Parodiando Milton Nascimento, nas redações da vida, todo jornalista tem de ir aonde a notícia está. Não me refiro só às localidades, mas também às diferentes segmentações existentes – conhecidas como editorias – destinadas a gerenciar as rotinas de um jornal diário. Desde que iniciamos as atividades do Programa Jornalismo de Futuro, soubemos de algumas experimentações feitas pela Innovation Media Consulting, empresa que prestou a consultoria que resultou nas mudanças editorias do CORREIO, em 2008. Entre elas estão reviravoltas nas editorias, com o rodízio de profissionais entre elas. Tirar profissionais de suas ‘zonas de especialização’ é polêmico, mas me parece bastante enriquecedor.
O Secretário de Redação do jornal, Paulo Leandro, por exemplo, nos relatou com entusiasmo o que aconteceu em um dos recentes plantões de final de semana (quando apenas ¼ da equipe de repórteres trabalham): jornalistas acostumados a cobrir festas, celebridades e similares acabaram tendo que acompanhar um acidente envolvendo quatro mortos e 20 feridos na Ilha de Itaparica. Ou seja, a circulação entre editorias serve não apenas como um aprendizado profissional extra, mas também uma prova de que – como também ocorre em outras profissões, como a medicina – antes de especialistas somos generalistas, somos repórteres.
Com essas observações, destaco o quanto foi importante o momento de imersão nas editorias que aconteceu na ultima semana. Conhecer a rotina produtiva, as angustias e os meandros de cada editoria, diretamente da boca de quem as fazem, foi enriquecedor.
Então, coloque a sua roupa de mergulho e me acompanhe, quero contar o que me chamou atenção na imersão pelo Bazar&Cia, Esporte, Vida*, Política e Economia. Let’s go!
O dominical Bazar&Cia, que antes era um caderno em preto e branco, virou o espaço mais colorido do impresso para sustentar a avaliação de sua atual editora: “acho que o CORREIO é pop, não só popular, mas pop”, disse Gabriela Cruz. Além de despertar os Jornalistas de Futuro a pensarem visualmente suas matérias, o Bazar&Cia é um exemplo de planejamento: as pautas dessa editoria são pensadas com um mês de antecedência. Com estilo de revista, esse é o espaço que o CORREIO dedica à moda, design, decoração, comportamento, gastronomia e turismo, além de trazer o Guia da TV.
O jornalista Hagamenon Brito já foi revisor, já cobriu segurança e esporte, mas conta que pelo temperamento o seu lugar é a cobertura de cultura. “Só Fiz jornalismo para trabalhar com jornalismo cultural, caso o contrário, iria para outra área”, disse Hagamenon, que atualmente edita o Vida* e o Guia Correio. Descobri que não sou o único que acha “vida” nome de caderno de saúde e por isso é bom reforçar: esse é o espaço diário dedicado à cultura, que, por sinal, dá muito trabalho fazer (o editor irrita-se quando consideram seu trabalho fácil). Hagamenon, que acha “genial” o trabalho da Banda Calypso e do cantor Silvano Sales, dá a dica: “é fundamental não ter preconceito”.
No Esporte* reforçamos nossos ideais de imparcialidade. Com uma equipe com idade média de 25 anos, Eduardo Rocha (que também é o mais novo editor do CORREIO) conta que lhe compete frear as emoções. Ele considera impossível para os repórteres que cobrem futebol retirarem totalmente a camisa dos seus times do coração, mas reforça a responsabilidade de equilibrar os ânimos, já que nessa editoria “não tratamos somente de notícia, mas também de paixão”.
Dividimos as nossas angustias de focas com a subeditora de política e economia, Maria José Quadro. Hoje, com vasta experiência na cobertura econômica, Maria José conta de um tempo em que, iniciante, sofria em busca de pautas. “O mundo está tão departamentalizado que a tendência é a especialização em certas tarefas”, acredita Maria José. A atuação na editoria de política permite ao jornalista “mexer nas estruturas”, é o que acredita Jairo Costa Jr, repórter especial do CORREIO. Para exemplificar a sua tese, ele lembra quantos casos de corrupção hoje conhecidos foram descobertos através da cobertura política. Cobertura essa que, para Jairo, deve ser “na rua”. “Repórter de política não pode se prender ao telefone, precisa cultivar as fontes indo as sessões [das casas legislativas], precisa ser conhecido”, pontuou Jairo. Repórter de política tem partido? Talvez, mas independente disso Jairo frisa: “não sou contra pessoas, sou contra práticas”.
A biblioteca de Jairo (indicações): As Ilusões Armadas, de Elio Gasparini; Mil Dias de Solidão, de Claudio Humberto (Geração Edirorial, R$ 44); Chatô, O Rei Do Brasil, de Fernando Morais (Companhia das Letras, R$ 59,90); A Real Historia do Real, de Maria Clara Prado (Record, R$53) e Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti (Companhia das Letras, R$ 78).