavras, para melhorar a minha personalidade através da letra. Assim como os grafólogos asseguram que a letra permite ver a personalidade, há quem sustente que modificando a letra, se pode melhorar algumas coisas da tua vida interior. Não acreditava nisso, mas precisava ter uma boa letra e escrevia 1h por dia. Deixava para a minha mulher para que ela desse uma olhada. Com o tempo essa páginas tornam-se mensagens para ela, que não estava durante o dia por questão de trabalho. Assim, escrevia coisas que precisava comunicá-la, muitas queixas, indicações.

Então foram se acumulando uma pilha de folhas durante um ano e meio. Ao mesmo tempo, nasceu um texto em que eu escrevia sobre coisas pessoais, porém com intenção literária, o que terminou sendo a história de um cão e um gato. Um dia eu fiz uma limpeza no escritório e propus queimar a montanha de exercícios de caligrafia na parrilla onde fazíamos churrasco. Enquanto os levava, o inconsciente me fez ler uma pequena frase e disse: Ah, não, isto me interessa e eu vou ler. Era um romance e estava concluído. Passei a limpo e o inseri em outro texto. Os amigos que leram, incluindo a minha esposa, asseguram que é o melhor que escrevi.

Mario Levrero, Un silencio menos. Conversas compiladas por Elvio E. Gandolfo, Buenos Aires : M (…)

Tradução minha.

No Brasil, o livro está disponível na Livraria Cultura, sob encomenda, e na Estante Virtual.