O que há de comum entre os escândalos políticos de Collor, de PC Farias e do Mensalão? Todos iniciaram-se a partir da cobertura da imprensa. Relembrando a alta visibilidade que a prática do jornalismo de política tem (leia-se: puxando brasa para sua sardinha), o repórter especial do CORREIO, há 10 anos na empresa, Jairo Costa Júnior, iniciou o bate-papo de hoje, na redação.
Investigação. Agenda. Cultivo de fontes. Desconfiança. Gravação. Off. Esses foram alguns dos termos mais repetidos e enfatizados por ele, que há alguns anos fez das idas às assembleias uma rota constante. “O repórter de política deve transitar entre as casas de poder, conversar e ser reconhecido pelas fontes”, disse. De acordo com Jairo, tomar café por lá pode ser mais valioso que uma pauta dada pelo editor. E para aqueles que acham que o jornalista se refere ao contato apenas com os colarinhos brancos, vai a dica: o 2º e 3º escalões são os que mais noticiam. Eles ouvem, vêem, carimbam. É por eles que passam os documentos mais importantes. As relações com copeiros, porteiros e zeladores devem ser, então, preservadas.
Mas o repórter não deve se animar. Nada de amizade! Isso pode ser perigoso. Outra boa fonte é aquele que guarda uma dorzinha de cotovelo. Doido pra colocar seu rancor pra fora, “o perdedor tem sempre algo bom pra falar”. Entretanto, aceitar um convite de uma boca livre e outras regalias vindas de um político é roubada. Ou, ao menos, pode ser uma tentativa disso. “Não estou afim de fazer amizade, mas de fazer notícia”.
Jairo acredita que o recurso de investigação a partir de pequisas na internet, pouco utilizado pelos repórteres, pode ser um gerador constante de pautas. São grandes aliadas dessa especialização no jornalismo sites como o da Receita Federal e o Portal de Transparência. Mas por, muitas vezes, não saberem fuça-los, perde-se informações preciosas implicitas em vastos bancos de dados. Dados sobre aumento de bens, por exemplo, são relativamente fáceis de serem localizadas. Com o CPF de alguém ou CNPJ de uma empresa é possível desvendar movimentações de cifras. Vasculhar a rede é sempre uma boa pedida, segundo ele, que a faz constantemente.
Se é off, desconfie. Se não, rec
Forte elemento de investigação política, a informação em off requer uma atenção dobrada. “Quais são as razões pelas quais a fonte lhe pediu segredo? E qual é o interesse dele naquela informação?”, colocou em questão. A investigação também faz parte. “Desconfie de tudo o que lhe é dito”. E grave as conversas! De acordo com o repórter, as artimanhas de auto-defesa da classe política é vasta: “político sabe que é passível de gravação, mas sofre de amnésia. E muitas vezes alega ainda que não entendeu bem a pergunta que lhe foi feita”. Ahan, senta lá. Senta lá e aperta o rec. Afinal, discurso feito, vento leva. Mas não fique aí achando que o oposto não ocorre. “São os ônus e bônus da tecnologia”.
Para Jairo, deve-se ler nas entrelinhas o que é publicado por blogs e jornais. Talvez, por tanta desconfiança na informação, ele afirmou não se prender a textos de agências, mas procurar escrever suas próprias matérias. Outro perigo são declarações e sugestões de pautas depois das 20h. Como o político sabe que não há tempo para uma densa apuração, o repórter pode cair na armadilha e ser seduzido pela possibilidade de uma informação exclusiva – qualquer acusação deve vir invariavelmente com documentos que a comprovem.
Bagagem acerca do tema é um dos pré-requisitos para quem deseja entrar na área. Ter uma boa noção do funcionamento das estruturas de governo, como se articulam as redes das casas de poder, é fundamental. Para escrever sobre a política atual do país deve-se conhecer também, segundo Júnior, outros episódios de nossa história. Diante disso, então, pode-se traçar uma linha no tempo de situações que transbordam o que aparece na mídia e dialogam diretamente com o presente. Para pôr mais volume nesse maleiro, ficam aqui dicas de livros dadas por Jairo:
– Chatô, de Fernando Morais;
– As ilusões Armadas, de Elio Gaspari;
– Céu dos favoritos, de Ricardo Noblat;
– Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti;
– 1000 dias de solidão, de Claudio Humberto Rosa e Silva;
– A real história do Real, de Maria Claro Prado.
Blindado ao ser atingido por certas perguntas capiciosas – tal qual políticos – ele sai pela tangente e retruca algumas vezes um puro e simples: “não vou responder”. Com cerca de 10 processos judiciais correndo contra ele atualmente, Jairo sabe bem o quanto um repórter pode ser sagaz nas interrogações que levanta. Contudo, não é aos agentes políticos que ele destina as linhas que escreve. Despindo-se de preconceitos, ele é categorico em afirmar que adotou um mantra para a profissão que exerce: sou contra práticas, não contra pessoas.
Por Dimas Novais