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Bater o martelo: Jornalistas de Futuro discutem suas pautas antes da venda | Foto: Lorena Vinturini

Fazer jornalismo é criar espaços de discussão. Diariamente, os acontecimentos e temas correlacionados concorrem entre si para ganhar visibilidade. Os assuntos de conversa de mesa de bar, de corredores das escolas, de ponto de ônibus, da fila do banco, os episódios que causam “burburinhos” na vizinhança e até mesmo aqueles que frequentam as mesas do mais alto escalão do poder chegam à redação. Eles lotam as caixas de e-mail, fazem sinfonias com os toques de telefone, convidam repórteres às ruas e também são discutidos e investigados entre um cafezinho e outro.

“Com um jornal e seções desse tamanho nós temos que fazer apostas, não dá para dar tudo”, reflete Hagamenon Brito, editor do espaço Vida, do jornal CORREIO.  Apostas, leilão, compra-e-venda, são termos e analogias que fazem parte do processo de escolhas e enfoque das notícias. Se na Teorilândia há o porteiro (fundamentado pela teoria do Gatekeeping, que faz analogia ao “porteiro” da redação, aquele que filtra notícias) na redação há os compradores, e o primeiro deles são os editores, seguidos do editor-executivo, que apostam no que o leitor vai querer ler no dia seguinte.

A redação e suas rotinas é o primeiro espaço de discussão do jornalismo, foi lá que, nos últimos dias, encontrei o termômetro da notícia. Percebi que a hierarquização destas surge dos assuntos que têm discussões mais acaloradas, que são motivo de indignação, ou de apoio, ou de riso na mesa de reunião – e certamente em toda a redação.  As reuniões de apostas é a antecipação, se não o complemento, do que todos nós conversaremos no dia-a-dia. Diante disso, quando surge o questionamento se os jornalistas têm aptidões suficientes para definir sobre o que o leitor deve ser informado, faço uma ressalva: jornalistas são pessoas comuns – com relativos espaços de fala diferenciados (obvio), e fazem parte do mesmo grupo que reclama da conta de energia, que fica curioso e se indigna com corrupção nas esferas do Poder Público, que vai ao cinema, que é tiete, etc: o  grupo de cidadãos.

No CORREIO são realizados dois ‘leilões’ diários. O primeiro deles as dez horas, e consiste basicamente em um planejamento com o que já foi apurado no inicio da manhã. “A notícia frustra o nosso planejamento diário”, avalia Paulo Leandro, secretário de redação do impresso. Essa frustração é refletida na segunda e última reunião de ‘compra-e-venda’, que acontece as 17 horas, na qual na maioria das vezes, o planejado na reunião matinal já foi excluído ou reconstruído.

No inicio desta segunda semana de imersão, na segunda-feira (24), o tema foi “planejar e desconstruir”, desta vez nos colocamos nos lugares de pauteiros e tivemos as nossas pautas criticadas. Ficou o aprendizado: é preciso buscar temas que aproximam o produto das pessoas, temas tabus; no mercado, evitar a tendência pseudointelectual à complicações dos temas, antes, simplificá-los.; ser cético e desconfiar de tudo, inclusive não ficar na posição de refém das assessorias. No momento oportuno, quem sabe os nossos lances não possam ser adquiridos em um desses leilões da redação?