Não existe matéria sem fontes. Da apuração à publicação, não existe uma matéria no jornal sem fontes ou dados. Nenhuma história se conta sozinha e como é premissa do jornalismo, é necessário ouvir os dois lados. Quando não respeitada, o jornal se torna mero reprodutor de um discurso, ou se olharmos numa perspectiva mais ampla, uma mídia das fontes.
Mas, engana-se quem acha que as fontes simplesmente brotam da pauta para o texto que segue para publicação de um F5 para o outro. Além do bloquinho de anotações, o jornalista precisa ter em mãos uma agenda com boas fontes. Tal relacionamento sempre com o devido respeito e afastamento, caso contrário, resulta em uma relação conflituosa entre os interesses pessoais e privados.
Há fontes e fontes. E há àquelas que não aceitarão falar não importa o que você diga ou faça. Nas editorias cujo ritmo é menos hard news, como a de cultura, entretenimento, economia ou esporte as fontes mais resistentes podem, com o tempo, se tornarem boas fontes. Para o repórter de cidade, no entanto, o relacionamento às vezes se cria no mesmo instante, no primeiro contato. Nessa semana de imersão, por exemplo, tive a experiência de ver como lidar com fontes em vários momentos, mas destaco dois: um na editoria de esporte e outra na editoria de cidade.
Em esporte, o primeiro solavanco foi o de que não é eficaz abordar as pessoas com formalidade. Normalmente os torcedores são pessoas que, no dia a dia, gostam de resenhar sobre as partidas de futebol ou fazer àquela clássica gozação entre clubes. Para mim, que nunca tinha ido cobrir pauta de esporte na rua com torcedores, o trato com a fonte me pareceu valioso de se observar. Aprendi. No final, lá para terceira ou quatro abordagem, já me sentia mais em casa e pronto para conseguir boas histórias e marcar gols.

Na editoria de cidade o repórter transita por inúmeras realidades, às vezes, em um único dia. Foto: Vinicius Gericó
Na editoria de cidade foi o oposto. Não fiz grandes entrevistas, na realidade, apenas acompanhei o trabalho da repórter. Curioso é que em cidade lidamos com extremos. Em uma hora estamos com o prefeito, governador ou com alguém relacionado aos altos cargos da cidade, em outra, estamos exatamente onde às coisas acontecem: na rua em que há mortes, e onde nascem as estatísticas de assaltos, roubos e etc. Não apenas nas ruas, mas em ambientes em que um cidadão comum, irá poucas vezes na vida – ou nunca – como é o caso do IML e das delegacias.
Nesses lugares, duas coisas me chamaram atenção, a primeira é a forma incomoda que eles olhavam para a colega repórter por ela ser mulher. Traços de nossa cultura machista. Senti vergonha pela forma que ela era olhada por outros homens. A banalidade no trato das mortes e da violência, nesse meio, é algo que me deixa sempre reflexivo. “Todo dia lá tem tiroteio, nem é novidade”; “E quando é que lá não morre gente?”. No entanto, essa naturalidade em encarar o que está se institucionalizando não fica apenas nas ruas e segue para a imprensa de forma geral. Dizem que é o que chama atenção do cidadão, certo? Não. Não necessariamente.
Um parêntese: no tratamento com as fontes que são relacionadas aos crimes, os desafios são outros: há o medo em falar e ser morto ou sofrer algum tipo de retaliação, ou simplesmente é arriscado para o próprio jornalista seguir na apuração. É claro que o jornalista tem o direito de manter a fonte em sigilo, se assim for solicitado – chamamos isso de off. Mas também não podemos esquecer que o país é um dos que mais matam jornalistas no mundo. Reflexos da nossa sociedade provinciana que ainda resolve as coisas com o silêncio, intolerância e violência.
O segundo caso foi no IML. Estávamos atrás de familiares de uma vítima morta – aparentemente – pelo tráfico. No processo de abordar pessoa por pessoa, me deparei com uma mulher com os olhos inchados. Pareceu-me que ela havia chorado por um longo tempo e ainda não acreditava que o seu ente estava morto.
Quando perguntamos para ela se conhecia a vítima que investigávamos, a resposta foi um não, mas ao encará-la vi o quão delicado precisa ser o nosso trato com as pessoas e com as suas dores. E aí não interessa se é um parente de alguém que era ou não envolvido com atividades ilícitas, se é ou não alguém acusado de algum crime.
No contato com as fontes, não podemos perder de vista que são pessoas e que cada uma delas tem uma história, sentimentos e dores. Acho que é esse o caminho para termos bons relacionamentos com as fontes e para sermos no mínimo humanos e profissionais. Volto a dizer: há fontes que não irão falar e ponto. Cabe a nós respeitar o silêncio e a dor de cada uma e procurar outras formas para obter a informação para o leitor, evidentemente respeitando os limites éticos.
VALE MAIS UMA CRÍTICA …
Tem faltado sensibilidade no jornalismo em lidar com as fontes, sobretudo as que possuem pouco nível de instrução ou as que são acusadas de algum crime. Sem mais, devemos colocar nos nossos bloquinhos e cabeças que nosso papel não é julgar ninguém, mas de informar, reportar. Isso inclui o tratamento igual para todos.