Mães De Santo Amaro

“Mãe que é mãe no parto sente dor” – Protesto do Olodum, Banda Mel.

Na última terça-feira, chegou a notícia de que o Hospital Maternidade de Santo Amaro estava a ponto de fechar por falta de verba, e que agora só estava fazendo atendimento particular. Com algumas pesquisas, descobrimos – eu e o repórter especial Alexandre Lyrio – que a maternidade estaria completando 80 anos este ano, e que era o único local que as santo-amarenses tem para dar à luz aos seus rebentos. “Imagina se Caetano e Bethânia nasceram lá! Só aí já temos um lide e tanto! ”, exclamou o repórter empolgadíssimo. O dia acabou, meu expediente também, e Caetano e Bethânia não nasceram na maternidade.

Dois dias depois, partimos para Santo Amaro de lotação: o motorista, o fotógrafo, o repórter, o presidente da maternidade e eu. Confesso que o aperto não impediu que o balanço do carro fizesse meus olhos pesarem. Lá, conhecemos toda a maternidade, um belo casarão do século XIX com paredes de madeira e moveis de palhinha muito comuns no Brasil nos anos de 1800 e bolinha. Os equipamentos, berçários, leitos, macas e incubadeiras, estavam em perfeitas condições, fazendo falta apenas o choro dos bebes e as risadas de suas mães.

Fachada do casarão que abriga a Maternidade desde 1936

Fachada do casarão que abriga a Maternidade desde 1936

Mães, pois era delas que precisávamos. Como repórter que é repórter tem seus contatos, conseguimos nossas personagens, ambas santo-amarenses nascidas no Hospital Maternidade de Santo Amaro, assim como suas mães e avós. Priscila já é mãe de Clara Vitória, de 9 anos, e espera Lucas Gabriel que está a dois meses de nascer. “Eu vou ter meu filho aqui e ninguém vai me tirar esse direito. A gente tá ali na maternidade e o pessoal fica de frente gritando ‘Vamo Pri! Força! ’. Eu não vou ter isso em outro lugar”, conta a santo-amarense que está juntando 3.500 reais para bancar o nascimento do filho na maternidade local.

Ivana olha Marisol, com apenas 7 dias, dormindo tranquila nos braços do pai, a pequenina nem imagina o que se passou fora da barriga da mãe horas antes de ela nascer. “Chegamos na Santa Casa, mas lá não tinha estrutura nenhuma para nos atender. Fui colocada em uma ambulância, levada para São Francisco do Conde e me largaram na esquina do hospital ” relata a mãe, que ainda sofreu mal atendimento por parte do médico: “Vamos minha filha, abre as pernas” disse ele. Marisol acabou nascendo em Candeias com toda a estrutura e conforto, mas, ainda assim, Ivana lamenta pela filha não ter nascido na sua terra.

Depois dessa não poderíamos deixar de ir na Santa Casa tirar a prova. Aqui ouso dar um pitaco pessoal: me senti quase no Profissão Repórter e vi que não estou tão enferrujada no teatro. Uma pequena encenação foi o suficiente para ouvirmos da enfermeira que “qualquer um pode fazer um parto, até um técnico de enfermagem”.

Neste dia das mães, talvez seja interessante fazermos uma reflexão: mães sentem dores no parto, as Mães De Santo Amaro sentem dores por não terem a liberdade de escolher onde seus filhos vão nascer e por estarem sendo violentadas quando estão em um dos momentos mais sagrados de suas vidas. Os cidadãos protestam: existe todo um movimento para impedir o fechamento da maternidade (Instagram: @eudigonaohm) que, inclusive, já mobilizou grandes artistas.

A apresentadora, Astrid Fontenelle, se manifestou em uma de suas redes sociais

A apresentadora, Astrid Fontenelle, se manifestou em uma de suas redes sociais

Há mel, em meio a todo este caos de saúde pública? Ouso dizer que há: esta naqueles que tem esperança e lutam para que nasçam cada vez mais santo-amarenses, está nas mães que alisam suas barrigas ansiando pela chegada dos seus bebes, e está em você caro leitor. Hoje, pense na sua mãe, e em todas as outras que você conhece, mas pense nas Mães De Santo Amaro, e lute junto com elas para que a Terra de Dona Canô ganhe cada vez mais filhos e filhas. Lhe asseguro que a conquista será tão doce quanto mel.