Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer ao leitor que nesse texto farei um relato um tanto pessoal. Todos nós sabemos que o jornalista sempre aparece de alguma forma nas suas produções, mas nessa, especificamente, irei aparecer na primeira pessoa. Talvez isso faça mais sentido ao fim do texto (e talvez não). Em segundo lugar, essa postagem fará clara referência às diversas conversas que tivemos semana passada durante as reuniões com cada representante das editorias e seções do CORREIO. Acertados esses pontos, acho que posso começar.
Fazer jornalismo cultural era um dos meus maiores interesses quando ingressei na Faculdade de Comunicação da UFBA. Meu namoro antigo com a Literatura me fez ver no jornalismo cultural o espaço para abordar certas questões que à época pareciam me definir. Todos os meus esforços na faculdade foram nesse sentido, mas confesso que sinto certo desencanto com a especialidade depois de algumas tentativas de imersão. Na conversa com Hagamenon Brito, editor da seção Vida do CORREIO, pude matar a curiosidade acerca de algumas inquietações.
Hagamenon começou dizendo que se não fosse para fazer Jornalismo Cultural, ele faria Direito, mas, no mesmo instante, ressaltou a importância de o jornalista fazer reportagens e não ser produto de uma especialização precoce.
Especialização. Essa é uma das minhas inquietudes. Enquanto uns afirmam veementemente que jornalista é aquele que tem certeza que sabe de tudo um pouco e que não existe especialização, outros dizem que esta é a saída para um jornalismo profundo e que se destaque frente, às perguntas triviais. Aí me pergunto: como fazer, por exemplo, uma pergunta pertinente sobre música clássica a um músico de câmara, se nem mesmo cogito que há diferença entre essas duas coisas? Claro que posso apurar a minha pauta antes e tentar evidenciar essas tensões no assunto antes da entrevista, mas na verdade, se não faço a mínima ideia que aquilo é posto em causa na área da música, não irei procurar por isso, nem terei como fazer essas pergunta ao entrevistado. Voltando à questão do meu exemplo, a diferença entre os dois tipos de música é: toda música clássica é música de câmara, mas nem toda música de câmara pode ser classificada como clássica (adjetivo que caracteriza a música produzida em determinado momento histórico).
Concordo com Hagamenon que a especialização não deve ser precoce, mas que ela deve existir, para mim, não há dúvida. Esse cuidado é tomado na editoria. Para falar de teatro, fazer uma crítica de uma peça, um entrevista com um ator, Hagamenon pede que quem tenha mais conhecimento sobre o assunto escreva.

Lembrei das discussões que fazíamos durante as aulas de Teorias do Jornalismo, com a Prof. Lia Seixas, sobre a reformulação gráfica e editorial do CORREIO. A análise das notícias publicadas no primeiro semestre de 2009 (sobre chuvas, dengue e meningite) e que resultariam em artigos científicos feitos pelos alunos estavam mais relacionadas às editorias 24 horas e Mais. No entanto, a editoria Vida sempre nos chamou a atenção, a começar pelo nome e pela cor. Vida (em verde) só nos remetia a um sentido: saúde e bem estar. E essa confusão não se dá somente entre os alunos de primeiro semestre, pois, segundo Hagamenon, a editoria costuma receber releases de saúde e turismo. O que então uma editoria com esse nome queria ao falar de cultura? Fizemos a pergunta a Hagamenon e ele nos disse que a mudança foi proposta pela consultoria espanhola Innovation, mas não soube explicar muito bem o porquê.
Apesar de não saber o porquê da mudança, Hagamenon define com exatidão do que se trata o novo produto: “uma seção pop de cultura, e não de cultura pop”. Daí o lema: “Não vale ter preconceito!”. É preciso circular pelo Rio Vermelho para ver o que está sendo feito e consumido lá, mas também ir à Ribeira, aos bairros periféricos. Dessa forma, pode ser publicada em Vida uma matéria que fale sobre a Björk,mas também uma que fale sobre a banda Calypso.

A criação do “Guia Correio” foi ideia de Daniela Fontinele e teve como modelo oGuia da Folha (Folha de S. Paulo) que é publicado às quintas-feiras. O produto do CORREIO é veiculado às sextas e, segundo pesquisas, é o carro-chefe de vendas neste dia da semana. O “Guia Correio” além de trazer a agenda cultural do final de semana e da semana seguinte, também tem críticas de filmes e peças, colunas e uma seção gastronômica. Eu, como leitora, gosto bastante do produto, mas tanto nele, quanto em quase tudo que vejo sobre jornalismo cultural em Salvador, há uma ênfase na agenda, no que está por vir, mas quase nada é divulgado após os eventos, não há cobertura, não há crítica do que tem chegado até nós através dos incentivos governamentais à cultura e da iniciativa privada. Isso transparece certa fragilidade na área do jornalismo cultural, ocasionada, quem sabe, pela falta de especialização. Para ele, dois exemplos de jornalistas que trabalham em veículos locais e que têm contribuído para a crítica cultural são: João Carlos Sampaio (A Tarde, crítico de cinema) e José Teles (Jornal do Comércio, crítico musical).
Depois da conversa, fiquei pensando um pouco mais sobre o nome da editoria e pude até pensar em uma hipótese, que a muitos pode parecer esdrúxula, mas que para mim fez todo sentido. Falar em cultura é falar em vida. A cultura deve deixar de ser vista como erudição, cultivo, perfeição e deve ser concebida assim, (como diriam o teórico Raymond Williams, estudioso da cultura) como um modo integral de vida. A Vida talvez agora faça mais sentido.