Não sei se os colegas já comentaram o que significam as “apostas” na redação, mas nada mais são que palpites sobre temas, enfoques, panoramas interessantes que poderiam fazer parte de alguma das seções ou cadernos do CORREIO.
A reunião de apostas é feita diariamente com a presença dos editores, secretário de redação e o editor-executivo. Hoje, nós fizemos uma nos moldes do que acontece com a equipe de profissionais do jornal a fim de pensarmos as pautas de uma edição dominical do jornal. Nela estavam presentes Paulo Leandro, secretário de redação; Rodrigo Rossoni, professor de fotojornalismo da Facom/UFBA; Isabela Sanches, do setor de RH e nós, os dez focas.
Tivemos um primeiro momento de discussões acerca dos palpites somente entre nós dez. Esse momento só nosso serviria para ficarmos menos inibidos frente aos “superiores”. O motivo: a percepção de que na reunião de apostas dos editores não havia um tensionamento dos assuntos, nem exposição das fragilidades e dos pontos fortes da pauta. As reuniões de apostas nos pareceram frágeis, pois nelas apenas eram informados repasses quase nunca contestados.
Tentamos fazer diferente. Primeiro, nos perguntando o que é ou o que pretende ser um jornal de domingo. Um jornal mais leve? Um jornal que traz mais colunas e artigos de opinião? Um jornal que em vez de acontecimentos factuais explore mais os panoramas? Após todos terem exposto mais ou menos a sua ideia acerca do que deve ser ou é um jornal de domingo, começamos a etapa seguinte: pensar pautas. Diferentemente da equipe do CORREIO, não tivemos a etapa da pesquisa e da pré-apuração, antes de apostar. Mesmo assim, fomos em frente. Muitas das sugestões partiram das nossas vivências e olhares cotidianos. Uma, duas, três…seis pautas chegaram a ser sugeridas por uma única pessoa. Pautas de temas e perspectivas diversas. Todas foram problematizadas de forma intensa pelo grupo.
Problematizar foi o nosso lema. Tanto, que invadimos o horário da reunião de fechamento do dia (17:00) e tivemos de subir para terminar a reunião nas cadeiras e banquinhos da Praça de Leitura da Rede Bahia. Enquanto muitos curiosos olhavam aquele montão de gente sentado, nós defendíamos nossas pautas.
Inclusive aquelas em que não púnhamos muita fé foram arriscadas de última hora.
Diante de todas as sugestões, Paulo Leandro fez pontuações gerais que não devem ser esquecidas na hora de pensarmos em uma pauta dominical para um veículo como o CORREIO:
– Antes de tudo, pensar no interesse da pauta. O tema, ou a abordagem que for dada a ele, deve tentar atrair o público mais variado (da classe A à E). Domingo é um dia de boas vendas.
-Depois, devemos pensar na viabilidade da pauta: Há pessoal para isso? Há pessoas dispostas a falar sobre o tema no final de semana, por exemplo? (Lembrar que as equipes no final de semana são muito mais reduzidas que o normal).
– Podemos falar de panoramas, de temas não necessariamente factuais, mas isso deve dialogar com a vida, com o cotidiano das pessoas.
– Cuidado com pautas muito pretensiosas e complexas que exijam muitos recursos para a execução e para a interpretação por parte do leitor/leitora.
– Devemos dar atenção redobrada a alguns tipos de matérias que exijam uma pré-produção.
-É necessário levar em conta que o produto jornalístico está inserido em uma determinada empresa de mercado que preza por certos valores. (Obviamente, esses valores nem sempre são tão claros e podem até mesmo entrar em conflito com valores sociais maiores. Temos de estar atentos para as questões éticas).
-É necessário que se procurem ganchos factuais que detonem o tema (caso não haja, a matéria pode funcionar como “matéria de gaveta”, aquelas que não precisam ser publicadas naquele dia, pois são mais “frias”, atemporais).
– É preciso atenção e cuidado para que a proposta de pauta (e a matéria, no final) não pareça propagandística. Este cuidado deve ser tomado, principalmente, quando se tem somente uma fonte para a reportagem.
-Os temas leves às vezes fazem mais sentido que temas sisudos e sérios demais.
Para coroar nossa tarde, surgiu a questão: mas se podemos fazer boas matérias a partir de “apostas” de três linhas apenas, qual a necessidade que tenho de fazer uma pauta de cinco páginas na faculdade? A resposta veio do professor Rodrigo Rossoni: na Faculdade você aprende a base. Com a base assegurada, você pode até fazer uma sugestão de pauta com apenas três linhas, mas é preciso desenvolver habilidades para que uma aposta de três linhas seja realmente sustentada.