Quando você chega à redação de um jornal a primeira coisa que nota é que não existem salas. É tudo aberto. Trata-se de um salão com profundidade, largo, com mesas dispostas em paralelo ou arrumadas nos cantos das curvas do prédio. Em cada uma delas, há computadores e cadeiras. Trabalhamos de frente para o outro e, mesmo sentados, podemos saber quem está no local esticando um pouco a cabeça.
O som ambiente são os toques do telefone – que quase nunca param – e do encaixe e desencaixe do gancho do aparelho entre as ligações. O tempo, neste universo à parte, é outro. Tudo é guiado pelo imprevisto. A cidade pauta o jornal. Ao receber uma pauta, o tempo de execução dela pode não ser como se estava prevendo ou ela pode cair a qualquer momento, em função de outra mais urgente. Todos os dias nós nos dividimos entre ligações, pesquisas e saídas às ruas.
A PAUTA É A RUA
A ida à rua é a melhor parte, porque cada pauta – mesmo a que parece comum e sem graça – é um laboratório para conhecer novas histórias e realidades. Quando fui chamado a uma dessas mesas por Linda Bezerra, editora de produção do CORREIO, recebi a informação de que iria acompanhar um repórter da editoria de cidade fora da redação. E ela foi enfática, tirando os óculos dos olhos e os colocando nos cabelos grisalhos: “cole nele, faça muitas perguntas, aproveite ao máximo, porque ele é bom”.
Coincidentemente caí em um caso que me marcou em 2014. O repórter Bruno Wendel apurava a conclusão do inquérito do caso Davi Fiúza, garoto de 16 anos, que despareceu. Wendel é o tipo de repórter elétrico, empolgado, que quer detalhes e mais detalhes de suas pautas e, mais ainda, quer que elas repercutam na sociedade em forma de reflexões ou mesmo despertem a justiça. Bingo, esse é o pulo do gato do jornalismo que me fez entrar na área.
Saímos da redação para o encontro com a fonte. No carro, pergunto mais detalhes sobre a rotina no CORREIO, desdobramentos sobre o caso, em suma: o carro é também um lugar para trocar figurinhas e ouvir experiências tanto do jornalista quanto do motorista. Uma pauta só se desenvolve bem com um bom trabalho de equipe.
Com a fonte, o repórter é assertivo nas perguntas. Quer dados, informações, fatos descritos em riqueza de detalhes. Eu, que apenas acompanhava a pauta, mentalmente pensava nas perguntas que gostaria de fazer: “mas e isso?”, ”e àquilo”, porém, surpreendentemente, as perguntas eram feitas sem eu nem precisar falar.
A apuração é concluída na redação com mais ligações, e-mails, e na escrita do texto. Nela falamos um pouco de jornalês (dialeto que só jornalistas ou pessoas da área entendem): “olha a pauta”, “pegue a retranca”, “veja o abre do texto”, “o jornal dará primeiro“. Por fim, a pauta repercutiu e também foi capa do jornal.
MAS UMA CRÍTICA A NÓS MESMO É VÁLIDA
Mesmo com uma rotina apaixonante, se me permite uma crítica à imprensa como um todo, acredito que nós nos perdemos no nosso próprio universo de informações. O cotidiano demanda que apuremos e publiquemos o mais rápido possível. Isso resulta até mesmo em cansaço e estresse, embora os jornalistas de redação normalmente sejam apaixonados pelo que fazem. Fato é que as notícias disparam o tempo todo nas páginas da internet e tudo acaba se tornando efêmero.
O desejo de mudar a sociedade – que vem lá de quando ainda somos aspirantes a estudantes de jornalismo – se perde em meio ao esquecimento dos casos que dizem muito sobre o funcionamento de tudo. A cada novo dia na redação, mais fatos e abordagens. Todos os dias morrem pessoas vítimas de crimes, que sequer tem suas histórias aprofundadas. Quem é a morte número 400 deste ano, por exemplo? Penso que cada pessoa é um livro de histórias e elas são esquecidas o tempo inteiro em função de outras, nem sempre tão relevantes.
O caso Davi, que o CORREIO e Bruno Wendel trouxeram de volta, é um dos que já beiravam cair no esquecimento, mesmo tendo sido abordado várias vezes pela imprensa local em 2014. Mas e os outros? E quanto aos critérios do que é notícia ou não? Uma morte em um bairro nobre chama mais atenção do que às chacinas que são cometidas em bairros periféricos? Por quê? E quanto ao acompanhamento dos jornais diários sobre os desdobramentos na justiça destas chacinas?
E mais ainda: por que as pessoas se chocam mais com mortes em determinados cantos da cidade e noutros não? Parece que temos um problema crônico que a impressa precisa aprender a resolver na sua forma de abordar e estabelecer os critérios de noticiabilidade. E isso é tão urgente quanto à necessidade de disparar a informação. A sociedade também precisa refletir em como lida com tais informações.
O LADO BOM…
Conviver em um ambiente aberto, sem salas, permite que o repórter acabe aprendendo todos os dias com a sua própria pauta, rotina e com a do outro. “O jornalismo é uma cachaça boa”, costuma dizer os repórteres mais experientes. E é mesmo, para quem não tem medo de aprender na rua e nesse universo à parte chamado de redação.