Estudante de jornalismo tem fama de ser “descolado”. É aquele cara que vai às exposições, conhece os filmes dos grandes diretores, escuta álbuns de bandas garimpadas no mar da internet, lê Neruda, Camus, Bukowski. Enfim, é o sujeito cult!
Bem, isso nem sempre é verdade, até por que o tempo ($$$) não lhes permite alguns luxos. Pois, jornalistas culturais também carregam um estigma: de serem os caras que trabalham menos e curtem mais. Afinal, o objeto do seu trabalho não são escândalos políticos, medidas provisórias, desabamentos ou acidentes, e sim, fotos, filmes, músicas, livros, seriados… Olhando desta forma, nem parece trabalho. Mas se engana quem pensa assim. O jornalista cultural, como qualquer outro, tem que ter a formação do repórter. Saber apurar, ouvir, escrever, correr atrás. Quem fala isto é Hagamenon Brito, editor de cultura do CORREIO.
Hagamenon nasceu no interior da Bahia, mas morou em cidades como Brasília, Curitiba e Cuiabá. Formado pela Faculdade de Comunicação da UFBA, ainda no 5º semestre começou a trabalhar em jornal como revisor, mas a rotina era muito pesada. Saía de madrugada para estar pela manha na faculdade. Cansado do ritmo, pediu uma oportunidade para virar repórter e assim passou para a editoria de Polícia, onde não chegou a fazer uma matéria sequer. Sua primeira pauta foi no Instituto Médico Legal, num dia em que a refrigeração do local estava quebrada. Os corpos. O cheiro. O vômito. Não conseguiu fazer a matéria e voltou para a revisão por um tempo, até que passou para a seção de Geral e depois Cultura.
O editor ressalta que muitos ainda carregam a ideia de que irão trabalhar menos se fizerem a cobertura da editoria de cultura, mas ele não se esquece das noites que passou acordado lendo livros, cujos autores teria que entrevistar. Fato é que o jornalista cultural precisa de uma boa bagagem, um conhecimento que dificilmente pode ser adquirido através da internet. Para ele, os lugares da informação com profundidade ainda são os livros, revistas especializadas e os clássicos, aquelas obras universais que transcendem o tempo e que servem de referência para o que é lançado hoje. É preciso conhecer os clássicos, sejam eles, filmes, álbuns ou livros. E, claro, tem que gostar de ler. Afinal, alguém conhece um bom jornalista que não gosta de ler?
Mas, e o público? Como passar uma bagagem vasta para o consumidor que, necessariamente, não trilhou o mesmo caminho? Para Hagamenon, o VIDA é bem resolvido nesta questão, pois procura ser um caderno pop de cultura e não um fascículo de cultura pop: “não dá para ser o editor do caderno de cultura e não ver o que é consumido na cidade”, afirma. De Coldplay a Parangolé, você vai encontrar tudo por lá. Desvencilhar-se dos preconceitos é um requisito certo para quem quer seguir este caminho.
E como se diferenciar dos concorrentes? Se há um show importante na cidade, provavelmente, todos os veículos darão a mesma notícia, não é mesmo? Se a notícia é apenas o factual, então a resposta é: sim! Agora, se é possível contextualizar a matéria, fazer uma retrospectiva ou um recorte, trazer um novo olhar, aí o jornalista pode deixar a sua marca. Em tempos de informação democratizada, é isto que faz a diferença.
Para aqueles que sonham em se tornarem jornalistas culturais, aqui vão algumas dicas: