A saída para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) prometia salvar o dia. Na quarta, 20, tinha passado a manhã na redação para fazer apenas duas notinhas. A conversa no carro a caminho da minha primeira pauta de polícia, acompanhada pelo repórter de cidade Gil Santos, ajudou a aliviar o nervosismo.
Pouco depois da 13h chegamos ao prédio onde seria feita a apresentação de um casal suspeito de ser parceiro dos assassinos do policial militar Elias de Santos Souza, morto na Federação no dia anterior. A sensação à essa altura não é difícil de imaginar. Delegacias, definitivamente, não são lugares confortáveis. Ninguém pode estar plenamente feliz em estar ali.
Após o atraso de 15 minutinhos compartilhado pela maioria dos presentes, fomos para o auditório. No elevador, encontramos com o delegado responsável pelo caso, Odair Carneiro. “Hoje vai ser coisa rápida”, avisou de prontidão. “Ufa! Vou sair logo daqui”, pensei.
Na sala, o clima de coleguismo entre os jornalistas reinava. O delegado e o major Paulo Guerra, responsável pela unidade que realizou a prisão, também já eram velhos conhecidos dos repórteres. Eles devem ter falado por, no máximo, 10 minutos.
Acabada a divulgação das principais informações, os presos foram trazidos. Eu estava ansiosa por esse momento, claro! Parecia a parte mais atraente da cobertura. Mas eu não tinha noção do quanto aquele momento seria impactante pra mim.
Abutres. Essa é a melhor forma de descrever o que pareciam os jornalistas no momento em que o casal algemado adentrou o cômodo. Sem nenhuma formalidade ou, ainda, nenhuma educação, as câmeras e microfones invadiram os rostos de ambos, interrompidos antes mesmo de se posicionarem no centro da parede com banner da Polícia Civil.
A partir daí, houve apenas espetáculo. Mesmo após ouvirem claramente das autoridades que os presos não haviam participado do crime de latrocínio contra o PM, os repórteres dos canais de TV faziam perguntas do tipo “Foi você quem atirou em Elias?”, “Então foi você quem dirigiu o carro na fuga?”, “Sua intenção era realmente levar o carro do policial ou a ação teve outra motivação?”. Haviam apenas acusações. Inúmeras faladas sem fundamento.
Para um espectador desatento, aquele casal podia parecer extremamente visível. O motivo principal por estarmos todos lá. Mas não era. Acabado o show de horrores, quando os cinegrafistas davam um “ok” para avisar que haviam desligado a câmera e acabado a transmissão ao vivo, os repórteres saíam dos personagens de justiceiros agressivos e ignoravam seus principais entrevistados.
As pessoas entravam e deixavam a sala, se cumprimentavam, falavam em como o dia tinha sido cheio e passavam por eles como se fossem objetos de decoração. A única função dos presos era estar à disposição para quando alguém mais quisesse usar das suas imagens e informações. Eu não ouvi um “obrigado” ou qualquer menção de agradecimento pela entrevista concedida. Eram invisíveis.
Vergonha. Se eu precisasse escolher um sentimento prevalecente naquela tarde seria exatamente esse. Sentada no canto da sala, meu coração já estava na boca. Na minha cabeça, pensava incansavelmente “Não pode chorar, Alessandra! Não pode. Seja forte”.
Mas a pior sensação ficou para o final da apresentação. Enquanto o marido era assediado pelos repórteres, a presa Hilbete dos Santos Souza me olhou fixamente pelo que pareceu durar dois minutos. Naquele momento a minha vontade era abraçá-la e pedir desculpas. Pedir desculpas pelo comportamento dos meus futuros colegas de profissão e dizer a ela o quanto eu estava envergonhada por estudar jornalismo.