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Há alguns dias saí para cobrir uma manifestação política em Salvador. Até aí, nada de novo. Jornalista em experiência acaba recebendo todo tipo de pauta. “A rotina de quem fica em cidade é o que acontecer”, dizem. Tudo estaria nos conformes, se, durante as manifestações eu não tivesse sido fortemente hostilizado.

Lá estava, com crachá no pescoço e bloquinho na mão. Um jovem jornalista diante de pessoas com diferentes visões e de posições políticas firmes. Apesar de a manifestação não ter sido uma das maiores, algo me incomodou: essa tal hostilidade em receber jornalista. Tal fato independe do veículo trabalhado, porque notei que os outros colegas não escaparam. Uns mais outros menos, mas o sentimento geral era contra a imprensa.

Essa hostilidade – até então distante de mim, porque só ouvia relatos – ficou fervilhando em minha cabeça e me fez pensar nos porquês das pessoas estarem tão incrédulas de tudo no Brasil. O nosso noticiário e fatos políticos não são os melhores. O que vai para as escaladas dos jornais da TV e para as capas que são estiradas nas bancas, também, inclusive os enquadramentos. Tal impressão atinge a quem faz o trabalho de reportar a fim de garantir o interesse de todos (público).

As pessoas estão descrentes de nós. Repeti para mim mesmo algumas vezes enquanto voltava para redação. O ápice da cobertura foi quando uma das fontes virou e alertou: “olha, não gosto de dar entrevistas, porque tem jornalista que não escreve o que eu falei, você fará isso?”. Tão surreal e desconfortável me pareceu esse questionamento, que tudo que consegui pensar foi em dizer “por favor, eu sou jornalista. Estou aqui para reportar”. Ficou claro para mim que qualquer repórter carrega a instituição imprensa consigo.

Parece banal esse diálogo e toda a situação, mas isso definitivamente ficou em minha cabeça. A nós – imprensa – cabe debruçar nas expectativas que o nosso leitor vem tendo sobre nós e mais: pensar urgentemente em como reverter o quadro antes da instituição (imprensa) se converter em mais um personagem que se perde sem voz e legitimidade. Se as pessoas deixarem de crer no que reportamos, morremos. Ainda que estejamos em outras plataformas, multimídia, tempo real, o que for. Sem credibilidade não há jornalismo. Minha pergunta é: as próximas escaladas e capas penduradas nas bancas vão caminhar a fim de trazer a crença outra vez?