Infotógrafo

Márcio Costa e Silva, editor de fotografia do CORREIO

O papel da fotografia enquanto instrumento artístico de expressão já é compreendido há muito. Na imprensa, no entanto, ela vem buscando sair do lugar de mera ilustração para ter reconhecida a sua função informativa, expressiva e simbólica. Na produção do fotojornalismo são levadas em conta três aspectos: sujeito, ambiente e circunstância.

Esses aspectos devem estar contidos na pauta. Porém, Márcio Costa e Silva, editor de fotografia do CORREIO, reconhece que muitos profissionais não entendem o que realmente é uma pauta fotográfica. Acreditam que devem dar dicas de como fotografar (Exemplo: “Quero uma foto de baixo para cima de fulano”. Ou: “Posicione a pessoa em primeiro plano e desfoca o fundo”). Quando, na verdade, o importante são as informações que vão auxiliar na hora de produzir a foto. Pensar em como fotografar é papel do repórter fotográfico e não do pauteiro. Uma boa pauta, dentre outras coisas, deve procurar explicar:

  •  Qual o tema da matéria?
  • Quem são as pessoas envolvidas?
  • Tem um personagem principal?
  • Quem é essa pessoa?
  • Tal pessoa é importante?
  • Qual o temperamento/personalidade dela?
  • Local e horário da foto?

Além disso, estar sempre bem informado, ler jornais e revistas reflete no trabalho do repórter fotográfico. Isso porque a interação que o fotógrafo mantém com as informações que possui no seu repertório expande as possibilidades de criação e agrega valor informativo à sua imagem.  Compreender o processo pelo qual passava o governo de Jânio Quadros, por exemplo, foi importante para resultar nessa foto. Seja isso consciente ou inconsciente óptico.

O dedo do fotógrafo          

Nas palavras de Márcio Costa e Silva: “A presença da câmera já interfere no processo”. Quando alguém chega com uma máquina na mão, as pessoas ajustam a postura, policiam seu comportamento e a cena já não é mais a mesma. Por isso, a visão de que para o clique ter credibilidade o fotógrafo não pode interferir, é ingênua. O dedo do profissional de fotojornalismo não precisa servir apenas para apertar o botão. Ele também pode ser papel importante na construção do que será fotografado. É claro que esse arranjo visual, proporcionado pela direção do fotojornalista, requer cuidados éticos. No caso do CORREIO, esse limite ético não é determinado por Márcio porque ele acredita que esse processo é pessoal e depende da sensibilidade e da percepção de cada profissional.

Teatro Gamboa Nova / Peça: Sebastião / Ator: Fábio Vidal / Foto: Lorena Vinturini

Foto produzida para o Jornal da Facom. Pauta: Poesia na internet. Max Fonseca, blogueiro e poeta / Foto: Lorena Vinturini

Além disso, há pautas e pautas. Existem aquelas em que se pode explorar mais a cena da forma que o fotógrafo imagina e aquelas em que pouco ou nada se pode interferir e deve-se trabalhar com os instantes decisivos. Márcio diferenciou, nesse sentido, pautas de personagem e de esporte. Com o personagem, na maioria das vezes, o repórter fotográfico tem tempo e liberdade de criação. Pode – entre diversas opções – sugerir poses, expressões e trabalhar a luz de forma que ela seja um elemento forte de linguagem. Já o esporte não há como entrar em campo e pedir para o jogador chutar a bola novamente. Nesse caso é treinar o olhar para os momentos importantes e contar com a sorte.  O mesmo vale para o teatro, ilustrado na foto ao lado.

No entanto, independente de qual seja a pauta, é possível experimentar. Sair do clique que qualquer um pode fazer é sempre permitido. Para isso, é importante dominar as técnicas fotográficas e explorar suas possibilidades. Os elementos de linguagem (composição, enquadramento, ângulo, planos de imagem, luz, distorções da lente, movimento, cor, foco) devem ser inseridos na rotina produtiva com o intuito de  produção simbólica, informativa e expressiva. Afinal de contas, o fotojornalista não é apenas fotógrafo, mas infotógrafo.
 
Dica de Márcio Costa: Filme – Clube do Bang Bang – Drama baseado nas experiências reais de quatro fotógrafos de combate que capturam os últimos dias do apartheid na África do Sul.

Link para download do filme