Cartolinas, tesoura, cola, régua e uma ordem: construir um castelo que tivesse paredes, telhado e torre em exatos 40 minutos. Divididos em dois grupos começamos as atividades. Ideias maravilhosas, tentativas de divisão do trabalho, discussões conceituais. Corta daqui, cola dali. Surge mais uma ideia. O tempo acabou. Um dos grupos – o que eu estava – chegou quase lá. O outro, apesar de vislumbrar algo maravilhoso do ponto de vista arquitetônico, por motivos diversos não conseguiu materializar, dar forma ao castelo.
A brincadeira se revelou como um dos momentos mais reflexivos da semana, dando corpo a questões como construção e desconstrução, produção e descarte, frustração e desapego. Esses pares de palavras, em certa medida contraditórias, têm sido as luzes a indicar os caminhos percorridos nos últimos três dias de trabalho.
Como lidar com o engavetamento de um material que custou a ser produzido? E aquela pauta maravilhosa que cai em função de um fato de última hora? Como reorganizar todo o espaço de um jornal quando ele já está fechadinho, prestes a ser enviado à gráfica? Essas e outras questões, suscitadas a partir da atividade proposta, compõem a rotina do trabalho jornalístico. “Rotina que anula a si mesma e se alimenta de mudanças o tempo inteiro”, como disse Paulo Leandro.
A notícia é a matéria prima do trabalho jornalístico. Ela traduz o olhar de um sujeito sobre determinado fato. Fatos acontecem o tempo todo, em todos os lugares. Não respeitam horário comercial, dia santo, feriado, muito menos a lógica tempo-espaço. A notícia frustra o planejamento diário e a velocidade com que irrompe dita o fazer do profissional que lida com ela face a face.
Mas não parou por aí. O conceito de “cabeção”, termo utilizado dentro da redação para designar temas que abarcam um grande volume de informação, complexos, que exigem muita apuração e, consequentemente, um tempo maior para se concretizar, voltou à tona. E junto com ele as sinalizações, as quais minha colega Marília Moreira já expressou minuciosamente, feitas por Paulo Leandro no dia anterior quando apresentamos ideias de pauta para um jornal dominical. Na produção diária de notícias simplicidade faz muita diferença.
O jornalismo diário exige de nós a construção de pelo menos um castelo a cada dia. Ao invés de paredes, telhado e torre, o nosso cliente – o leitor – espera de nós a apresentação de algo novo, dito de forma simples e interessante ao mesmo tempo, mas que, acima de tudo, o situe no espaço e no tempo. Nesse contexto, menos pode ser mais. Mas não é fácil convencer o “cabeção” disso.