Ninguém sabe, ninguém viu

Ninguém sabe, ninguém viu

Cobrir a editoria de Cidade é, sem dúvidas, nunca saber o chão em que se pisa. Imprevisível, ela faz o repórter cruzar a fronteira entre pautas mais amenas, como eventos relacionados aos governos, e em outros momentos o leva a territórios disputados por facções criminosas. Até aqui, no meu período de imersão, atravessei por ambos os caminhos.

As palavras de ordem, as louvações para os políticos e as frases proferidas por eles por um futuro melhor ao apresentarem seus pacotes de obras e boas intenções em uma comunidade, não representam, por vezes, a realidade “silenciosa” dos desafios de se viver em um ambiente de medo. A violência tem palanque?

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“Curiosos” acompanham o resgate de um homem baleado. Foto: Roberto Paim

Estive nas minhas últimas coberturas em duas pautas que me colocaram em uma realidade muito dura: a de pessoas que convivem diariamente com o inimigo. Quando se trata de apurar um crime, o repórter tem que saber lidar com a fonte que, mesmo tendo um determinado caso ocorrido em frente a sua casa, não viu, não escutou e muito menos sabe falar sobre.

Nessas minhas experiências entrevistei gente ríspida, rápida na resposta “não quero meu nome no jornal”. Essa fonte também fala baixo, olha para os lados a todo o momento e só diz aquilo que ouviu de “fulano”. São os “curiosos” que aparecem do nada e logo se tornam multidões ao redor do fato. Chegam antes da polícia, do Samu, da imprensa.

Por mais arredios que eles possam ser, têm grande parte das informações que nós, jornalistas, precisamos para contar uma boa história. São eles que nos dão a base para construir um contexto. Só precisamos organizar e filtrar do turbilhão de falas aquilo que serve para ser noticiado.

Nestes dias, aprendi que os “curiosos” são difíceis de falar.

Pude observar mais ainda que persistência, humildade e paciência nos fazem chegar mais perto de respostas mais objetivas. Percebi também que o não falar deles, supunho, é proteção. “Não quero ficar marcado, moço”, disseram alguns. A “lei do silêncio” que impera em ambientes de violência não precisa ser ensinada, creio. Convém destacar o quanto essa questão atrapalha o nosso trabalho e torna cansativo o processo de apuração.

Mas, por outro lado, essa dificuldade nos exercita mais. Meu método, copiando a repórter Amanda Palma, que acompanhei, foi estabelecer uma confiança mostrando que o respeito ao anonimato deles era fundamental. No nosso caso, escrever “segundo um morador que não quis de identificar” já nos serve para garantir um texto noticiável. Para eles, talvez, o não falar garante a vida.