Por Marília Moreira
Se tem uma coisa que me deixa intrigada no jornalismo é o uso das imagens. Todos os manuais da área são enfáticos ao afirmar que o jornalismo não se faz sem elas (excetuando o radiojornalismo).
Neste sentido, sempre me interesso em como funciona essa busca pela foto, ou melhor, pela melhor foto, no jornalismo diário. Todas as vezes em que pudemos conferir o espelho do jornal – espécie de lista com os temas e direcionamentos do dia -, tivemos acesso à lista de possíveis fotos para a capa do dia seguinte. Muitas fotos daquela lista nem sequer haviam sido tiradas, mas já estavam lá no espelho como uma possibilidade de vir a ser. E toda a redação torcia para que viesse o mais rápido possível. No entanto, muitas das vezes, uma sugestão de capa cai justamente por não ter aquela foto que atraia visualmente o leitor a ver e, consequentemente, comprar o jornal. A rotina do jornalismo diário é, sobretudo, uma anti-rotina (nas palavras de Paulo Leandro, secretário de redação do CORREIO). Anti-rotina, como o próprio nome diz, é aquilo que desafia a lógica previsível, os acontecimentos planejado do dia a dia. No que diz respeito à busca pelas imagens, isso é mais forte ainda.
Sempre há aquelas matérias mais voltadas aos acontecimentos do dia, ao que está ocorrendo na própria cidade, e nas quais é possível se ter fotografias mais factuais (isso depende também da disponibilidade de carro e de equipe, pois mesmo em um jornal grande isso é ainda um entrave). Há também aquelas fotos de personagens importantes no cenário mundial, muitas vezes, provenientes de agências. Por vezes, a apresentação visual de determinadas matérias prescinde das fotografias, mas vale-se das ilustrações e infográficos.
Mesmo com todos esses recursos, ainda me pergunto sobre quais as possibilidades reais do jornalismo diário trabalhar bem a questão do aspecto visual de uma matéria que trata, por exemplo, da suspensão das ações revisionais de juros derivados de um financiamento. Dou este exemplo aqui, pelo fato de este ter sido o tema de uma matéria da jornalista Ayeska Azevedo. A matéria “Está suspensa a farra das ações revisionais” foi publicada no dia 20 de outubro, quinta-feira, na editoria Economia, e trouxe uma foto de um martelo de juíz.
Não gosto de perceber o uso da fotografia como algo acessório. Isso realmente me incomoda muito. Tudo bem! Se você me perguntasse qual solução fotográfica eu daria para uma matéria como essa, realmente não saberia o que fazer e passaria alguns dias pensando nisso, o que é algo totalmente inviável no jornalismo diário.
A questão dessa foto no jornal me incomodou tanto que cheguei a comentar com o repórter Pedro Levindo sobre esse incômodo. No momento em que conversávamos, ele estava selecionando algumas fotos de agências do ex-líder líbio Muamar Kadafi. Pude perceber o cuidado com que a foto era selecionada e até ouvir as perguntas que ele fazia à colega – que escreveu a matéria – para ver se imagem e foto realmente mantinham um ponto de encontro.
Obviamente, o jornalismo e sua anti-rotina ainda irão pregar muitas peças deste tipo. No entanto, o esforço diário que temos de nos impor é sempre tentar buscar as imagens mais interessantes e definir qual o sentido que quero alcançar ao usá-las. Informação visual e textual devem coincidir sim, mas antes de tudo, devem manter duas diferentes naturezas e peculiaridades.